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"Bellum omnium contra omnes – etiamsi omnes, ego non.". Este blogueiro é dirigido aos escritos iliterários. Aqui este autor expõe seus registros cognitivos e distorções cognitivas.
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DIÁLOGO I
A classe dos Diletantistas Inúteis é notavelmente inábil no que diz respeito ao fumo de charutos e cortes precisos de instrumentos típicos de hábitos tabagistas. É comum encontrar entre eles senhores corpulentos que se orgulham de sua desajeitada (dês)elegância. Mesmo assim, o hábito de fumar é cultivado, com a preferência por charutos com aroma de tabaco maquiado de chocolate – um sabor que parece agradar a seu paladar, já que compartilham do mesmo gosto por barras de chocolate. Eles preferem ficar em seus quintais, em vez de optar por sair de suas casas, usando roupas folgadas e trapos esportivos como pijamas – roupas que nunca foram usadas para um costume atlético.
Observando o Diletantista Inútil fumando o enorme charuto, nota-se a presença de marcas de caneta preta e calos na ponta dos dedos, além das cinzas que inevitavelmente caem sobre suas roupas. Embora pareça desfrutar do charuto, ele parece estar mais impressionado com a quantidade de cinzas que acumulam no cinzeiro – por mais que esteja nítido que esteja fumando um charuto. Esses sujeitos, que escrevem por escrever, leem por ler e frequentam exposições simplesmente por frequentá-las, sem qualquer objetivo útil ou renovável, desapontam as previsões futuristas de Jeremy Bentham. Ao fim do charuto, o Diletantista Inútil prefere voltar a saborear uma barra de chocolate e se refrescar com um copo d'água enorme. E como um reflexo de sua falta de propósito, escreve um texto como este sobre sua experiência vívida – termo muito frequente em suas redações –, concluindo que a próxima vez experimentará um cachimbo com tabaco aromatizado de morango para uma experiência "rósea". Ele ri de si mesmo, sem se levar muito a sério.
Quando este homem notável deixa sua casa, ele sai para conversar com estranhos ou para alugar os ouvidos de alguns garçons ou bartenders em um bar empobrecido e extremamente precário em um distrito portuário pouco iluminado e movimentado. E assim nasceu este diálogo:
“Para citar a moralidade é preciso, antes de mais nada, ter um corpo de ginástica, estes são os critérios que estão listados na sociedade atual, minha cara... Pois, um ser que cuida do seu corpo, através da ginástica, certamente também cuida do seu carácter e moralidade, já que um homem não pode ser legitimado como sujeito descente antes que o seu corpo seja legitimado como um corpo moralista. Nisto o corpo do ginasta é a representação perfeita do corpo moral, e assim ele se faz, a autenticada representação da moralidade. Obviamente, minha cara, obviamente...”.
– Bebeu sua cerveja. Continuou:
“A sociedade mais eficaz, refinada no sentido de conduta, e internalizada, é a comunidade da ginástica. O forte, não é apenas um sujeito forte, é antes disso o porta-voz do povo gímnico, crescido na sua evolução e renovado constantemente, dando às manifestações da vida material e corporal não somente um ser particular e egoísta, mas uma espécie de corpo popular, coletivo de caráter cósmico e universal.”
– Bebeu novamente de seu enorme copo de cerveja. Continuou:
“Quanto a mim, não faço parte da comunidade gímnica, sou um delitantista, sou o outlier, o próprio destoante, mobile vulgus que subitamente chega ao meio da comunidade gímnica, como um personagem legítimo do quadro realista grotesco, causo desconforto e medo na maioria das pessoas que se enojam ao olhar para mim, mas mesmo assim ...”
– Arrotou e soltou um peido alto, embriagado. Continuou:
"... Continuo a seguir o caminho onde o caráter ginástico se torna notório e fortemente político, enquanto o homem gordo perde sua força política e sua notoriedade. Somos sujeitos em uma sociedade seletiva, possíveis sujeitos a serem desasujeitados, porque, como exceção à regra, sou evitado de ser identificado, um modelo erguido, definido de forma fechada, revelado aos lugares onde transito como uma exclusão e um estranho sinistro, já que me foi imposta uma marca quadrada indelével, o que me traz mais infelicidade do que eventos progressivos. As possibilidades são para sonhadores no mundo dissolvido da contradição, onde a contingência se tornou eterna. O olhar externo me marca, me escrutina, me identifica como inidentificável, atribuindo-me valores morais, sociais, éticos, criando um lugar ou lugares para me colocar, bastando me ver correndo para planejar me ver mobilizado. Foi o que me disse o sonho que tive hoje.”.
– Falou rindo, em ares humorísticos, o gordo delitantista inútil que alugou os ouvidos da garçonete apressada:
“É claro que para mim, um corpo gordo como sou, corre o risco de ser expulso da sociedade gímnica a qualquer momento, já que a legitimação do corpo do ginasta é um acordo popular que o concede como o corpo mais fresco do verão mais quente, mais eficiente e mais atrativo nos moldes das molduras de mármore grego sempre referenciadas...”.
– Pegou um charuto de chocolate aromatizado, mal cortado, acendeu de modo desajeitado enquanto falava:
“Moldes que também são reveladores da identidade que exigem dos membros de sua etnicidade e comunidade smart fechada. Já eu, sou o corpo mais seco, quente, mais inútil e mais pouco atrativo, digo pelo que me sinto ou, como chamam os meus, de percepções opinativas enquanto os gímnicos dançam com as putas sobre as colinas da vida e caçoam o eu gordo Sileno pela sua sobriedade. Até o suco de uva tem mais gosto que viver neste mundo embriagado em vinho.”.
– Tragou imaturamente o charuto de chocolate aromatizado, tossindo forte. Disse ainda em seu tom artificial de dânti:
“Pois bem... As práticas de exclusão e desmoralização nesta comunidade esportiva não são um fato de hoje, já que o projeto de gerar normas corporais vem de longe, isso para afirmar um modelo humano eterno, mas com um discurso hipócrita e extremamente moralista, quero dizer, a moralidade desses gímnicos, portanto, falsa e eternamente imprestável.”.
– Disse o Diletantista Inútil em um tom de literatura dada e moda dânti:
“Sobre outra coisa... Não é uma má observação e nem é imaturo dizer que um delitantista inútil se ocupa de dominar cavalos em pautas traduzidas ou revisadas por editoras pobres, e cavalgar em diferentes percursos, sem pelo menos sair da sua jaula, aprisionado na sua própria Laputa flutuante. Pelo contrário, é uma observação muito madura”.
- Disse um delitantista inútil ainda fumando e tossindo:
“Um pobretão inútil delitantista, desagonsado, nojento, peidão, fumante, preguiçoso, barrigudo, que pensa em historinhas nada a ver, rir sozinho em todo canto da casa, faz diferentes vozes de dublagem durante o dia, escuta músicas aguadas/aguçadas, ler livros que brinca de entender, pensa coisas misturadas com coisas, escreve em um diário sobre suas suposições malucas para o futuro de uma humanidade tecnológica, em resumo, um doido. Mas, enfim...”.
- Disse um delitantista inútil agora bebendo um copo d’água:
“Deixe-me falar um pouco mais sobre o gímnico... O Dadá se exclui e se distancia dos campos intelectuais, como podem facilmente eles se distanciar da universidade, por causa do intelectualismo expressivo da última. Assim como os moldes de controle da universidade não admitem o fora de norma dadá, mas em contraste com esta recusa de vai e vem.”.
– Bebeu sua cerveja. Continuou:
“O Diletismo Inútil, mesmo que não admita o intelectualismo extremo, entra na universidade para a exposição e audácia do desenvolvimento de um órgão não-conforme, que a academia nega firmemente a fim de exaltar seus domínios e controles estreitos, ao contrário, o Delitantista Inútil não usa argumentos de dominação e controle, mas sim argumentos descontrolados e indomados, assim escreve textos acadêmicos sem ferir a norma editorial.”.
– Bebeu novamente sua cerveja. Continuou:
“Os tutores procuram incentivar a legitimação de um corpo conforme aos moldes hegemônicos, uma referência viva para sua lista de moralidade, enquanto o Delitantista Inútil cita o equívoco e faz seu próprio corpo flácido e macio, conforme o realismo grotesco. Agora aqui está a pergunta para ninguém mais que eu mesmo: a sociedade dos gímnicos é sobre o corpo do texto, o corpo do caráter ou o corpo físico? Todos e mais.”.
– Arrotou e soltou um peido alto, embriagado. Continuou:
“A moralidade do corpo do gímnico dirige o trabalho de educar um corpo na academia, expressando uma clara escala de controle. De fato, um corpo bem disciplinado, de acordo com as normas da ABNT, não deixa espaço para se distanciar do molde proposto pela etnicidade dominante.”.
– Pegou outro charuto de chocolate aromatizado, acendeu tossindo enquanto falava:
“Equivalente a um campo onde um sujeito caminha, mas em seu caminho ele tem vários obstáculos a transpor, tais são os trabalhos detalhados desta oligarquia dominadora, e servem para forçar uma imposição de doutrinação para uma única cultura, em seu sentido mais estranho. Ou seja, o sujeito deve ser parado para desacelerá-lo, a fim de legitimar uma cultura superior sobre a ‘lapidação’ dele.”.
– Tragou imaturamente o charuto de chocolate aromatizado. Disse ainda em seu tom dânti:
“O etnocídio claro com a agulha de correção diária do/no corpo, feito pouco a pouco, para forjar o letramento com os furos da agulha longa e fina. O que mantém o indivíduo na ordem dos impostores são as pequenas técnicas de controle que estão sendo constantemente aperfeiçoadas e tomam o lugar das fórmulas gerais de dominação.”.
- Tragou tossindo, falou:
“O exemplo, Senhores Hipócritas das redes sociais, são importantíssimos para forjar mais e manter a ferramenta de correção dos corpos destoantes. Outro procedimento, que atua como fórmula geral e sofisticada atualmente, é os encontrados em plásticos corporais que são corrigidos e alongados por meio de cirurgia, sendo assim, um exemplo da técnica corretiva.”.
– Bebeu novamente sua cerveja. Continuou:
“O Diletantismo Inútil é igual ao que intervém nas atitudes de poder exemplar, através de uma conduta insignificante, com a capacidade de estimular uma conduta ignóbil a fim de corrigi-la ou reforçá-la. Não é atoa que as técnicas de dominação sejam sempre sofisticadas, pois sempre há alguém intervindo além dos limites da contenção dos mecanismo de controle, pois a civilidade do espartilho não é tão consciente quanto a sanitização pela força da prática, quero dizer, quando a idéia de se manter puro é uma forma de dominação indireta e imposta pelas forças implantadas na alma, por exemplo, seus hábitos particulares.”.
- Tragou tossindo, falou:
“É para isso que a forma que foi composta no indivíduo visa, para que ele possa olhar e ouvir acorrentado ao seu tipo, classificado pelos grandes, cada um em seu passo para que o colossal possa controlar sua atividade, sua norma e sua aprendizagem e compor-te a força de trabalho qual dela, tal colosso, lucra.”.
Capotou para trás de tão bêbado.
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