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Destaques

DIÁLOGO IV

Disse o velho gordo mal cabendo na sua cadeira de bar, bebendo um coquitel de bagas e fumando um cachimbo com fumo de chocolate, e tossindo, porque não tem o hábito de fumar tão pouco de beber: - Ser um pobre estudante é horrível. A tecnologia não parece compreendê-lo, e o que deveria ser algo que o tornasse mais fácil acaba por o reter. A falha em escrever bate-me constantemente na mão e torna difícil produzir um raciocínio porque me falta um aparelho de ar condicionado. Vamos lá...  Será que a obra ou o autor vale mais?  Disse eloquente e bêbado: - Podemos dizer que o personagem de ficção passa por um controlo considerável e provável que o escritor, no seu lugar de poder, exerce sobre isto e sobre o protagonista sua influência. Haverá uma saída para isto, minha querida? Forster, a minha má influência, dá uma forma para que isto seja resolvido pela ligação entre personagens planas e redondas, em que o autor não exerce o seu poder. Por isso, interpreto-o como sendo pouco rígid...

A RELIGIÃO SERVE PARA ORIENTAR E NÃO PARA REPRIMIR: theatricum e cultura hereditaria

 Por um longo período, alguns meses talvez, acreditei que os pensamentos grosseiros poderiam ser dissipados com a leitura de sutras sagradas de filiações budistas ou passagens do Evangelho. Entretanto, ao forçarmos um pensamento religioso para reprimir ou silenciar um pensamento ou sentimento julgado pelos moldes dicotômicos da moralidade judaico-cristã, acabamos por intensificar um conflito interno ou algo inconsciente que sustenta nosso sofrimento. A religião não deve servir como ferramenta de negação, silenciamento ou pior ainda, repressão de nossos sentimentos e pensamentos. Primeiramente, devemos avaliar como estamos nos tratando. Devemos nos permitir sentir esses sentimentos, ouvir esses pensamentos sem julgá-los severamente, pois essa é a maneira de nos tratarmos. Anote esses pensamentos, escreva sobre seus sentimentos.


Hoje, ao me dirigir à minha mãe, disse-lhe: "Irei te auxiliar financeiramente, contanto que não mintas para mim." Nessa afirmação, projetei sobre ela a expectativa que minha avó me transmitiu: "Nunca minta para sua mãe." Em determinado momento, não me pareceu justo que eu não pudesse mentir para ela, enquanto ela, por outro lado, tivesse essa liberdade em relação a mim. Contudo, para minha surpresa, minha mãe replicou: "Não sou sua posse para lhe garantir isso." Nesse instante, tornei-me consciente de que tal atitude não era correta; coibir alguém de não mentir é um gesto desumano, ainda mais considerando que a mentira é inerentemente humana. Nesse momento, meu theatricum psychicus sofreu uma mudança dialética e pude me tornar mais consciente de um processo ao qual fui condicionado pela cultura herdada de minha avó.


Seguimos a orientação de Jesus para o tratamento de nós mesmos, nossos sentimentos e conhecimentos. Ao encontrarmos um estranho, ouvimo-lo, concedemos-lhe espaço para expressar seus sentimentos, e, se desejar chorar, oferecemos-lhe lenços, evitando chorar nós mesmos para não causar desconforto. Além disso, evitamos reforçar seus pensamentos autodestrutivos. Da mesma forma, devemos dedicar atenção a nós mesmos. Tentar compreender a origem desses pensamentos é um ponto de partida crucial. No entanto, descobrir o que realmente está por trás deles pode ser um desafio difícil de enfrentar sozinho. Nesse sentido, necessitamos de uma perspectiva externa, um olhar de fora.


Assim, buscamos dialogar com um psicoterapeuta, alguém de confiança ou um membro da família. Compartilhamos o theatricutm que se desenrola em nossa mente e os princípios cognitivos que sustentam tais pensamentos. Podemos até mesmo expressar o theatricum como um roteiro de uma peça teatral ou de um filme, mas o importante é externalizá-lo de alguma forma. Ao fazermos isso, percebemos que por trás de sua aparência há a influência diluída de alguma cultura que nos afetou e os vestígios da cultura herdada. Portanto, precisamos reexaminar nossos valores, nossa cultura, e atravessar os conflitos internos para estabelecer uma nova dialética em nossa jornada de autoconhecimento e desenvolvimento pessoal.


Mas não se preocupe, pois o theatricum eventualmente chegará ao fim, as cortinas se fecharão, e então você deve se autoexaminar, questionando-se sobre o que de positivo pode ser extraído desse processo psíquico.


É importante ter cautela ao assumir que o theatricum chega ao fim apenas porque as cortinas se fecham, pois há diversas formas de encerramento, e muitas vezes ele retorna de maneiras inesperadas, especialmente se o relacionamento com ele foi repressivo e negativo. Nestes casos, seu retorno pode trazer consigo conflitos acumulados, exigindo uma abordagem cuidadosa. No entanto, o theatricum também pode trazer insights valiosos se for bem aproveitado. Assim como pessoas na vida, eles vêm e vão, deixando-nos em paz ou nos atormentando como fantasmas, dependendo de como foram processados pelo nosso corpus psychicus.


Alguns theatricum são raros e preciosos, e desperdiçá-los seria um equívoco. Eu costumo expressar gratidão por eles, tanto nos momentos em que são desafiadores quanto nos momentos de paz. Reconhecer sua presença e permitir-se ouvi-los e senti-los é fundamental para o processo de conscientização e crescimento pessoal. Aceitar a ida e vinda dos theatricum pode ajudar a diminuir sua intensidade, mas é importante respeitar sua existência e estar aberto para aprender com eles. Quando surgem, dedico meu tempo para escutá-los e sentir sua essência, pois cada theatricum traz consigo uma mensagem única, como uma criança ansiosa para compartilhar sua história com seus pais.


A herança hebraica incentiva o indivíduo a se voltar para dentro, em vez de se concentrar nos outros, devido à sua influência cultural ancestral.


O theatricum se revela como o encontro entre o personagem de Fiona Shaw e seu falecido companheiro na quinta temporada de True Detective, embora não me recorde do episódio específico. Este momento se apresenta como um aviso, enquanto ela está na neve, e ela se prepara para segui-lo, levando-a ao encontro dos pesquisadores desaparecidos. O theatricum sempre sinaliza algum posicionamento a ser tomado. Na primeira vez que surgiu, assediei-o, o que acabou intensificando seu efeito. Na segunda vez, dirigi-me ao local que ele indicava como origem, mas não encontrei nenhuma manifestação do que ele sugerira. Em vez de sair, permaneci no local e conversei com quem estava presente até que o silêncio se instalou, indicando que não havia mais nada a ser extraído dali. Concluí que o theatricum não me chamava para um lugar específico, mas sim para ser ouvido. Na quarta vez que veio, deitei-me e o ouvi até adormecer. Acordei com um barulho, inicialmente pensei que era necessário desligar o ventilador, e ao fazê-lo, o ruído cessou e o theatricum desapareceu. Percebi que ainda não havia alcançado o posicionamento adequado para ouvi-lo.


À medida que o estudo avança, ele adquire mais significado, tornando-se menos estranho e desconhecido, e mais comum. Como vemos em Jakub Procházka e Hanus, este último quase se assemelha ao theatricum, embora o theatricum não possua uma forma definida, mas se manifesta nas pessoas, projetando-se nelas. Quanto mais Procházka o escuta, assiste e compreende, sem interrompê-lo, mais ele se torna familiar e consciente de algo que Hanus indica. Chega um momento em que as cortinas do theatricum de Hanus são fechadas, mas aquilo que ele indicou e foi reconhecido por Procházka é incorporado ao seu corpus psychicus, moralis, laborans. "O Astronauta" é quase como o theatricum, personagem de filme de ficção científica; não podemos descartar a possibilidade de ser uma manifestação de uma força psychicus alienígena.


Não sei se ignorar o theatricum é algo benéfico, pois é quase impossível fazê-lo. Não é como um simples pensamento intrusivo que pode ser menosprezado e deixado de lado; mesmo que seja reconhecido anteriormente, o theatricum é mais como uma imaginação hiperativa alimentada por emoções reprimidas ou conflitos emocionais. Ele precisa ser enfrentado e atravessado, assim como a cultura atravessa outra. Dessa forma, quando ele retornar, será como receber a visita de um membro familiar que entra e sai de casa, e não mais como um estranho indesejado. Me pergunto se o theatricum é uma manifestação de forças arquetípicas, mas ainda não compreendo completamente o que são arquétipos e como interagem na ecologia psíquica, especialmente com os componentes do corpus psychicus, moralis, laborans.

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