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Destaques

DIÁLOGO IV

Disse o velho gordo mal cabendo na sua cadeira de bar, bebendo um coquitel de bagas e fumando um cachimbo com fumo de chocolate, e tossindo, porque não tem o hábito de fumar tão pouco de beber: - Ser um pobre estudante é horrível. A tecnologia não parece compreendê-lo, e o que deveria ser algo que o tornasse mais fácil acaba por o reter. A falha em escrever bate-me constantemente na mão e torna difícil produzir um raciocínio porque me falta um aparelho de ar condicionado. Vamos lá...  Será que a obra ou o autor vale mais?  Disse eloquente e bêbado: - Podemos dizer que o personagem de ficção passa por um controlo considerável e provável que o escritor, no seu lugar de poder, exerce sobre isto e sobre o protagonista sua influência. Haverá uma saída para isto, minha querida? Forster, a minha má influência, dá uma forma para que isto seja resolvido pela ligação entre personagens planas e redondas, em que o autor não exerce o seu poder. Por isso, interpreto-o como sendo pouco rígid...

O NATAL É IRRITANTE

 O Natal não passa de uma invenção cruel. Um teatro de afeto encenado por aqueles que, no fundo, não se suportam. Mar sabia disso. Ela sempre soube. O brinde com refrigerante barato na casa da mãe era só mais um capítulo do mesmo drama: sorrisos forçados, promessas vazias, e uma sobremesa que nunca vinha na medida certa.


Ela olhava pela janela enquanto a ceia se desmoronava em discussões familiares. Pensava nos "amigos" – ou contratos, como ela gostava de chamar. Amizade era um luxo que não se podia bancar. Contratos, por outro lado, eram limpos. Precisos. Cada um sabia o que estava em jogo. Não havia ilusões de afeto, apenas acordos: “Você faz isso, eu entrego aquilo.” Um policial corrupto ali, um entregador de informações acolá. Uma cadeia de favores que mantinha tudo em funcionamento, até o dia em que não mais funcionaria.


Porque sempre chega o momento em que as regras mudam. O sistema engasga. O jogo vira, e só os espertos, os realmente cruéis, conseguem sair sem se afogar na própria ambição. O problema? Todo mundo acha que é esperto. Mas Marcela sabia que a sombra não escolhe favoritos. Ela observa. Ela espera.


"Que cada um passe o Natal que merece", pensava, enquanto alguém na sala gritava sobre dívidas não pagas. Talvez o cara com os “homens da lei” estivesse comendo camarão fresco em algum lugar à beira-mar. Ou talvez ele estivesse sozinho, brindando com um copo vazio, tão exausto quanto qualquer outro.


Na rua, um carro passava lentamente. Os faróis rasgavam a escuridão como dentes. "A sombra não é só refúgio", ela murmurou para si mesma. "É uma fera. E, no fim, ela engole todos nós."


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