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Destaques

DIÁLOGO IV

Disse o velho gordo mal cabendo na sua cadeira de bar, bebendo um coquitel de bagas e fumando um cachimbo com fumo de chocolate, e tossindo, porque não tem o hábito de fumar tão pouco de beber: - Ser um pobre estudante é horrível. A tecnologia não parece compreendê-lo, e o que deveria ser algo que o tornasse mais fácil acaba por o reter. A falha em escrever bate-me constantemente na mão e torna difícil produzir um raciocínio porque me falta um aparelho de ar condicionado. Vamos lá...  Será que a obra ou o autor vale mais?  Disse eloquente e bêbado: - Podemos dizer que o personagem de ficção passa por um controlo considerável e provável que o escritor, no seu lugar de poder, exerce sobre isto e sobre o protagonista sua influência. Haverá uma saída para isto, minha querida? Forster, a minha má influência, dá uma forma para que isto seja resolvido pela ligação entre personagens planas e redondas, em que o autor não exerce o seu poder. Por isso, interpreto-o como sendo pouco rígid...

UM RELATÓRIO INESPERADO: possível melhora do observando?

"Ela não consegue enxergar o mundo como eu. Para ela, tudo é simples, não existem questões raciais nem perigos. Ela não percebe como há pessoas que realmente desejam a morte daqueles que são diferentes. Ao nosso lado, na plataforma do cinema, estava um casal irritante e ignorante; éramos só nós dois até que esses dois apareceram. Perguntei, deixando isso de lado, está tudo bem? Como você está?"


"Estou mais consciente do tipo de gente que existe no mundo, e isso me fez perder a confiança em todos. Conviver em sociedade é frustrante; as pessoas são insuportáveis. Esta semana me aconteceu de tudo para chegar a essa conclusão: não conseguia dormir, não conseguia me afastar dos estímulos que desafiam a moral, e a minha sensibilidade para isso se esgotou. Tenho medo de que o 'neonazista meia-boca' vença."


Perguntei o que ele queria dizer com 'meia-boca', e ele respondeu: "Ele não tem a capacidade de matar diretamente os que considera diferentes; seus seguidores são cegos de ódio. Eu também os odeio." Coitada da minha mãe, pensei, tão ingênua e próxima de tudo isso.


"Como assim?"


"Ela não seria capaz de machucar ninguém, mesmo que precisasse. Isso a torna vulnerável; poderia ser torturada e morta se não souber usar uma arma, por menor que seja."


"Mas você sabe?"


"Com qualquer coisa por perto, eu improviso uma arma. Espero que você sempre tenha algo pesado ou quente por perto," ele disse com um meio sorriso. Eu não ri.


Tive vontade de dizer: "Sabe por que funcionários como você merecem ser explorados até o limite? Porque vocês não valorizam nada do que produzem."


Ultimamente, não ouço mais vozes como antes, só minha intolerância, minha raiva, minha indiferença. Sinto uma sede de poder. Ouvi a oração de São Bento, que espantou os delírios táteis e as vozes, mas mesmo assim fiquei sem dormir por dois ou três dias. Tomei clonazepam e consegui dormir um pouco, ainda que com interrupções e pesadelos.


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