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Destaques

DIÁLOGO IV

Disse o velho gordo mal cabendo na sua cadeira de bar, bebendo um coquitel de bagas e fumando um cachimbo com fumo de chocolate, e tossindo, porque não tem o hábito de fumar tão pouco de beber: - Ser um pobre estudante é horrível. A tecnologia não parece compreendê-lo, e o que deveria ser algo que o tornasse mais fácil acaba por o reter. A falha em escrever bate-me constantemente na mão e torna difícil produzir um raciocínio porque me falta um aparelho de ar condicionado. Vamos lá...  Será que a obra ou o autor vale mais?  Disse eloquente e bêbado: - Podemos dizer que o personagem de ficção passa por um controlo considerável e provável que o escritor, no seu lugar de poder, exerce sobre isto e sobre o protagonista sua influência. Haverá uma saída para isto, minha querida? Forster, a minha má influência, dá uma forma para que isto seja resolvido pela ligação entre personagens planas e redondas, em que o autor não exerce o seu poder. Por isso, interpreto-o como sendo pouco rígid...

UM DIA DE ESTRESSE E UM SUICIDA: o fim do observando

 Foi uma luta árdua para o paciente, que resistiu bravamente às influências das vozes. Ele lidou com isso com maestria, mas o que o levou ao fim foi uma conversa com sua mãe. Na carta suicida, ele relatava nunca ter se sentido aceito pela família, dizendo que preferiria ser queimado como indigente do que continuar com o nome e a identidade que a família lhe impôs. 


Ele preparou x ml de dipirona em gotas, diluindo-a em um copo de água, e bebeu. Sua relação com a mãe parecia, à primeira vista, boa, mas ele se sentia constantemente mal ao interagir com ela. Em seus pensamentos, ele acreditava que ela não o queria como filho, que o via apenas como uma obrigação – algo que ele achava ser um reflexo da falta de apoio moral e da opção de aborto que ela não teve. Ele ia trabalhar, e ele era deixado com tias e primas que, ele sabia, o maltratavam. Quando ela voltava para casa, assustava a criança, dizendo que ele seria dado ao "homem do saco". Ele chorava, mas ela depois dizia que era brincadeira. Porém, para ele, nunca teve esse tom de brincadeira. Parecia-lhe mais uma forma de relembrar-lhe que ele era um filho profundamente indesejado. 


Tentou construir uma amizade com sua mãe, abraçava-a, mas recebia apenas indiferença. Ele sentia que era impossível para ela retribuir seu amor, e qualquer demonstração de afeto acabava na mesma rejeição. Enquanto isso, seu primo era recebido com sorrisos e gentilezas, até pelas menores ações. Ao longo do tempo, ficou claro que ele não recebeu amor de nenhum membro da sua família, sendo tratado como um outsider. 


Foi então que, ao assistir a uma série baseada em uma obra de Stephen King, ele se viu refletido no personagem: o rosto deformado do "bicho-papão". Ele se sentia como uma criatura solitária, que, para se proteger, precisava escravizar outros. Sua dor sempre teve uma origem, e ela estava enraizada na relação com sua mãe. Ela não foi capaz de retribuir seu afeto e o viu como uma responsabilidade, não um filho. Isso deixou-lhe uma incapacidade de criar vínculos saudáveis, já que reproduzia o comportamento indiferente de sua família, afastando as pessoas que tentavam se aproximar dele. No fundo, ele não esperava nada diferente do que sempre viveu, e, por isso, dizia tudo abertamente, acreditando que seria isolado ou rejeitado.


Agora, ele se vai. Não foi pelas vozes, mas pelo peso de um passado maltratado e negligenciado.

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