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Destaques

DIÁLOGO IV

Disse o velho gordo mal cabendo na sua cadeira de bar, bebendo um coquitel de bagas e fumando um cachimbo com fumo de chocolate, e tossindo, porque não tem o hábito de fumar tão pouco de beber: - Ser um pobre estudante é horrível. A tecnologia não parece compreendê-lo, e o que deveria ser algo que o tornasse mais fácil acaba por o reter. A falha em escrever bate-me constantemente na mão e torna difícil produzir um raciocínio porque me falta um aparelho de ar condicionado. Vamos lá...  Será que a obra ou o autor vale mais?  Disse eloquente e bêbado: - Podemos dizer que o personagem de ficção passa por um controlo considerável e provável que o escritor, no seu lugar de poder, exerce sobre isto e sobre o protagonista sua influência. Haverá uma saída para isto, minha querida? Forster, a minha má influência, dá uma forma para que isto seja resolvido pela ligação entre personagens planas e redondas, em que o autor não exerce o seu poder. Por isso, interpreto-o como sendo pouco rígid...

NÃO SOU UM SER HUMANO

 Não gosto deste mundo e, admito, já estou no limite. Sei que não há saída fácil: não posso me abandonar ao abismo nem me forçar a um fim precoce. Apenas resta-me aceitar os fatos, marchando com uma resignação cega em direção ao dia em que a morte me alcançará, sem que eu precise buscá-la. O que mais me fere, no entanto, é essa convivência amarga com as pessoas. Ah, se ao menos pudesse me enclausurar na minha ilha imaginária, isolado de tudo e todos! Viveria rodeado por pilhas de livros, com a companhia apenas das palavras, numa comunicação silenciosa – um sistema que trouxesse, à porta, obras e mais obras, um correio entre meu exílio e o mundo.


Ali, perdido entre páginas amareladas e histórias antigas, passaria os dias em comunhão com a alta tecnologia e a epistemologia das letras. Dedicaria horas ao estudo profundo de Lovecraft, mergulhando no horror cósmico que ele propôs. E pensar que uma figura tão infame, com sua sombra racista, ainda consegue erguer esse mundo de fascínio que me afasta do insípido e do mundano! Seu universo me revigora como poucos. Não há prazer maior, nenhuma outra ocupação que me traga igual vitalidade. Não raro, vejo críticos o atacarem por suas falhas, e ironicamente esses próprios juízes parecem não enxergar as sombras de preconceito dentro de si.


A única figura que me é suportável – e mesmo essa não tanto quanto gostaria – é minha mãe, talvez como Lovecraft se relacionava com sua Providence. Em breve, rumarei para uma cidade erguida por mãos negras, um refúgio de liberdade e resistência, onde ecos de quilombos ainda vibram no ar. E aqui reside meu próprio paradoxo: eu, negro e devotado ao estudo de Lovecraft, numa constante tensão entre a herança que me cerca e a obsessão pela obra do homem que, por ironia, rejeitaria minha própria existência.


O silêncio, o barulho – ambos me ferem em igual medida. Ah, se ao menos este corpo e alma fossem feitos para outra esfera, outro planeta. No entanto, resta-me apenas a pena, o desejo latente de ser, talvez, qualquer coisa menos humana.

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