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Destaques

DIÁLOGO IV

Disse o velho gordo mal cabendo na sua cadeira de bar, bebendo um coquitel de bagas e fumando um cachimbo com fumo de chocolate, e tossindo, porque não tem o hábito de fumar tão pouco de beber: - Ser um pobre estudante é horrível. A tecnologia não parece compreendê-lo, e o que deveria ser algo que o tornasse mais fácil acaba por o reter. A falha em escrever bate-me constantemente na mão e torna difícil produzir um raciocínio porque me falta um aparelho de ar condicionado. Vamos lá...  Será que a obra ou o autor vale mais?  Disse eloquente e bêbado: - Podemos dizer que o personagem de ficção passa por um controlo considerável e provável que o escritor, no seu lugar de poder, exerce sobre isto e sobre o protagonista sua influência. Haverá uma saída para isto, minha querida? Forster, a minha má influência, dá uma forma para que isto seja resolvido pela ligação entre personagens planas e redondas, em que o autor não exerce o seu poder. Por isso, interpreto-o como sendo pouco rígid...

MUNDO DE REGENERAÇÃO PRA QUEM?

Não há como fugir do veredito: o tão sonhado mundo de regeneração em 2057 não existirá. É um delírio otimista para uma humanidade que ainda se encontra enraizada na treva. E sejamos francos, a bondade, essa flor tão rara, é quase inexistente. Dos bilhões que respiram sob o mesmo céu, 99% não podem ser considerados bons.


Bondade verdadeira exige mais que conduta polida ou gestos teatrais. O verniz das ações pode enganar os olhos, mas não o espírito. Ser bom, genuinamente bom, demanda uma matriz de pensamento irrepreensível, um fluxo contínuo e cristalino de amor e devoção ao próximo, sem vacilações, sem desvios, do amanhecer ao anoitecer. Há quem cumpra tal façanha? Dificilmente. Talvez, em um cenário de generosa indulgência, 1% da humanidade, e olhe lá.


Estamos acorrentados pela matéria, presos em correntes que nos unem uns aos outros em interesses mesquinhos. Falamos de liberdade, mas não sabemos concedê-la. Vivemos em um mundo onde a pobreza, especialmente em rincões esquecidos como o Vale do Ribeira, não será erradicada até 2057 – talvez nunca. Tratamentos biomédicos não se transformarão em abordagens biopsicossociais e espirituais; o acesso à saúde e à educação para comunidades afastadas permanecerá um eco distante. Não há revolução que, da noite para o dia, desfaça os alicerces da desigualdade.


E a educação? Sempre haverá vestibulares, barreiras, um funil que separa os que estão no chão daqueles que flutuam nas alturas. O déficit educacional é uma ferida que sangra lentamente, e a promessa de um amanhã igualitário não passa de um sussurro em meio ao caos.


Essa senhora, muito sensata em suas críticas, afirma que o Evangelho no Lar não basta para a desobsessão. É possível que ela esteja certa. Mas onde estão as alternativas? Milhares de famílias, habitantes das margens do invisível, têm no Evangelho sua única esperança. Se isso não é suficiente, será a espiritualidade uma farsa? Um mercado mercenário, onde cursos exotéricos custam 523 reais ou mais, enquanto a desigualdade se ergue como um mapa de exclusão em lugares como São Paulo?


Religião não é brincadeira, não é teatro, nem um jogo de palavras. Há homens e mulheres que encontram no sagrado o único alento para suas aflições. Lembro-me de um homem que, frequentador de uma religião de matriz africana, ao retornar para casa começou a sofrer visões terríveis: a imagem de Cristo, inerte na cruz, sendo ultrajada por ele mesmo. Ele buscou tratamento médico, porque tinha condições para isso. Mas, antes de alcançar a clínica, foi na religião que encontrou sua seriedade, sua cura provisória, seu fio de sanidade.


E então, como ignorar que milhares dependem dessas práticas? Como não exigir que essa senhora, tão erudita, ofereça alternativas aos rituais que considera insuficientes? A religião não é um luxo, mas um refúgio. É, para muitos, o último bastião contra o vazio.


A bondade, se existir, precisará de mais que boas intenções ou palavras gentis. Precisará de uma reconstrução da matriz do pensamento humano – uma obra ainda distante, em um mundo que insiste em sustentar suas diferenças e explorar suas desigualdades.


E o que digo aqui, sei bem, não vale de nada. Porque, no fundo, ninguém está nem aí. 

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