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"Bellum omnium contra omnes – etiamsi omnes, ego non.". Este blogueiro é dirigido aos escritos iliterários. Aqui este autor expõe seus registros cognitivos e distorções cognitivas.
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MAGIAS DO VALE: os toques da brilhantina
Era uma senhora idosa, de pele clara e cabelos loiros, beirando os noventa anos. Nos arredores de seu bairro, ela praticava pequenos trabalhos de magia — insignificantes, ao olhar de um querubim que, repousando nas nuvens, observava suas ações. Do outro lado do país, uma mulher negra vivia atormentada por traços obsessivos e paranoicos, com uma sensibilidade única, mas profundamente perturbada pelas imagens que sua própria mente produzia. Eram visões de horror, evocadas pela influência de palavras lançadas por personagens digitais, que invadiam seus pensamentos como sombras opressoras.
A velha, apelidada de "maribunda", afirmava trabalhar para o grande conquistador das chamas verdes e violetas, defensor das mulheres abandonadas e desassistidas. Certo dia, passou um banho de brilhantina para a menina — cabeça e tudo. Contudo, segundo a tradição quilombola que permeava a vida da jovem perturbada, nenhum banho deveria ser tomado sem a orientação da antiga entidade da família, mãe Mariana. Ignorando a tradição, a jovem acabou usando o banho de brilhantina, fervido após tirar as impurezas com o sabonete de pia.
A partir daí, suas crises pioraram. Sentia dores intensas no topo da cabeça, retorcendo-se ao toque de energias pesadas. Entre os soluços e delírios, murmurava: "Esses brancos e seus trabalhos de magia são demônios bem vestidos! Demônios!" Para a mãe da jovem, desesperada com a situação, a velha italiana havia feito de propósito, movida por preconceito.
A salvação chegou na forma de um médico andante, que atendia comunidades afastadas. Era um homem de pele parda, carregando consigo um arsenal de remédios e saberes. Ao bater na porta da família, foi recebido pela mãe, aflita:
— Minha filha está perturbada. Diz que sente toques de demônios e nem consegue mais ler o evangelho ou rezar.
Com gentileza, ele pediu licença e adentrou a casa. Preparou um chá de hortelã e depois achocolatado — e não economizou no achocolatado. Observando a jovem, percebeu sinais de um problema neurológico, com características incomuns. Receitou lítio e clonazepam, e sugeriu à mãe que cantasse uma oração para embalar o sono da filha.
Naquela noite, a jovem adormeceu ao som da voz materna. No dia seguinte, acordou mais tranquila, mas ainda com dificuldades de concentração e ansiedade, como se algo a arrancasse de seu eixo. Preocupada, a mãe entrou em contato novamente com o médico. Ele recomendou:
— Continue dando o achocolatado, quanto mais amargo, melhor.
Curiosa, a mãe perguntou:
— Como o senhor sabe de tantas coisas?
Foi então que ele revelou sua descendência indígena, guardiã de saberes mágicos e ancestrais. Contudo, algo no achocolatado remetia a outra origem. Talvez houvesse nele um traço africano, um eco dos saberes dos escravizados refugiados no Vale do Ribeira.
O médico sugeriu ainda que a mãe adquirisse uma medalha de São Bento e rezasse a oração em latim diariamente. Apesar de sua alfabetização precária, a mãe fez o melhor que pôde. Com o tempo, a jovem melhorou consideravelmente, embora continuasse extraordinariamente sensível — como se carregasse consigo não apenas as marcas da dor, mas também um eco das tradições que a salvaram.
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