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Destaques

DIÁLOGO IV

Disse o velho gordo mal cabendo na sua cadeira de bar, bebendo um coquitel de bagas e fumando um cachimbo com fumo de chocolate, e tossindo, porque não tem o hábito de fumar tão pouco de beber: - Ser um pobre estudante é horrível. A tecnologia não parece compreendê-lo, e o que deveria ser algo que o tornasse mais fácil acaba por o reter. A falha em escrever bate-me constantemente na mão e torna difícil produzir um raciocínio porque me falta um aparelho de ar condicionado. Vamos lá...  Será que a obra ou o autor vale mais?  Disse eloquente e bêbado: - Podemos dizer que o personagem de ficção passa por um controlo considerável e provável que o escritor, no seu lugar de poder, exerce sobre isto e sobre o protagonista sua influência. Haverá uma saída para isto, minha querida? Forster, a minha má influência, dá uma forma para que isto seja resolvido pela ligação entre personagens planas e redondas, em que o autor não exerce o seu poder. Por isso, interpreto-o como sendo pouco rígid...

UM TELEFONEMA NA NOITE DE UM CICLO INTERROMPIDO

De repente, o assistido me fez um telefonema. Ele percebeu que toda a dor que carregava era fruto do tratamento que sua família lhe impôs desde a infância, repleto de intolerâncias e desdém. Ele afirma que "famílias são núcleos sociais assassinos" e que, por isso, prefere morrer sozinho, sem ser um fardo para ninguém. Essa escolha parece ser uma forma de punição, uma maneira de se responsabilizar por não ter conseguido viver em harmonia familiar. Ele aceita a dor que pode vir, reconhecendo a insuficiência do sistema de saúde pública.


"Não quero tomar esses medicamentos a longo prazo; quero lidar com meus conflitos, me observar", ele declarou. "Sinto-me pronto, mas esses remédios podem trazer efeitos irreversíveis, como câncer no estômago e insuficiência cardíaca e renal. Já os tomo há oito anos." Sua frustração é evidente, e ele atribui a culpa de sua condição à sua família, à sua incapacidade de formar amizades e confiar em alguém. Com um tom resignado, ele admite: "Eu vou morrer", revelando um profundo sentimento de auto-punição e a negação de seu lugar em qualquer núcleo social, seja uma comunidade, uma sociedade ou uma família.


Ele reconhece que, quando estiver no hospital enfrentando suas doenças, não terá ninguém ao seu lado. Para ele, é preferível estar anestesiado na UTI do que consciente de sua solidão. Tentei confortá-lo, sugerindo que, talvez, a assistência social pudesse contatar um vizinho ou alguém de confiança. Isso pareceu aliviar um pouco sua angústia, mas ele insiste que não quer ser um incômodo para ninguém.


Reforcei a ideia de que existem várias formas de comunicação e confiança, e que não precisamos nos limitar a uma única interpretação das pessoas. Ninguém está completamente sozinho; de certa forma, somos mais absorvidos pelas comunidades do que absorvemos delas.


Esse momento reflete o fim do theatricum psychicus familial, um conceito que descreve um personagem que se mantém no núcleo familiar, mas que se vê pressionado por algo inadmissível que quebra a razão de existência desse teatro. No início, aquele que rompe uma união de anos sente-se isolado e incapaz de formar novos vínculos, pois ainda carrega mágoas da relação anterior, na qual foi rotulado como um "mal exemplo". Reconhecendo que esse rótulo foi a intenção da líder religiosa da família, ele se libera do desdém familiar e para de tentar provar seu valor.


Ele não se vê mais como um exemplo, diz que está mais para exemplo de nada, ou seja, como alguém que não tem estima suficiente para se afirmar: "Eu sou um exemplo." Não afirma "Assim como eu, você pode fazer como eu fiz", "Eu fiz assim e deu certo", mas nunca diz "Eu sou um exemplo."


Sigo observando. 

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