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Destaques

DIÁLOGO IV

Disse o velho gordo mal cabendo na sua cadeira de bar, bebendo um coquitel de bagas e fumando um cachimbo com fumo de chocolate, e tossindo, porque não tem o hábito de fumar tão pouco de beber: - Ser um pobre estudante é horrível. A tecnologia não parece compreendê-lo, e o que deveria ser algo que o tornasse mais fácil acaba por o reter. A falha em escrever bate-me constantemente na mão e torna difícil produzir um raciocínio porque me falta um aparelho de ar condicionado. Vamos lá...  Será que a obra ou o autor vale mais?  Disse eloquente e bêbado: - Podemos dizer que o personagem de ficção passa por um controlo considerável e provável que o escritor, no seu lugar de poder, exerce sobre isto e sobre o protagonista sua influência. Haverá uma saída para isto, minha querida? Forster, a minha má influência, dá uma forma para que isto seja resolvido pela ligação entre personagens planas e redondas, em que o autor não exerce o seu poder. Por isso, interpreto-o como sendo pouco rígid...

PROCESSOS DE INDIVIDUAÇÃO E A DIALÉTICA ENTRE SINGULARIDADE E COLETIVIDADE: Uma análise psicossocial e educacional

A individuação é um processo de desenvolvimento pessoal que possui um objetivo e um destino definidos. Como mencionado por um autor enigmático, há uma "destinação, uma meta possível além das fases ou estágios" ao longo do "caminho da individuação". Em outras palavras, todos passam por esse processo e, de certa forma, têm-no como um propósito final. Esse processo consiste em tornar-se um indivíduo único e distinto. Diferente do conceito de individualidade, que se refere à essência mais profunda e exclusiva de uma pessoa, a individuação é o processo de tornar o indivíduo seu próprio 'si-mesmo'. Termos como Verselbstung (tornar-se si-mesmo) e Selbstverwirklichung (realização do si-mesmo) enfatizam a ideia de desenvolver-se para atingir o pleno potencial do ser. 


Os desenvolvimentos normalmente associados à produção econômica, no entanto, são, em essência, alienações do si-mesmo. Focar em papéis sociais ou em significados externos — muitas vezes parte de um mundo imaginado — pode levar a um distanciamento da verdadeira essência. Estes "modos de despojar o si-mesmo da sua realidade" muitas vezes favorecem um papel exterior ou um significado imaginário — como a ideia de está em uma Matrix —, servindo "em benefício de um papel exterior ou de um ideal social". A adoção de tais papéis sociais ou a busca por significados imaginários, frequentemente de natureza egoica — coloco, em minha opinião e analogia pouco letrada —, resulta na "renúncia do si-mesmo em favor do coletivo". Isso pode ser interpretado, erroneamente, como virtude ou dever social, mas, em certos casos, representa um abuso egoísta sob uma condição doentia. A distinção entre Selbstisch e Verselbstung é crucial: o primeiro refere-se ao individualismo vazio, enquanto o segundo aborda o verdadeiro desenvolvimento/crescimento pessoal ou a individuação. 


Assim, Selbstverwirklichung é oposta ao desapego do si-mesmo. Em vez de afastar-se da própria essência, a realização do si-mesmo envolve a plena manifestação da identidade. A confusão surge ao equiparar individualismo com individuação, gerando um conflito que impede as pessoas de entenderem a diferença entre destacar características pessoais (individualismo) e o verdadeiro processo de individuação. O individualismo é a ênfase nas peculiaridades pessoais, muitas vezes em oposição às responsabilidades sociais, enquanto a individuação é o desenvolvimento completo das qualidades humanas — o melhor do ser humano —, que inclui a consideração das peculiaridades dentro do contexto social, sem ignorar as necessidades coletivas — tal consideração das características populares é ideal, digo de forma quinhentista, que seja harmônica, obviamente, já que o contrário geraria conflito, embora minha visão nesta passagem possa está limitada a poucas literaturas. Ao contrário, a individuação integra essas qualidades para melhor desempenho social.


Como professor de Língua Portuguesa no ensino fundamental e médio — importante ressaltar que durante a produção deste texto eu não havia retornado a faculdade de letras —, sinto-me sempre motivado a ensinar, dar atenção e afeto aos meus alunos. Não vejo isso como uma obrigação, mas como um trabalho sério, no qual busco compreender as particularidades de cada um para que a educação os desperte. A singularidade não significa algo estranho ou incomum, mas a forma como funções e características universais se combinam de maneira única em cada indivíduo. O que torna uma pessoa única é a maneira como essas características (comuns na sociedade) são organizadas em cada caso


Por exemplo, ao observar um grupo de pessoas que se queixavam de ouvir vozes — um fenômeno que estudo e pesquiso como terapeuta alternativo —, percebi que a principal preocupação delas era como lidar com essas vozes, já que nem mesmo a medicação parecia ser eficaz. Notei que o conflito interno e o aumento da ansiedade estavam diretamente relacionados à forma como essas pessoas organizavam suas emoções e pensamentos, ou seja, como trabalhavam com suas energias internas. As vozes, nesse contexto, eram um efeito que desencadeava reações desordenadas.


Utilizando uma abordagem que me era relativamente nova, comecei a orientá-las a organizar seus pensamentos e emoções, sugerindo que deixassem essas sensações passarem sem reprimi-las ou julgá-las. Além disso, quando se deparavam com uma cadeia de pensamentos repetitivos e angustiantes, propus que mentalizassem a palavra "Pare" como uma interrupção consciente — embora essa técnica tenha sido menos utilizada, pois era aplicada mais tarde no ciclo dos sintomas. A abordagem de "deixar passar" foi a mais adotada, pois oferecia maior alívio ao permitir que as emoções fluíssem naturalmente, em vez de suprimir os sentimentos com a típica frase "não se sinta assim". Ao contrário, incentivei-as a sentir, mas a não se prender a esses sentimentos.


Também sugeri uma técnica simples, como beber um copo de água quando surgissem episódios de desordem emocional — baseada na terapia hídrica, que recomenda a ingestão de quatro copos de 500 mililitros ao longo do dia ou um gole sempre que necessário. Essa prática ofereceu uma forma acessível de enfrentamento, tornando-se gradualmente menos uma obrigação e mais uma resposta natural à medida que os sintomas diminuíam. Embora o método fosse o mesmo para todos, a maneira específica com que cada pessoa organizava seus pensamentos e emoções — sua forma única de lidar com as vozes — é o que diferenciou suas respostas internas.


Concluí que as vozes eram desencadeadas por uma desordem interna, com defesas elevadas e transtornos decorrentes de diversos tipos de conflitos. Um verdadeiro coquetel molotov de emoções/energias. Um dado interessante é que, antes de chegar a mim, os "observados" passaram de dois a três anos nutrindo conflitos internos desde que os sintomas começaram. Com um pouco de atenção e o desenvolvimento de uma postura mais harmoniosa em relação a si mesmos, esse cenário foi gradualmente mudando. Vale também considerar que eles se afastaram de seus locais de trabalho, que eram fontes constantes de estresse. E, como sabemos, o estresse gera mais conflitos, mais dor e torna mais difícil sair do ciclo vicioso.


O tratamento foi acompanhado por um psiquiatra que prescreveu baixas dosagens de risperidona, a menor possível de lítio, e uma dosagem quase mediana de fluoxetina. Embora a necessidade de observação tenha diminuído, continuo em busca de estudos que expliquem melhor o que pode ter ocorrido antes, pois ainda não me satisfaço apenas com a resolução do problema. Não basta ver o assistido atravessar o rio; é essencial entender o que fez o rio bloquear o caminho dele.


Presumo que o fator principal tenha sido a saturação de lítio no sangue, mesmo com a menor dosagem prescrita. Ou seja, a falta de uma rotina adequada de ingestão de água pode ter causado a principal complicação — presumo que a falta de atividade física também possa ter ocasionado tal —, levando a outras consequências, como a intoxicação por lítio que intensificou a saturação dessa substância no sangue. Indo ainda mais além, acredito que o assistido pode não ter tomado o lítio corretamente, ou possivelmente consumiu algo que reduziu ou quebrou seu efeito, provocando uma desarmonia que pode até ter refletido em uma desordem hormonal. É possível que variações laboratoriais também tenham influenciado essa desregulação — ao meu julgamento, embora não me sinta seguro para explicar, tudo foi ocasionado pelo lítio.


Atualmente, as sessões estão focadas na suspensão do lítio, utilizando a Exposição e Prevenção de Resposta (EPR) para tratar os sintomas do transtorno explosivo intermitente, além de incentivar o consumo adequado de água e pratica de esporte. A melhora já permitiu a suspensão da fluoxetina. Dou um prazo de um a dois anos, ou até menos, para a suspensão completa das medicações, com base na psicoeducação e em métodos de enfrentamento. E vale lembrar: sou apenas um terapeuta alternativo que lê estudos no SciELO, risos.


"Cada rosto humano tem um nariz, dois olhos, etc., mas esses fatores universais são variáveis, e essa variabilidade possibilita as peculiaridades individuais." Assim, todos os rostos humanos compartilham características universais, mas é a forma como essas características se manifestam que torna cada rosto único. A individualidade surge da combinação e variação desses elementos universais. A individuação, por sua vez, é um processo psicológico que permite a realização das qualidades únicas de uma pessoa, tornando-a verdadeiramente quem ela é. É importante não confundir individuação com egoísmo ou individualismo, pois, enquanto a individuação envolve a manifestação da singularidade, não é um ato egoísta. Em vez disso, trata-se de explorar e manifestar a essência pessoal de forma autêntica, reconhecendo que, embora cada indivíduo seja único, ele também faz parte de um coletivo. A singularidade de um indivíduo não está em oposição à coletividade, mas sim em como ele se integra de maneira autêntica a ela.

JUNG, Carl Gustav. O Eu e o Inconsciente – Parte Dois. Petrópolis: Vozes, 2011.

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