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Destaques

DIÁLOGO IV

Disse o velho gordo mal cabendo na sua cadeira de bar, bebendo um coquitel de bagas e fumando um cachimbo com fumo de chocolate, e tossindo, porque não tem o hábito de fumar tão pouco de beber: - Ser um pobre estudante é horrível. A tecnologia não parece compreendê-lo, e o que deveria ser algo que o tornasse mais fácil acaba por o reter. A falha em escrever bate-me constantemente na mão e torna difícil produzir um raciocínio porque me falta um aparelho de ar condicionado. Vamos lá...  Será que a obra ou o autor vale mais?  Disse eloquente e bêbado: - Podemos dizer que o personagem de ficção passa por um controlo considerável e provável que o escritor, no seu lugar de poder, exerce sobre isto e sobre o protagonista sua influência. Haverá uma saída para isto, minha querida? Forster, a minha má influência, dá uma forma para que isto seja resolvido pela ligação entre personagens planas e redondas, em que o autor não exerce o seu poder. Por isso, interpreto-o como sendo pouco rígid...

INTRODUÇÃO À DECLARAÇÕES VIRTUAIS

 No ensaio "Carvalho", assinado pelo professor Wilson Franco da USP, ressoa a nostalgia das cartas de literato desprezível, diletante letrista do Instituto Federal — expulso, dizem, por violência linguística ao professor de linguística —, endereçadas à antiga docente de Filosofia da universidade federal, a terceira melhor do mundo. Duas identidades que permanecem inreveláveis, impronunciáveis, imemoriais, mesmo nas sutis tramas de um ultrarromantismo que ecoa nas epístolas dos trovadores e na prosa evasiva de um surrealismo que se delicia em elucubrações subjetivas, como as de Philippe Soupault. Se pudéssemos compilar todas essas correspondências, teríamos a obra "Cartas à Lois": um compêndio de missivas impossíveis, "trocadas" com notáveis personalidades da academia pública brasileira.


Seria fascinante para um arqueólogo literário digital descobrir que, em uma diagramação, a relação docente e discente se inverte, enquanto em outra, se mantém em seu lugar. Talvez ambos estejam nas posições de Shakespeare e Henry Wriothesley, sem a presença de Thomas Thorpe, cuja ausência poderia desvendar a identidade desses sonetos. Se assim fosse, não teríamos um desfecho à maneira de Sarah Churchill e Anna, mas sim um encerramento à altura de Michelangelo e Tommaso, ou Napoleão e Josephine de Beauharnais.


Aqui ressoam as palavras de Oscar Wilde, proferidas durante o julgamento que o levaria a adotar o pseudônimo Sebastian Melmoth. Naquele tribunal, Wilde defendeu com eloquência o "amor que não ousa dizer o nome", descrevendo-o como uma afeição profunda e espiritual entre um homem mais velho e um mais jovem, semelhante à amizade entre Davi e Jônatas, e presente nas obras de Platão, Michelangelo e Shakespeare. Ele exaltou esse amor como algo puro e perfeito, capaz de inspirar grandes criações, rejeitando qualquer ideia de que fosse antinatural. Wilde lamentou a incompreensão de sua época, que rotulava esse amor como algo vergonhoso, levando-o à condenação. Para ele, era uma das formas mais nobres de afeição, onde a sabedoria do mais velho se une ao vigor, à esperança e ao brilho do mais jovem, uma harmonia que o mundo, tristemente, não conseguia compreender.


Essa é a essência de "Cartas à Lois". Esta é a alma do livro que poderia ser diagramado a partir dessas cartas virtuais.


Uma reside em um site de endereço perdido; a outra, em um chat cuja localização se esvai na bruma do efêmero. 


Fontes:

The Favourite, de Yorgos Lanthimos.

All Is True, de Kenneth Branagh.

Wilde, de Brian Gilbert.

Napoleon, de Ridley Scott.

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