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Destaques

DIÁLOGO IV

Disse o velho gordo mal cabendo na sua cadeira de bar, bebendo um coquitel de bagas e fumando um cachimbo com fumo de chocolate, e tossindo, porque não tem o hábito de fumar tão pouco de beber: - Ser um pobre estudante é horrível. A tecnologia não parece compreendê-lo, e o que deveria ser algo que o tornasse mais fácil acaba por o reter. A falha em escrever bate-me constantemente na mão e torna difícil produzir um raciocínio porque me falta um aparelho de ar condicionado. Vamos lá...  Será que a obra ou o autor vale mais?  Disse eloquente e bêbado: - Podemos dizer que o personagem de ficção passa por um controlo considerável e provável que o escritor, no seu lugar de poder, exerce sobre isto e sobre o protagonista sua influência. Haverá uma saída para isto, minha querida? Forster, a minha má influência, dá uma forma para que isto seja resolvido pela ligação entre personagens planas e redondas, em que o autor não exerce o seu poder. Por isso, interpreto-o como sendo pouco rígid...

INDIVIDUAÇÃO, PERSONA E AS TRANSFORMAÇÕES INTERNAS DA PERSONALIDADE

Tendo em conta o contexto coletivo dos que o integram, uma vez que todos partilham aspectos comuns, a forma exagerada de enfatizar a própria individualidade é uma contradição e, atrevo-me a dizer, um conflito, quando esta deveria ser equilibrada e harmoniosa com a compreensão de que fazemos parte de algo maior. O objetivo da individuação, por outro lado, é a cooperação viva de todos os fatores. Por outras palavras, o objetivo da individuação é integrar e cooperar com todos os fatores universais de uma forma viva e harmoniosa. Em vez de se concentrar exclusivamente na individualidade ou no coletivo, a individuação procura um equilíbrio e uma cooperação entre os dois.

Mesmo quando consideramos os fatores universais, eles manifestam-se de forma única em cada indivíduo. Por isso, a realização completa destes fatores resultará sempre numa expressão individual única que não pode ser substituída por outra ou por um foco excessivo no individualismo. O objetivo da individuação não é outro senão o de despojar o eu dos falsos invólucros da persona, bem como do poder sugestivo das imagens primordiais. Por outras palavras, a individuação visa remover as camadas superficiais e falsas (como a persona ou a máscara social) e lidar com as imagens arquetípicas que podem influenciar a pessoa. O objetivo é revelar o verdadeiro “eu” através da remoção destas camadas exteriores e das influências externas.

Do que foi dito até agora, o significado psicológico da persona é claro. Por outras palavras, o significado psicológico da persona é a função ou o papel social que uma pessoa desempenha, muitas vezes como uma “máscara” que esconde a sua verdadeira identidade. A persona é um conceito importante para compreender como as pessoas se apresentam ao mundo e como isso pode diferir da sua verdadeira essência. Para além da persona, existem influências do inconsciente coletivo que são mais complexas e difíceis de compreender. O inconsciente coletivo refere-se a aspectos profundos e universais da psique que afetam a experiência humana de formas mais subtis e menos acessíveis do que a persona.

Todos compreendem o conceito de adotar um papel social ou uma “máscara” para se adaptar às expectativas sociais. A persona pode ser utilizada para criar uma impressão específica ou para se proteger, e muitas pessoas constroem estas personas como forma de defesa ou de apresentação pública. Compreender a função e o impacto da persona é relativamente acessível do ponto de vista intelectual, uma vez que se refere aos papéis sociais e às máscaras que as pessoas usam, o que constitui um aspeto mais visível e direto da psicologia. Descrever os processos internos complexos e subtis que surgem na consciência e têm um impacto significativo é um desafio. Estes processos podem ser difíceis de explicar de uma forma que seja compreensível para todos, uma vez que envolvem aspectos profundos e não tão óbvios da psicologia.

Exemplos de doenças mentais, inspirações criativas e conversões religiosas podem ajudar a ilustrar como estes processos internos subtis e complexos se podem manifestar e influenciar a consciência. Estes exemplos são úteis para compreender como as transformações internas ocorrem e afetam a vida de uma pessoa. O livro “O Pai de Christina Alberta”, de H.G. Wells — disponível em LEITURA E MARCAS SOBRE O LIVRO: colheita para refletir sobre o "ponto a" referente a função do inconsciente 1/3 —, é mencionado como uma boa representação das transformações interiores, refletindo a forma como tais mudanças podem ser retratadas de forma realista na literatura. A obra “L'Hérédo” de Leon Daudet é também citada como uma obra que descreve as transformações interiores de forma semelhante, oferecendo outro exemplo de como estas mudanças podem ser compreendidas e representadas. William James, no seu livro “Variedades da Experiência Religiosa”, fornece muitos exemplos e discussões sobre como as experiências religiosas e as transformações interiores podem ocorrer e afetar a consciência e a personalidade.

Embora fatores externos possam causar ou predispor a mudanças na personalidade, esses fatores não explicam completamente as mudanças. Às vezes, fatores internos e subjetivos são mais importantes para entender essas transformações. Mudanças na personalidade também podem ter origem em processos internos e subjetivos, como opiniões e convicções pessoais, onde os fatores externos têm pouca ou nenhuma influência. "Nas mudanças patológicas de personalidade, esse papel pode ser considerado o fator geral.". Em outras palavras, nas mudanças patológicas, fatores internos e subjetivos geralmente desempenham um papel mais importante do que os fatores externos. Essas mudanças são frequentemente resultado de predisposições internas. Casos de psicose, em que a mudança de personalidade é uma reação direta e clara a um evento externo significativo, são considerados exceções. Normalmente, a psicose não reflete um processo interno gradual, mas uma resposta direta a um fator externo. 

Na psiquiatria, a principal causa das mudanças patológicas de personalidade é a predisposição interna, que pode ser herdada ou adquirida, em vez de fatores externos. A maioria das intuições criativas não pode ser explicada apenas por uma relação causal simples. Por exemplo, a descoberta da teoria da gravitação por Newton não pode ser atribuída unicamente ao simples evento da queda da maçã; há um processo interno mais complexo envolvido. Conversões religiosas que não resultam de sugestão direta ou da influência de exemplos externos também são fruto de processos internos autônomos. Esses processos levam a uma transformação profunda na personalidade. Tais são inicialmente inconscientes (subliminares) e só gradualmente se tornam conscientes. A transformação interna ocorre de maneira sutil antes de se manifestar claramente na consciência.

Embora o processo seja gradual, o momento em que esses conteúdos internos emergem pode ser repentino e impactante, fazendo com que a consciência seja abruptamente inundada por novas ideias ou sentimentos. Pessoas não especializadas podem perceber essas mudanças como repentinas e inesperadas. No entanto, os especialistas percebem que essas mudanças não são tão abruptas quanto parecem e que foram preparadas ao longo de um longo período de tempo. Na realidade, a mudança interna se desenvolve ao longo de muitos anos e, muitas vezes, pode ser rastreada até a infância, onde já se podem observar sinais simbólicos que indicam futuros desenvolvimentos anormais na personalidade. O exemplo específico, dado por tal autor misterioso, de um paciente mental que se recusava a comer e apresentava dificuldades alimentares incomuns ilustra como certos comportamentos extremos podem ser sinais de processos internos profundos e complexos.

JUNG, Carl Gustav. O Eu e o Inconsciente – Parte Dois. Petrópolis: Vozes, 2011.

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