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Destaques

DIÁLOGO IV

Disse o velho gordo mal cabendo na sua cadeira de bar, bebendo um coquitel de bagas e fumando um cachimbo com fumo de chocolate, e tossindo, porque não tem o hábito de fumar tão pouco de beber: - Ser um pobre estudante é horrível. A tecnologia não parece compreendê-lo, e o que deveria ser algo que o tornasse mais fácil acaba por o reter. A falha em escrever bate-me constantemente na mão e torna difícil produzir um raciocínio porque me falta um aparelho de ar condicionado. Vamos lá...  Será que a obra ou o autor vale mais?  Disse eloquente e bêbado: - Podemos dizer que o personagem de ficção passa por um controlo considerável e provável que o escritor, no seu lugar de poder, exerce sobre isto e sobre o protagonista sua influência. Haverá uma saída para isto, minha querida? Forster, a minha má influência, dá uma forma para que isto seja resolvido pela ligação entre personagens planas e redondas, em que o autor não exerce o seu poder. Por isso, interpreto-o como sendo pouco rígid...

EXPERIMENTO ESOTÉRICO: invasão no sonho




Hoje, exploramos as defesas noturnas através de um dispositivo esotérico conhecido pelos antigos como "Ná'ashjé'ii Tłʼaashchíní" ou "Ná'ashjé'ii Bee Áłtsé" no Navajo/Diné Bizaad, variando conforme a ocasião ou até sendo utilizados ambos os termos numa mesma conversa. O termo "Ná'ashjé'ii" na essência da linguagem ancestral significa "invasor". Já "Tłʼaashchíní" refere-se a "cabeça" enquanto "Bee Áltsé" refere a ideia "com a mente", embora possa ter conotações ligadas à psique. A interpretação completa que desenvolvi é "invasor da mente". Vale ressaltar que, nos tempos antigos, invasores esotéricos utilizavam esse aparato para aprender as línguas e símbolos de um povo antes de dominá-lo e eliminá-lo. Agora, como descendente de europeu, sinto a responsabilidade de reverter essa narrativa – pelo menos isso era meu propósito inicial, conforme anotações no diário pré-evento. Em vez de destruição, utilizo essa máquina esotérica para desbravar os mistérios do sono, explorando suas capacidades em uma nova luz.


É difícil descrever como se sintoniza com as funções esotéricas. O sujeito foi colocado em uma cama, e todos nós nos posicionamos ao redor. Um líder antigo, com um cachimbo em mãos, estava aos pés da cama, liberando a fumaça lentamente, como se estivesse em profunda reflexão. Uma mulher, com a mão sobre a cabeça do que chamávamos de "Chʼį́į́dii Nítłʼiz" — embora eu não tenha certeza se escrevi corretamente, pois minha fluência na antiga língua está enferrujada —, parecia guiar o processo. Pelo que entendi, o nome se referia ao "descanso do voo do bicho", ou seja, o bicho repousava seu voo sobre a cabeça do El Niño, guiado pela mão da mulher esotérica portuguesa com poderes paranormais. Ela tinha a habilidade de narrar o que chamo de "fluxo de cognição" do El Niño. Mais misterioso ainda foi quando uma esfera indescritível começou a projetar as imagens mentais dele. Levou algum tempo para isso acontecer, mas quando ocorreu, ficamos todos impressionados.


Estávamos ali como em uma reunião espírita, em pé ao redor da cama, de maneira semelhante aos velhos do século XIX, que se reuniam em torno de mesas girantes. No entanto, a diferença estava na presença de um líder ancestral e de uma esotérica ligada à antiga magia marroquina-portuguesa. Antes de começarmos, conversamos com a mulher, que nos disse: "Meus ancestrais usaram a magia dos inomináveis, aqueles que não recordamos, como arma psíquica de genocídio. Podemos mudar o destino desse conhecimento, direcionando-o para a cura. Este El Niño está enfrentando problemas muito profundos, os quais um líder espiritualista conseguiu identificar e relatar à mãe.".


A mãe do menino estava preocupada, aguardando do lado de fora do quarto, até que algo despertou na consciência da esotérica portuguesa, que então disse: "Deixem-na entrar.". A mulher entrou e se juntou ao nosso círculo em torno da cama, posicionando-se ao meu lado. Eu, um Mico-Leão-Dourado de óculos e jaleco branco, uma figura tão exótica que talvez refletisse o desespero daquela mãe. Perguntei se ela estava bem; ela não pareceu se assustar ao me ouvir falar, provavelmente já havia visto coisas mais extravagantes. Comentei que trabalhava no Nautilus, no gélido sul, e que essa era a primeira ocorrência de Omcní que realmente me impressionava. Ela respondeu que confiava nos estudos esotéricos de Vankantillet, onde, curiosamente, eu era o único que parecia natural. O grupo que eu acompanhava, nada mais eram que recomendações do professor da ONUP (Omcní Núcleo Universitário de Pesquisas), o chamado "doutor satânico" — é preciso manter os nomes ocultos, até a hora de não os deixar mais. Ele era meu colega de trabalho no Nautilus. 


El Niño dormia sob a luz fraca e ambiente, enquanto sua mãe, segurando um crucifixo, parecia presa entre a fé e o desespero. Nós, todos tão atípicos, éramos uma reunião de figuras incomuns, algo que não se vê no cotidiano. Estávamos ali porque representávamos sua última esperança — um grupo de pseudocientistas. Além de meu trabalho no Nautilus, também tinha ocupações terapêuticas em Vankantillet, algo digno de um pseudoterapeuta.


Naquele momento, eu estava ali apenas para ocupar o lugar e seguir as orientações do meu amigo, o "professor satânico", que não pôde comparecer devido a um imprevisto na Universidade de Omcní, onde ele ocupava um cargo como professor e líder de vários grupos de pesquisa. Ele me pediu para acompanhar seu grupo esotérico em seu lugar — embora fosse claro que não se tratava de satanistas, apesar do apelido do professor. Ele disse que seria de grande valia para mim, como médico "pseudopsiquiatra-psicólogo".


Quando chegamos, El Niño já estava dormindo. Sua mãe, preocupada, nos ofereceu algo para comer e beber. Aceitamos e nos acomodamos na sala, onde ela nos contou sobre o caso do filho. Ele vinha se queixando de dores abdominais, introspecção profunda e pouca comunicação, tanto com ela quanto no ambiente escolar. O "professor satânico", apesar de não ser especializado em questões psíquicas, sugeriu uma solução através do uso do Ná'ashjé'ii Tłʼaashchíní.


Se fosse meu caso, eu o levaria para o Nautilus, onde ele ficaria sob observação e acompanhamento farmacológico. Normalmente, quando assumo um caso, atuo tanto como administrador da posologia quanto como terapeuta. No entanto, dois fatos me incomodam. O caso de Luci e Luthrom é diferente dos casos que acompanhei no Nautilus, como os de Edy B., Eddie T., Ed H., e Anne. O caso de El Niño é ainda mais específico, com dores abdominais crônicas.


Depois de nos abastecermos, nos dirigimos ao quarto. Durante a sessão, a esotérica portuguesa proferiu palavras antigas em uma língua que parecia uma mistura de árabe marroquino, o que ela chamava de "linguagem do casco", diferenciada pela cor — "cor de casco". À medida que os sonhos de El Niño se desenrolavam, eles revelavam situações que desencadeavam um aumento significativo na ansiedade. Isso ficou evidente pela narrativa da esotérica sobre o fluxo cognitivo, que estava repleto de respostas confusas e uma intensificação das "vozes cognitivas das defesas". O sonho se desenrolava com associações automáticas, respondendo a essas vozes que pareciam falar no ambiente em que estávamos.





Parecia que as palavras da esotérica portuguesa e as respostas do antigo, que tentava decifrar o que as imagens oníricas indicavam, serviam para facilitar a conversa sobre o fluxo cognitivo. Essas interações também provocavam respostas na fala do próprio El Niño. Ou seja, quando a portuguesa narrava o que ouvia em sua mente, El Niño frequentemente respondia com suas próprias falas oníricas. Muitas vezes, essas respostas não eram exatas; parecia que a percepção estava distorcida ou havia um mecanismo de defesa ativo durante o sono, que constantemente se protegia contra uma invasão. No entanto, como a conversa era livre, surgiam alguns escapes nas imagens oníricas projetadas, relacionados à sua dinâmica familiar.


Neste momento, a mãe de El Niño explicou o que a representação poderia indicar e identificou as pessoas que a projeção tentava representar, de forma desfigurada. Isso trouxe uma sensibilidade à voz da mãe, que, embora não tenha acalmado completamente, ajudou a suavizar as reações em cadeia. Concluí que a origem da ansiedade estava relacionada a questões familiares, que estavam amplificando a ansiedade e possivelmente contribuindo para as dores abdominais. Compartilhei minha interpretação com os colegas em voz baixa, o que parecia quase imperceptível para El Niño, que estava sonhando e não sabia que estávamos lá, invadindo seus sonhos com a autorização de sua mãe. Isso me deixou desconfortável, neste ponto.


Eu não podia controlar essa situação; foi decidido antes da minha chegada que eu não falaria diretamente com El Niño – o que faria muita diferença, particularmente. O professor satânico havia instruído que eu não revelasse minhas observações ao menino. Quando comecei a compartilhar minha interpretação, outros membros do grupo procuravam indícios de traumas de vidas passadas. Eu percebi neste momento que o experimento precisava ser interrompido, pois compreendi que, independentemente da causa ser um trauma familiar ou não, nossa invasão ao sono não ajudaria, mas apenas agravaria as feridas. Era claramente uma invasão, como o nome sugere — quando um inseto pousa em nossa cabeça, provoca aflição e angústia até que o removamos.


Eu disse em voz baixa para interromper imediatamente o experimento. Argumentei que o professor satânico estava equivocado ao buscar soluções mágicas para traumas, comparando com outros casos problemáticos, como o de Edith Ades na própria universidade, que causou mais revolta e conflito na pesquisadora. Ou ainda a decisão do Nautilus de manter Anne trancada em um quarto, com a fechadura do lado de fora, devido às suas explosões emocionais intensas. Embora esses efeitos tenha desencadeado um controle significativo por meio da terapia. Mas quando eu não estava no Nautilus, Anne permanecia trancada no quarto por decisão do comandante militar e do professor satânico.






Qualquer intervenção deveria ser feita com o consentimento de El Niño e com a clareza dos riscos envolvidos. A invasão, como já observei, poderia intensificar ou sofisticar suas defesas e aumentar o conflito interno, até que o "órgão psíquico" se adaptasse ao "inseto" — uma metáfora para a intrusão — o que poderia levar a um aumento dos sintomas e até mesmo à morte. Portanto, era crucial proceder com cautela.


A esotérica portuguesa me retirou do ambiente e perguntou: "Doutor Walter Máximos, o que está a acontecer?". Respondi que o propósito era nobre, mas que a tecnologia era extremamente invasiva. Mesmo que El Niño acordasse sem lembrar do ocorrido, algo em sua mente poderia permanecer. Ela me garantiu que faria uma limpeza especial e prescreveria um tratamento de banhos para a mãe administrar, que ajudaria a acalmar a ansiedade e seria complementado pelo acompanhamento da feiticeira.


Instruí que seguissem essas orientações e que registrassem tudo com um gravador que deixei, pois eu não participaria mais do experimento. Embora a portuguesa pudesse ter me considerado ignorante, eu tinha minhas razões para acreditar que a abordagem era invasiva. Mesmo com o consentimento de El Niño, ainda seria uma invasão, precisando ser mais precisa para não causar tanto dano, embora não pudesse evitar totalmente os efeitos adversos.


Minha saída deve ter preocupado a mãe, mas espero que eles tenham conseguido estabilizá-la. Eu saí, embora minhas próprias metodologias e tecnologias também não fossem perfeitas. Ver El Niño se debatendo psiquicamente e a portuguesa tratando a situação como parte da terapia não estava em concordância com minha visão. Posteriormente, o professor satânico me procurou e disse que o aumento das defesas é comum no início de uma terapia, mas que eventualmente o "mar se acalma". No entanto, achei a abordagem medieval e, consequentemente, deixei de ser uma opção para observações de casos esotéricos dirigidos por ele, professor satânico doutor Mau.




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