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Destaques

DIÁLOGO IV

Disse o velho gordo mal cabendo na sua cadeira de bar, bebendo um coquitel de bagas e fumando um cachimbo com fumo de chocolate, e tossindo, porque não tem o hábito de fumar tão pouco de beber: - Ser um pobre estudante é horrível. A tecnologia não parece compreendê-lo, e o que deveria ser algo que o tornasse mais fácil acaba por o reter. A falha em escrever bate-me constantemente na mão e torna difícil produzir um raciocínio porque me falta um aparelho de ar condicionado. Vamos lá...  Será que a obra ou o autor vale mais?  Disse eloquente e bêbado: - Podemos dizer que o personagem de ficção passa por um controlo considerável e provável que o escritor, no seu lugar de poder, exerce sobre isto e sobre o protagonista sua influência. Haverá uma saída para isto, minha querida? Forster, a minha má influência, dá uma forma para que isto seja resolvido pela ligação entre personagens planas e redondas, em que o autor não exerce o seu poder. Por isso, interpreto-o como sendo pouco rígid...

EVACUADO NA CAPELA DO PORTO / 港の礼拝堂の避難者

 À beira da floresta onde os ventos sussurram segredos antigos, avista-se Vankantillet, a cidade dos telhados nevados e dos corações inabaláveis. O ar pesa com uma melancolia romântica, e as sombras das árvores dançam ao som do frio que se aproxima. Nessa noite solitária, enquanto a lua pálida desvela o mistério das estrelas, um jovem perdido caminha entre as ruas cobertas de neve, buscando respostas que o vento se recusa a dar.


O grande evento do Equinócio da Primavera não é uma simples festa. É a promessa de uma nova estação, onde o futuro parece menos sombrio e o passado, uma lembrança dolorosa. Mas dentro da cidade, um cientista, tão frio quanto a própria neve, guarda segredos em sua máquina infernal. Giovanni Bemleik, com seus olhos cortantes e sorriso venenoso, experimenta não apenas com a ciência, mas com a própria essência da vida. À medida que seus cristais brilham sob a luz esverdeada, as almas dos que cruzam seu caminho se perdem, deformadas pela loucura que ele comanda.

Hyde, um jovem de espírito quebrado, se vê enredado em seu próprio tormento. Tenta, desesperado, encontrar uma saída para sua dor, oferecendo sua alma ao cientista em troca de uma cura. Mas o que ele não sabia é que Bemleik não cura — ele corrompe. A máquina zune, os cristais vibram, e em meio ao vapor espesso, o grito primitivo de Hyde se eleva aos céus. Transformado em algo monstruoso, ele foge pela cidade, um reflexo grotesco da fragilidade humana.

E assim, sob a lua que outrora prometia paz, o monstro, agora exilado, encontra refúgio numa capela esquecida, onde nem mesmo a misericórdia de Deus parece alcançá-lo.



Enquanto Hyde, agora uma criatura deformada, se arrasta pelas portas da pequena capela, o silêncio do lugar o envolve como um véu. Os bancos de madeira rangem, e as luzes fracas das velas tremeluzem, lançando sombras inquietas nas paredes frias. Ele cai de joelhos, tentando buscar algum vestígio de humanidade dentro de si, mas tudo o que encontra é o eco de seu tormento.

Ao fundo, o velho padre da paróquia, uma figura solene e serena, observa o estranho ser que adentra seu santuário. Ele não se move, nem fala; seus olhos carregam uma compaixão que apenas o tempo e a solidão podem forjar. Lentamente, ele se aproxima, seus passos ecoando no chão de pedra.

— Seja qual for o fardo que você carrega, filho, este lugar é para aqueles que buscam redenção — disse o padre, com uma voz baixa, mas firme.

Hyde, com suas mãos grotescas e seu corpo desfigurado, ergue a cabeça, mas não consegue falar. A transformação o privara da fala humana, deixando-o preso em um corpo que já não reconhecia como seu. Seus olhos, porém, cheios de desespero, tentam expressar o que suas palavras não conseguem.

O padre se ajoelha ao lado dele, sua presença calma contrastando com a tormenta que Hyde vivia internamente. Ele toca o ombro da criatura com cuidado, como se tocasse um espírito atormentado.

— O corpo pode ser uma prisão, mas a alma... a alma sempre pode ser libertada — sussurrou o padre, seus olhos fitando a janela por onde a luz da lua penetrava suavemente.

Lá fora, os ventos uivavam, e a tempestade se intensificava. Vankantillet continuava sua vida de festas e celebrações, inconsciente do monstro que buscava abrigo em seu refúgio mais sagrado. E ali, no coração da capela, um estranho pacto se formava entre o ser disforme e o velho sacerdote — um pacto silencioso de redenção e mistério.

Naquela noite, o destino de Hyde mudaria para sempre.




A noite continuava, mergulhando a capela em uma escuridão mais profunda, apenas quebrada pelo brilho tênue das velas. O padre, com seu rosto marcado pelo tempo, mantinha-se ao lado de Hyde, observando cada movimento do ser que se contorcia em silêncio, como se lutasse contra o próprio corpo. A transformação física que o acometera não era o único tormento — o que mais o dilacerava era o fardo da alma, agora despedaçada entre a loucura e a esperança.

— Filho... — sussurrou o padre, — nenhum homem está além da salvação, por mais fundo que tenha caído na escuridão.

Hyde tentava se erguer, suas pernas trêmulas sob o peso de sua nova forma. Ele se arrastou até um banco próximo e, com um gemido rouco, conseguiu se sentar. O padre, atento, não fez mais perguntas. Sabia que, às vezes, o silêncio era o maior conselheiro.

— Eu... — Hyde finalmente conseguiu soltar uma palavra, sua voz deformada, quase inaudível. — Monstro...

O padre abaixou a cabeça por um momento, como quem respeitava a dor do outro.

— Não há monstros nesta casa, apenas homens em busca de algo que nem sempre sabem nomear — respondeu o padre, com uma suavidade que contrastava com o aspecto selvagem da criatura ao seu lado.

Hyde, em sua agonia, ergueu as mãos monstruosas à frente do rosto, como se não reconhecesse o que havia se tornado. As sombras que seus dedos projetavam nas paredes pareciam moldar figuras grotescas, dançando no ritmo incerto das chamas. Ele se lembrava do cientista, Giovanni Bemleik, e da promessa de transformação. Mas o que Giovanni lhe oferecera não era cura, mas uma descida ao mais profundo inferno da alma.

— Não... não posso voltar... — Hyde murmurou entre dentes, sentindo o peso da culpa o afundar ainda mais. Sua mente estava presa entre as lembranças de seu corpo humano e a realidade atual de um monstro errante, condenado a vagar sem destino.

O padre então se ergueu lentamente, seus olhos fixos no crucifixo de madeira acima do altar.

— Há um caminho, filho, mas ele não é fácil. As marcas em seu corpo são visíveis, mas as cicatrizes da alma são as que mais demoram a ser curadas. O que foi feito com você, pode ser desfeito — disse ele, voltando seu olhar para Hyde, seus olhos repletos de uma calma misteriosa.

Hyde olhou para o velho sacerdote, com uma mistura de incredulidade e medo. Como ele poderia ser salvo de algo tão profundo e irreversível? O mundo o rejeitara, e agora ele próprio se via como uma aberração, algo que nem deveria mais existir.

— Como? — foi tudo o que Hyde conseguiu dizer, sua voz arranhada, quase desaparecendo no som da chuva que agora tamborilava mais forte no telhado da capela.

O padre permaneceu em silêncio por um longo momento, e então, com uma voz que parecia vir de um lugar muito distante, ele respondeu:

— O caminho começa com o perdão... não de mim, nem de Deus, mas de si mesmo.

Hyde ficou paralisado. Perdão? Ele mal podia suportar olhar para o que havia se tornado, quanto mais perdoar a si mesmo por permitir que isso acontecesse. Mas algo na voz do padre, algo naquela capela simples e sagrada, começou a semear em seu coração uma dúvida: poderia ele realmente se libertar?

O silêncio entre eles foi interrompido por um som distante, um murmúrio vindo da floresta. O padre ergueu a cabeça, seus olhos estreitando-se como se sentisse algo de errado. O vento que antes era suave começava a uivar com uma força sobrenatural, e a luz das velas tremeluzia de forma errática.

— Alguém se aproxima — murmurou o padre, e em seus olhos havia um brilho de preocupação.

Hyde sentiu um arrepio percorrer sua espinha. Seria Giovanni Bemleik, vindo buscar o que restava de sua criação? Ou algo pior, atraído pela presença do monstro que ele agora era? O medo apertou seu coração, mas, pela primeira vez, ele não estava sozinho.

O padre se levantou, caminhando até a porta da capela, que estremeceu com a força do vento. Ele colocou a mão na maçaneta, mas hesitou, como se pressentisse que o que estava do outro lado era mais do que simples tempestade. Hyde observava em silêncio, sua respiração pesada, esperando o desfecho de uma noite que já carregava em si o peso de mil tormentos.

E então, a porta se abriu lentamente, rangendo em protesto...


INÚTILE DILETTANTE. 港の礼拝堂の避難者. Ameblo. Disponível em: https://ameblo.jp/inutiledilettante/entry-12867847768.html. Acesso em: 16 set. 2024.






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