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"Bellum omnium contra omnes – etiamsi omnes, ego non.". Este blogueiro é dirigido aos escritos iliterários. Aqui este autor expõe seus registros cognitivos e distorções cognitivas.
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DIÁRIO DO OBSERVADOR XIII
No dia de hoje, a queixa principal do observado envolve sua história familiar, que remonta a temas anteriormente abordados neste diário, como o theatricum psychicus, moralis e laborans. O observado reconheceu que sofreu traumas devido à convivência familiar. A negação dos parentes intensifica o conflito, e ele relata que, durante a infância, era repreendido por suas travessuras típicas de criança. As broncas vinham acompanhadas de gritos e expressões de raiva. Seus familiares demonstravam pouca paciência e pareciam não gostar de crianças. Chamavam-no de "burro", o que, segundo ele, reflete a visão limitada que tinham de sua mãe, a quem também apelidavam de "tonta" e "lesada". Essa percepção herdada dos tios reduziu o observado à condição de alguém "retardado".
Esses insultos, hoje, sustentam as vozes externas que ele escuta. Essas vozes não assumem mais os papéis de pai e mãe, mas sim de primos e tios. Curiosamente, as personalidades dessas vozes pertencem à mesma geração que seus primos, aqueles que o maltratavam na infância – gritavam, escondiam seus brinquedos e o trancavam no escuro, sabendo que ele não conseguia alcançar o interruptor e tinha medo. Esses eventos consolidaram nele a crença de que ninguém é confiável, que amizades não são reais e que relacionamentos são insustentáveis.
Além dessas convicções, formadas pelo mau relacionamento familiar, há também a sensação de abandono. Inicialmente, pensei que fosse por parte do pai, que não o assumiu, mas a verdadeira ferida vem da mãe, presente, porém ausente, devido ao trabalho. Ela não acreditava nas queixas do filho, o que o levou a concluir que a pessoa em quem deveria confiar não era confiável. Hoje, sua mãe tenta recuperar o tempo perdido, mas, sem muita habilidade, segue princípios cristãos que, por pequenas expressões, continuam reforçando a crença de que ninguém é confiável.
Agora, adulto, o observado tenta afirmar seu lugar como economicamente ativo em um mercado voltado para os belos e insuficientemente qualificados. Ele acredita que pode enfrentar tudo sozinho, uma consequência de ter passado por traumas relacionais na infância. Ele desenvolveu a crença fatal de que "todos estão contra mim, tenho que dar conta de mim mesmo e sobreviver com minhas próprias forças". Um dos mecanismos de enfrentamento que desenvolveu ainda na infância foi o deboche, mostrando desde cedo dificuldades em chorar, talvez porque, em meio a assediadores morais, ele não podia demonstrar fraqueza, pois, segundo ele, é disso que eles se alimentam. Em algum momento, percebeu que chorar não resolvia, mas que rir desestabilizava os agressores. Então, ele começou a rir quando eles se enfureciam, o que também contribuiu para sua dificuldade atual em expressar tristeza.
Outro mecanismo de escape das agressões foi a criação de um mundo infantil próprio. Ele brincava com seus brinquedos ou fingia ser um cavaleiro no quintal. Os espaços da casa foram apropriados como formas de estabilização emocional. Até novembro de quatro anos atrás, a imaginação ou magia ainda eram acessíveis por meio da música. No entanto, ele relata que, ao começar a ouvir "vozes" por trás das músicas, afastou-se dessa produção imaginativa e, desde então, não se sente seguro para deixar sua imaginação fluir. Esse sintoma, que surgiu após vinte e um anos, está ligado à hipervigilância cognitiva, que corrompe o desenvolvimento de imagens mentais. Para retomar essa prática, recomendo técnicas de relaxamento, mas o observado resiste, possivelmente por não conseguir confiar nem em si mesmo quando não tem certeza absoluta.
Um dos sintomas subclínicos que mais o prejudica é a impulsividade agressiva, seja ela linguística, simbólica ou física. Desde a infância, ele foi condicionado a reagir para se defender de censuras e violências verbais, e assim, frequentemente, explode. Para mitigar esse efeito, recomendei uma técnica de identificação das palavras ou expressões que desencadeiam tais reações, a fim de metabolizá-las. Sugerir que ele "entenda e coma isso" foi arriscado, pois poderia desenvolver compulsão alimentar – id. est., risos. Contudo, expliquei que o "comer" aqui tem um sentido antropofágico, como os indígenas faziam com o padre que proclamava Cristo enquanto era queimado. Ele deve pegar o sentimento, ouvi-lo, entender por que ele sustenta esse efeito e então "comê-lo". O observado reconheceu que seus familiares são ignorantes e brutais, o que cria uma hereditariedade cultural de reações ignorantes a determinados estímulos.
Um exemplo claro dessa reação foi no curso de letras, quando o observado disse: "Às vezes me sinto como o Yoda", e um colega respondeu: "Só não tem o mesmo raciocínio". Ele explodiu, um comportamento aprendido na infância diante das provocações de tios e primos. Em vez de explodir, ele precisa refletir sobre o porquê essa provocação provoca uma reação raivosa. Recentemente, quando uma prima publicou um texto em resposta a um pensamento seu, ele pensou em responder, mas, em vez disso, conversou com alguém sobre o que sentia e assistiu a um vídeo. Durante esse tempo, ele precisou conter várias reações nervosas, utilizando a técnica de "deixar passar". Embora tenha deixado escapar uma frase sem importância, no final, conseguiu "comer" a razão do impulso de raiva que o estava dominando.
Contudo, "engolir" sentimentos pode causar doenças, então recomendei que, após o "banquete", ele escreva sobre o que sentiu, para extrair algum aprendizado, e, se não conseguir escrever, que fale com alguém ou, pelo menos, imagine. Cada pessoa tem sua dosagem certa, mas, em algum momento, ele terá que engolir esses sentimentos, como fazemos com medicamentos azedos. Essa dificuldade em tomar remédios, que ele sente, também reflete uma relutância lógica: o corpo sente que está sendo desequilibrado pelo medicamento e tenta se autosabotar. Contudo, acredito que o corpo mais interno, de alguma forma, substitui o remédio pela vivência mágica da imaginação, que agora ele acessa assistindo filmes e séries da DC Comics. A preferência pela DC não é misteriosa, já que é uma das poucas que aborda problemas de ordem psicológica. A imaginação na tela poupa esforços e proporciona o mesmo relaxamento. Outro meio que o corpo psíquico encontrou para substituir o medicamento foi o estudo e a leitura de livros filosóficos e artigos científicos, que também ajudam a estabilizar o humor e compensar as dificuldades de aprendizagem que ele sofreu na infância.
Em resumo, as infecções no espírito e na mente, causadas por inflamações culturais vindas de casa, do trabalho e de outros ambientes, podem ser generalizadas pelo silenciamento. Para falar dessa "doença", é preciso vivenciá-la e não evitá-la. No grupo espírita, o observado sentiu agressões de alguns participantes e não se sentiu bem-vindo. Ele não consegue acessar as lembranças traumáticas de sua infância, então precisará persistir em frequentar esse ambiente para melhor analisar o que acontece e evitar explosões de raiva, que só pioram a situação. Embora seja torturante, essa abordagem pode ajudá-lo a se tornar mais consciente dos gatilhos instalados por sua família. Quanto ao theatricum psychicus, dedicarei páginas específicas deste diário para aprofundar esse tema.
Há também a técnica de falar para si mesmo: "Eu já passei por isso e não preciso explodir". Ser metacognitivo é um grande avanço, pois permite observar o que desencadeia certos sentimentos e o que já se tornou habitual para lidar com eles. É claro que não se deve permanecer em um ambiente que agride, mas, veja, neste caso, ninguém está agredindo ele diretamente. São associações simbólicas que remetem a uma experiência traumática e esquecida da infância. Enfrentar isso pode valer a pena, pois é uma forma de dialogar com algo que, de maneira inconsciente, ele não tem acesso. Quando explode, as pessoas ao redor ficam sem entender, já que aparentemente não houve motivo, tamanha a subjetividade da situação.
Outro ponto relevante é que as vozes que ele ouve parecem ter personalidades que se assemelham às pessoas da sua família, curiosamente com idades semelhantes. Isso pode sugerir que as normas de reação e conduta que ele internalizou vêm da geração anterior e dos privilégios que essas pessoas tiveram. Um fato interessante é que, antes de sua mãe começar a trabalhar e ele ficar sozinho com tias e primos até ela voltar, ele não demonstrava esses acessos de raiva. Era uma criança carinhosa, alegre, sempre sorridente e encantada pela televisão, seu primeiro mundo mágico, especialmente quando assistia "O Mágico de Oz" com sua avó materna.
A convivência com primos e tios, que naquela época compartilhavam o mesmo espaço, parece ter desencadeado esses acessos de raiva como um mecanismo de enfrentamento, que mais tarde se transformou em uma compulsão, ligada a um sentimento obsessivo que surgia de repente, como alguém que vê um marimbondo e imediatamente lava as mãos. Inflamações que se tornam infecções generalizadas, tudo isso dentro do contexto cultural em que ele está inserido.
Se não falamos sobre a doença, ela pode tomar conta de todos os aspectos da vida – corpo, alma, trabalho – e dirigir o dia a dia da pessoa. Provavelmente, há muitas pessoas doentes que seguem uma rotina controlada pela doença. A questão é: como saber se a doença está me controlando? Um indício é quando você não consegue se sentir motivado, quando falta aquele impulso interior. Ou quando evita fazer qualquer coisa porque foi traumatizado por experiências anteriores. A linha entre doença e personalidade é muito sutil, e para mim ainda é difícil identificar e definir, mas é algo perceptível nas pessoas, quase instintivo.
Sua tia, por exemplo, que era a principal figura punitiva durante sua infância, parece estar doente. Ela não gasta dinheiro com algo que a alegre, vive em função de agradar a família e, mesmo assim, não consegue dar conta. Esse papel de provedora foi algo que ela assumiu após a morte do irmão mais velho, que era o responsável por sustentar financeiramente a família. Ela não sai para se divertir, apenas frequenta bingo e assiste vídeos esotéricos durante o dia. Ela é dura, conforme relatado. Essa rigidez cultural, parte conservadora, parece ser o que a adoece. Além disso, há a falta de autonomia financeira, que também contribui para a doença.
Até que ponto você pode mudar o cenário que sua doença impõe? Para o observado, sugeriu-se atividades simples, como caminhadas, participação em grupos de estudo (já que ele gosta), praticar um esporte, tomar sol, participar de terapia em grupo, além de manter cuidados diários básicos, como higiene, preparar sua própria comida, limpar o quarto, todos esses são desafios. Regular o sono, continuar com a terapia hídrica (tomar quatro copos de água de 500 ml) e se esforçar para tomar os medicamentos até que o posto de saúde disponibilize a medicação necessária também são passos importantes.
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