Pular para o conteúdo principal

Destaques

DIÁLOGO IV

Disse o velho gordo mal cabendo na sua cadeira de bar, bebendo um coquitel de bagas e fumando um cachimbo com fumo de chocolate, e tossindo, porque não tem o hábito de fumar tão pouco de beber: - Ser um pobre estudante é horrível. A tecnologia não parece compreendê-lo, e o que deveria ser algo que o tornasse mais fácil acaba por o reter. A falha em escrever bate-me constantemente na mão e torna difícil produzir um raciocínio porque me falta um aparelho de ar condicionado. Vamos lá...  Será que a obra ou o autor vale mais?  Disse eloquente e bêbado: - Podemos dizer que o personagem de ficção passa por um controlo considerável e provável que o escritor, no seu lugar de poder, exerce sobre isto e sobre o protagonista sua influência. Haverá uma saída para isto, minha querida? Forster, a minha má influência, dá uma forma para que isto seja resolvido pela ligação entre personagens planas e redondas, em que o autor não exerce o seu poder. Por isso, interpreto-o como sendo pouco rígid...

DIÁRIO DO OBSERVADOR XII

 Durante a semana, o observado travou uma batalha silenciosa contra seu relógio biológico, tentando desesperadamente regulá-lo. Porém, foi traiçoeiramente sabotado por sua própria mente, que, num último ato de lealdade oculta, o entregou ao sono, como ele mesmo relatou. Levantar às dez para ler o evangelho, uma tradição familiar, já não provoca tanta resistência. O hábito de tomar seus medicamentos, antes uma luta diária, tornou-se um fardo menor ao perceber que engolir todos os comprimidos de uma vez alivia a relutância que antes sentia ao tomar cada um separadamente, respeitando os intervalos entre os grupos de fármacos.


Apesar disso, o observado dedica-se intensamente à leitura de textos acadêmicos, enquanto o livro da história do evangelho, presente de seu primo de dez anos, permanece quase intocado. Com fervor, realiza as atividades da faculdade, canalizando sua criatividade na elaboração de textos e slides. Contudo, uma profunda relutância o afasta do grupo de estudo do evangelho na igreja. Ele não se sente acolhido ali. Já se passaram cinco semanas desde a última vez que compareceu ao Neuróticos Anônimos, e três semanas desde que abandonou a terapia em grupo no posto de saúde, julgando as perguntas do grupo terapêutico invasivas demais.


Os pensamentos obsessivos que costumavam dominá-lo são agora substituídos por devaneios sobre seu futuro como professor. Na imaginação, ensaia situações hipotéticas, ponderando as melhores respostas e gestos. Vê-se chamando seus alunos para elevar-lhes a autoestima, até pensa em levar um kit para pentear seus cabelos desarrumados durante o recreio – imagina prestar cuidados. Embora tais cenas possam nunca se materializar, revelam o processo interno de construção de um papel que se assemelha ao de mãe/pai para si mesmo. A simples ação de voltar a tomar os comprimidos é um sinal sutil dessa jornada de autocuidado – caminho a autonomia e a diminuição dos fármacos psicopatológicos, tudo isso é o esforço cotidiano.


Ele projeta seu futuro com os alunos, imaginando maneiras de mantê-los entretidos e atentos, uma preocupação que não o assusta. Diferente das professoras que ouviu no passado, que se recusavam a educar as crianças por julgarem ser essa a função dos pais, o observado considera tal postura uma ignorância. Para ele, a escola tem o dever de tentar moldar o cidadão do futuro. Essa convicção o anima, ele sente-se capaz de enfrentar qualquer desafio para assumir esse papel – um ensaio psíquico para a vida adulta funcional a partir da autonomia biopsiquico e financeira, o trabalho liberta o sujeito de suas próprias âncoras, o dinheiro impulsiona o desenvolvimento de quem está determinado a [morrer] mudar. No fundo, creio que essa nova personalidade que agora emerge, focada no cuidado próprio e dos outros, já estava latente, apenas esperando para vir à tona – me parece um comprometimento com a sociedade e uma constituição de uma função social, por trás disso, o observado quer mudar de vida, quer assumir um bem-estar e uma funcionalidade cívica.


O observado já demonstrou tal aptidão ao auxiliar deficientes físicos, visuais e idosos. Acredito que teria sido um excelente cuidador se tivesse seguido esse caminho. Porém, acima de tudo, espero que ele consiga cuidar de si mesmo no futuro. Estou torcendo por isso.

Comentários