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Destaques

DIÁLOGO IV

Disse o velho gordo mal cabendo na sua cadeira de bar, bebendo um coquitel de bagas e fumando um cachimbo com fumo de chocolate, e tossindo, porque não tem o hábito de fumar tão pouco de beber: - Ser um pobre estudante é horrível. A tecnologia não parece compreendê-lo, e o que deveria ser algo que o tornasse mais fácil acaba por o reter. A falha em escrever bate-me constantemente na mão e torna difícil produzir um raciocínio porque me falta um aparelho de ar condicionado. Vamos lá...  Será que a obra ou o autor vale mais?  Disse eloquente e bêbado: - Podemos dizer que o personagem de ficção passa por um controlo considerável e provável que o escritor, no seu lugar de poder, exerce sobre isto e sobre o protagonista sua influência. Haverá uma saída para isto, minha querida? Forster, a minha má influência, dá uma forma para que isto seja resolvido pela ligação entre personagens planas e redondas, em que o autor não exerce o seu poder. Por isso, interpreto-o como sendo pouco rígid...

COGNITIVO-COMPORTAMENTAL: uma leitura de uma parte da sessão

 O observado narra, com uma inquietação evidente em sua postura, gesticulando nervosamente enquanto suas palavras aceleram:


– Agora tudo que me importa sou eu – seus olhos se movem rapidamente pelo ambiente, como se buscassem uma saída – só tenho afeto e compaixão da minha mãe, e ainda assim, sinto que não posso confiar completamente nela. A qualquer hora ela vai me trocar por alguém que ame mais. Minha família... eles me odeiam. Eles desejam o pior pra mim, e não é só pra mim, é também para a minha prima Laís, que maltratava a avó dela – ele aperta as mãos com força, quase a ponto de machucar – Já eu, nem maltratar alguém faço, mas eles me odeiam porque simplesmente não gostam de mim. Incomoda o fato de eu fazer faculdade, incomoda o fato de eu conseguir um estágio. Qualquer coisa, absolutamente qualquer coisa que eu fizer incomoda. A vontade deles é que eu seja abandonado pela minha mãe ou que ela morra, e eu fique sem ninguém.


Ele começa a balançar o corpo para frente e para trás, uma tentativa de acalmar a tormenta interior, mas as palavras continuam a jorrar:


– Eu era apenas um bebê quando uma prima que me detesta disse que eu tinha vindo arrastado em um saco, por isso minhas costas eram roxas... e que eu só pedi para reencarnar porque tinha medo de ficar sozinho? – A voz treme, o olhar distante, fixo em um ponto indefinido – Eu fui rejeitado pelo meu pai. Ele dizia que minha mãe era uma vagabunda que fez sexo debaixo de um prédio a céu aberto – seu tom se torna amargo, carregado de uma dor que parece ainda sangrar – e que eu era filho do vizinho com quem ela teve um relacionamento tempos atrás. Uma vez, em uma reunião espírita, o santo da linha de Exu disse que minha mãe era uma puta de luxo para o tal vizinho...


As mãos trêmulas passam pelo rosto, num gesto automático de frustração crescente:


– E além disso, o que minhas tias chamam de lesada, lerda, burra, elas diziam que, por ser seu filho, eu teria uma condição igual. Antes mesmo que eu pudesse me tornar alguém, já tinha os rótulos que davam para minha mãe. Eles sempre estão dizendo que eu estudo demais, mas quando digo que eles escolheram ir pra balada ao invés de estudar, eles ficam nervosos, com um acesso de raiva, quase espumando para me matar. Tudo que fiz foi me defender. Eu não fiz nada que não fosse para me defender do enredo narcisista deles.


Os olhos se enchem de lágrimas, mas o choro parece contido, como se preso dentro de uma barragem à beira de romper:


– Eu tenho medo do futuro... medo que nada dê certo... ou que não dê tempo para dar certo – as lágrimas finalmente escorrem, mas são poucas, um choro raso, silencioso – Eu estou tentando... estou fazendo tudo que posso... mas neste país pessoas como eu não parecem ter lugar... Ninguém quer me contratar... Já enviei currículo até para auxiliar de limpeza e nem para isso sou chamado.


As palavras saem entrecortadas pelos soluços, a respiração irregular:


– Eu estou tentando... peço por favor a Deus que me traga um emprego, e a partir daí eu me viro... Eu sei me virar, sei cuidar de mim, mas eu preciso de dinheiro... O que me impede de melhorar é a falta de dinheiro e a falta de trabalho – ele seca as lágrimas rapidamente, mas elas continuam a cair – E o senhor viu? Você viu, Dr. Mico-Leão-Dourado? A taxa de desemprego caiu, mas eu continuo sem emprego. Sou feio, gordo, odiado... as pessoas não vão com a minha cara... Quem vai dar um emprego pra mim?


O que parecia ser suas últimas palavras são quase um sussurro, uma mistura de desespero e resignação, enquanto ele abaixa a cabeça, deixando o peso de sua angústia finalmente desmoronar sobre si.


O observado, nervoso, mexe constantemente nas mãos e evita olhar diretamente para Dr. Mico-Leão-Dourado enquanto fala:


– Eu não posso falar nada... – ele faz uma pausa, olhando para o chão, claramente hesitante – Eu gostaria de falar meus planos até para o senhor, mas tem uma força maior... coisa da minha mãe. Ela dizia na mocidade para não falar seus planos pra ninguém. O que ninguém repara é que isso é coisa dos antigos, dos negros escravizados. Eles não podiam falar seus planos para outro escravo, e não podiam deixar que descobrissem seus planos, porque tinha aquele que falava para a casa grande. Então, esse negócio de não falar pra ninguém é velho.


Seu tom é baixo, quase como se estivesse revelando um segredo ancestral, algo que ele carrega com um peso invisível:


– E eu não podia falar que tudo vai depender de mim... – seus olhos se enchem de uma urgência desesperada, como se estivesse implorando por compreensão – Por favor, senhor, me dê tempo, para eu comercializar o mbaré do meu avô por um bom sacolão. Eu consigo suportar viver na condição da Laís, isolado de tudo... – ele balança a cabeça, como se estivesse tentando se convencer de sua própria força – Eu consigo me organizar, mas eu preciso me formar depressa. Preciso juntar dinheiro, o pouco que me chega, para estudar a apostila do concurso da capital.


Um suspiro profundo escapa de seus lábios, misturando exaustão e resignação:


– Isso eu consigo dizer, porque não é grande como o mbaré... – ele murmura, mais para si do que para o outro, como se estivesse tentando racionalizar a decisão de compartilhar parte de seus pensamentos – Eu me sinto mal... queria ter um patuá, para ter como proteção no bolso frente ao futuro.


Os olhos se perdem momentaneamente, como se estivessem buscando no passado ou em um amuleto imaginário, algo que pudesse lhe dar a força necessária para seguir em frente. A voz vacila, mas o desejo de proteção e de estabilidade é palpável em cada palavra.



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