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Destaques

DIÁLOGO IV

Disse o velho gordo mal cabendo na sua cadeira de bar, bebendo um coquitel de bagas e fumando um cachimbo com fumo de chocolate, e tossindo, porque não tem o hábito de fumar tão pouco de beber: - Ser um pobre estudante é horrível. A tecnologia não parece compreendê-lo, e o que deveria ser algo que o tornasse mais fácil acaba por o reter. A falha em escrever bate-me constantemente na mão e torna difícil produzir um raciocínio porque me falta um aparelho de ar condicionado. Vamos lá...  Será que a obra ou o autor vale mais?  Disse eloquente e bêbado: - Podemos dizer que o personagem de ficção passa por um controlo considerável e provável que o escritor, no seu lugar de poder, exerce sobre isto e sobre o protagonista sua influência. Haverá uma saída para isto, minha querida? Forster, a minha má influência, dá uma forma para que isto seja resolvido pela ligação entre personagens planas e redondas, em que o autor não exerce o seu poder. Por isso, interpreto-o como sendo pouco rígid...

BIOY CASARES: um estudo possível II

 "Por volta de 1882, Stevenson observou que os leitores britânicos desdenhavam (menosprezavam) um pouco as peripécias (aventuras) e achavam ser prova de grande habilidade escrever uma novela sem argumento ou com argumento infinitesimal (extremamente pouco) atrofiado — trama muito reduzida."

Explicação: Em 1882, Robert Louis Stevenson notou que o público britânico tinha uma atitude negativa em relação às histórias repletas de aventuras e peripécias. Eles acreditavam que uma verdadeira habilidade na escrita era demonstrada na criação de romances que não se baseavam em tramas emocionantes ou complexas — ao contrario, baseavam-se em tramas extremamente simplificada. Em vez disso, valorizavam romances com enredos mais sutis ou quase inexistentes, considerados mais sofisticados.

"José Ortega y Gasset — em A desumanização da arte, 1925 — trata de explicar o desdém observado por Stevenson e, na página 96, declara 'ser muito difícil, hoje em dia, inventar uma aventura capaz de interessar à nossa sensibilidade superior' e, na página 97, ser essa invenção 'praticamente impossível'."

Explicação: Ortega y Gasset, em seu trabalho de 1925, discute o desprezo por histórias de aventura, refletindo sobre a dificuldade de criar uma narrativa de aventuras que atraia a sensibilidade mais refinada da época. Para ele, criar uma história envolvente e significativa estava se tornando quase impossível, dado o nível elevado das expectativas culturais e intelectuais.

"Em quase todas as outras páginas, faz a apologia (exaltação) da novela 'psicológica' e opina ser o prazer das aventuras inexistente ou pueril (imaturo)."

Explicação: Ortega y Gasset defende o romance psicológico, que se concentra mais na exploração interna dos personagens e suas emoções do que em aventuras externas. Ele considera que o prazer encontrado nas histórias de aventura é superficial ou imaturo, sugerindo que a verdadeira profundidade está na análise psicológica dos personagens.

"Tal é, sem dúvida, o parecer comum em 1882, em 1925 e ainda em 1940. Alguns escritores (entre os quais me apraz contar Adolfo Bioy Casares) acham por bem dissentir. Resumirei a seguir os motivos dessa dissensão."

Explicação: A crítica desfavorável às aventuras não era apenas uma opinião de 1882, mas continuava até 1940. No entanto, alguns escritores, como Adolfo Bioy Casares, discordam dessa visão. O autor do trecho promete explicar as razões dessa discordância.

"O primeiro (cujo ar de paradoxo — contradição — não quero destacar nem atenuar) é o rigor intrínseco da novela de peripécias."

Explicação: O primeiro motivo para a discordância é o rigor interno das novelas de aventuras, que muitas vezes possuem uma estrutura mais disciplinada e organizada, contrastando com a natureza aparentemente desordenada das novelas psicológicas.

"A novela característica, 'psicológica', tende a ser informe (irregular). Os russos e os seus discípulos demonstraram, até à saciedade, que ninguém é impassível (indiferente): suicidas por felicidade, assassinos por benevolência, pessoas que se adoram a ponto de se separarem para sempre, delatores (traidores) por fervor ou por humildade... Essa liberdade plena acaba equivalendo à desordem mais completa."

Explicação: O autor critica a novela psicológica, alegando que ela tende a ser desordenada e caótica. Ele observa que, enquanto a novela psicológica explora uma ampla gama de emoções e motivações humanas, essa liberdade pode levar à falta de estrutura e coesão na narrativa.

"Por outro lado, a novela 'psicológica' quer ser, também, novela 'realista': prefere que esqueçamos o seu caráter de artifício verbal e faz de toda vã precisão (ou de toda lânguida — fraca — imprecisão) um novo toque verossímil (que parece ser verdadeiro)."

Explicação: A novela psicológica busca se apresentar como realista, tentando fazer com que os leitores ignorem seu caráter artificial. Ao enfatizar detalhes precisos ou imprecisos, essa forma de romance tenta criar uma impressão de realidade e autenticidade. Ela deseja ser vista como um reflexo fiel da vida cotidiana, apesar de seu estilo literário e estrutura ainda serem artificiais.

"Há páginas, há capítulos de Marcel Proust inaceitáveis como invenções — aos quais, sem nos apercebermos, nos resignamos como ao insípido (sem gosto, sem graça) e ao ocioso do cotidiano."

Explicação: O autor menciona que certas partes dos escritos de Marcel Proust podem parecer inaceitáveis como ficção devido à sua falta de estrutura narrativa tradicional ou à sua descrição detalhada do cotidiano. No entanto, os leitores acabam aceitando essas partes como parte do fluxo natural da vida cotidiana, apesar de sua falta de um enredo convencional.

"A novela de aventuras, em troca, não pretende ser uma transcrição da realidade: é um objeto artificial, que não sofre nenhuma parte injustificada."

Explicação: Ao contrário da novela psicológica, a novela de aventuras não se esforça para refletir a realidade. Ela é vista como um objeto artificial, com um enredo cuidadosamente estruturado e sem partes desnecessárias. Sua principal preocupação é a construção de uma trama emocionante e coesa, ao invés de uma representação fiel da vida real.

"O temor de incorrer na mera variedade sucessiva do Asno de Ouro, das sete viagens de Simbad ou do Quixote, impõe-lhe um argumento rigoroso."

Explicação: A novela de aventuras tem o medo de se tornar uma coleção de eventos desconexos, semelhante a histórias como "O Asno de Ouro" ou as "Sete Viagens de Simbad" — e Quixote —, onde as aventuras são sucessivas e não necessariamente integradas em uma narrativa coesa. Para evitar isso, ela exige um enredo rigoroso e bem estruturado, com um desenvolvimento claro e um propósito unificado.

"Aleguei (declarei) um motivo de ordem intelectual; existem outros de caráter empírico (material)."

Explicação: O autor está fazendo uma distinção entre razões intelectuais e empíricas para o argumento que está discutindo. Ele sugere que, além das razões teóricas e conceituais (intelectuais), há também razões baseadas em experiências práticas ou observações diretas (empíricas) que precisam ser consideradas.

"Todos se queixam de que o nosso século é incapaz de tecer tramas interessantes; ninguém se atreve a comprovar que, se este século tem alguma primazia (vantagem) sobre os anteriores, essa primazia é a das tramas."

Explicação: O autor observa que é comum ouvir que o século atual não consegue criar histórias ou enredos interessantes. No entanto, ele sugere que, se o século atual tem alguma vantagem sobre os anteriores, essa vantagem pode ser na qualidade das tramas e narrativas.

"Stevenson é mais apaixonado, mais diverso, mais lúcido, talvez mais digno da nossa amizade do que Chesterton; mas os argumentos que comanda são inferiores."

Explicação: O autor está comparando Robert Louis Stevenson e G.K. Chesterton. Embora considere Stevenson mais apaixonado e interessante, ele acredita que a qualidade dos argumentos em suas obras é inferior à de Chesterton.

"De Quincey, em noites de minucioso terror, mergulhou no âmago de labirintos, mas não cunhou sua impressão de unutterable and self-repeating infinities (infinitos indizíveis e auto-repetitivos) em fábulas comparáveis às de Kafka."

Explicação: Thomas De Quincey é elogiado por sua capacidade de explorar profundidades psicológicas e medos, mas suas criações não são comparáveis às complexas e repetitivas infinitudes presentes nas obras de Franz Kafka.

"Observa, com justiça, Ortega y Gasset que a 'psicologia' de Balzac não nos satisfaz; o mesmo cabe afirmar quanto aos seus argumentos."

Explicação: Ortega y Gasset critica a abordagem psicológica de Honoré de Balzac, argumentando que ela não é satisfatória, assim como os enredos de Balzac não atendem plenamente às expectativas contemporâneas.

"A Shakespeare e a Cervantes agrada a ideia antinômica (contrária) de que uma moça, sem que a sua formosura diminua, consiga passar por homem; nos nossos dias, esse móvel não funciona."

Explicação: O autor aprecia como Shakespeare e Cervantes utilizam ideias paradoxais ou antinômicas, como uma mulher mantendo sua beleza enquanto se passa por homem. No entanto, ele acredita que essas ideias não têm o mesmo impacto ou relevância hoje em dia.

"Julgo-me isento de qualquer superstição de modernidade, de qualquer ilusão de que o passado difere intimamente do presente e de que este diferirá do amanhã; mas acho que nenhuma outra época possui novelas de argumentos tão admiráveis quanto os de The Turn of the Screw, Der Prozess, Le Voyageur sur la Terre ou como o desta, escrita, em Buenos Aires, por Adolfo Bioy Casares."

Explicação: O autor afirma não ter uma crença ingênua na superioridade da modernidade ou na diferença essencial entre passado e presente. No entanto, ele acredita que as novelas atuais, como "The Turn of the Screw" de Henry James, "Der Prozess" (O Processo) de Franz Kafka, e "Le Voyageur sur la Terre" (O Viajante na Terra), assim como a obra de Adolfo Bioy Casares, possuem enredos excepcionais que não têm igual em outras épocas.

"As ficções de índole policial — outro gênero típico deste século que não pode inventar argumentos — referem fatos misteriosos, logo justificados e ilustrados por um fato lógico."

Explicação: As histórias policiais são destacadas como um gênero literário típico do século, que se baseia em mistérios resolvidos por meio de uma lógica ou razão. O autor sugere que esses enredos se concentram em apresentar e resolver mistérios de forma lógica, em vez de criar argumentos inovadores ou complexos.

"Nestas páginas, Adolfo Bioy Casares resolve com felicidade um problema talvez mais difícil. Desenvolve uma Odisséia de prodígios (excepcionalidade, gênios) que não parecem admitir outra clave que não a da alucinação ou a do símbolo, e decifra-os plenamente mediante um único postulado fantástico, mas não sobrenatural."

Explicação: Adolfo Bioy Casares é elogiado por enfrentar um desafio mais complexo do que o encontrado nas ficções policiais tradicionais. Ele cria uma narrativa que envolve uma série de prodígios ou maravilhas — ou excepcionalidades ou genialidades — que parecem apenas interpretáveis como alucinações ou símbolos. No entanto, ele resolve esses mistérios usando um único princípio fantástico que, embora não seja sobrenatural, é inovador e eficaz na resolução do enigma.

"O temor de incorrer em revelações prematuras ou parciais proíbe-me examinar aqui o argumento e as muitas sutilezas da execução. Basta-me declarar que Bioy renova literariamente um conceito que Santo Agostinho e Orígenes refutaram, que Louis Auguste Blanqui teorizou e que, com memorável música, Dante Gabriel Rossetti sintetizou."

Explicação: O autor menciona que, para evitar revelar detalhes prematuros ou parciais da obra de Bioy Casares, não vai discutir o enredo e as nuances da execução da narrativa. No entanto, ele destaca que Bioy Casares revitaliza um conceito literário que foi debatido e refutado por figuras históricas e filosóficas:

  • Santo Agostinho e Orígenes: Filósofos e teólogos cristãos que refutaram certos conceitos filosóficos ou religiosos.
  • Louis Auguste Blanqui: Filósofo e político francês conhecido por suas teorias sobre o tempo e a história.
  • Dante Gabriel Rossetti: Poeta e artista da época pré-rafaelita, que abordou conceitos semelhantes em sua obra.
A reflexão sobre a metempsicose e o eterno retorno nos leva a um exame mais profundo da representação desses conceitos na literatura. No contexto da obra em questão, não podemos entender a metempsicose apenas como a simples reencarnação ou o ciclo de eternos retornos, mas sim como uma representação mais complexa e multifacetada. O termo "eterno retorno" é utilizado de forma crua, refletindo a superficialidade da interpretação comum. No entanto, a essência da palavra, especialmente o componente "Empsi", sugere uma dimensão mais crítica e filosófica.

Em minha análise, o "Empsi" parece ser uma construção artificial, uma crítica sutil à novela psicológica que, em sua busca incessante por autenticidade, acaba enredada em um looping de artificialidade — ou seja, sempre retornando. Esta artificialidade, simbolizada pelo "Empsi", é tóxica e radioativa, possivelmente criticando o mercado editorial da época ou até mesmo o capitalismo em sua essência. Tal interpretação formula-se a partir da visão de Borges, embora seja  e um via de interpretação hipotética, que frequentemente aborda a tensão entre o real e o ilusório, entre o autêntico e o fabricado.

O prefácio de Borges, que deve ser considerado com atenção, reflete um anseio dos autores de aventura e da literatura latino-americana de transcender as limitações impostas pelas convenções literárias. Borges explora a ideia de que a novela psicológica, frequentemente presa em um ciclo de autoimitação e busca pela verdade, pode ser vista como uma tentativa de escapar da realidade e alcançar uma forma artificial.

Portanto, o livro nos provoca a questionar quem, de fato, escreve essas novelas psicológicas, e nos convida a refletir sobre o papel dos escritores na construção da narrativa e na percepção da realidade. A pergunta central que emerge é: quem está por trás da criação dessas histórias e quais são as verdadeiras intenções e limites da representação psicológica?
      • Meta-: Prefixo de origem grega que significa "além", "transcendente" ou "mudança". Ele indica algo que está além ou que se transforma.
      • Empsi-: Deriva do grego "empsykhos", que significa "encarnado" ou "possuir alma". É uma combinação do prefixo "en-" (dentro) e "psyche" (alma), referindo-se à ideia de que algo está dentro da alma ou está relacionado com a alma.
      • -cose: Sufixo derivado do grego "-sis", que é utilizado para formar substantivos e indica um processo ou ação.

O autor sugere que Bioy Casares traz uma nova perspectiva ou interpretação desses conceitos antigos de maneira inovadora e significativa.

I have been here before. 
But when or how 
I cannot tell: 
I know the grass beyond the door, 
The sweet keen smell, 
The sighing sound, 
the lights around the shore...

Já estive aqui antes.
Mas quando ou como
não posso dizer:
Conheço a grama além da porta,
O doce e intenso aroma,
O som de suspiro, as luzes ao redor da costa...

"Em espanhol, são pouco freqüentes, ou mesmo raríssimas, as obras de imaginação raciocinada."

Explicação: O autor está afirmando que, na literatura em espanhol, há poucas obras que se destacam pela imaginação que combina lógica e raciocínio, ou seja, que apresentam uma construção narrativa complexa e bem fundamentada. Essas obras são descritas como raras no contexto da literatura em espanhol.

"Os clássicos exerceram a alegoria, os exageros da sátira e algumas vezes a mera incoerência verbal;"

Explicação: Os clássicos da literatura em espanhol são conhecidos por usar a alegoria, que é a representação simbólica de ideias, e a sátira, que é uma forma de crítica social ou política exagerada. Além disso, esses textos às vezes apresentavam incoerência verbal, ou seja, falta de coesão e clareza na expressão.

"de datas recentes, recordo apenas um ou outro conto de Las fuerzas extrañas e algum de Santiago Dabove — injustamente esquecido."

Explicação: O autor menciona alguns contos de literatura em espanhol que são mais recentes. "Las fuerzas extrañas" é uma coletânea de contos de Leopoldo Lugones, e Santiago Dabove é um autor que também escreveu histórias notáveis. O autor sugere que Dabove é injustamente esquecido e que suas obras são um exemplo de imaginação raciocinada.

"La invención de Morel (cujo título alude filialmente a outro inventor ilhéu, Moreau) traz para as nossas terras e para o nosso idioma um gênero novo."

Explicação: "La invención de Morel" é uma obra do escritor argentino Adolfo Bioy Casares, e o autor observa que o título faz uma referência ao personagem Moreau de "O Ilha do Dr. Moreau" de H.G. Wells. A obra é apresentada como uma introdução de um gênero novo para a literatura em espanhol, trazendo uma inovação para a literatura da região.

"Discuti com o seu autor os pormenores da trama; reli-a. Não me parece imprecisão ou hipérbole classificá-la de perfeita."

Explicação: O autor do trecho afirma ter discutido detalhadamente a trama com o próprio Adolfo Bioy Casares e ter relido a obra "La invención de Morel". Ele considera que a obra é perfeita, afirmando que isso não é uma imprecisão ou exagero. A obra é elogiada por sua excelência e inovação.


DEPOIS DE LER O LIVRO, VOLTE AO PREFÁCIO, POR FAVOR.


Leitura: A Invenção de Morel - Adolfo Bioy Casares

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