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"Bellum omnium contra omnes – etiamsi omnes, ego non.". Este blogueiro é dirigido aos escritos iliterários. Aqui este autor expõe seus registros cognitivos e distorções cognitivas.
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A VALIDADE DE CERTOS MÉTODOS ESOTÉRICOS: o surrealismo da central controle náutiloide
O professor, de aparência demoníaca, com pele vermelha e chifres pontudos, atravessa a porta com passos firmes, suas narinas ligeiramente dilatadas, exalando uma respiração pesada e ritmada. Seu olhar, sério e incisivo, busca a figura à sua frente. No centro da sala, um Mico-Leão-Dourado está relaxado em uma cadeira, concentrado em fichas que retira de envelopes pardos. A expressão serena no rosto de Walter contrasta com o ambiente tenso.
Mau inclina levemente a cabeça, franzindo o cenho com uma mistura de impaciência e curiosidade antes de quebrar o silêncio, sua voz grave e questionadora.
— Walter, por que você se recusou a participar da experiência esotérica? — Ele fala lentamente, cada palavra pesando no ar. — Disseram que você saiu antes que pudéssemos explorar as lembranças de dor do El Niño.
Walter, ainda fixo nas fichas, não esboça reação imediata. Seu rosto mantém-se calmo, e ele responde com suavidade, sem pressa, sua voz ecoando uma tranquilidade que beira a indiferença.
— Veja bem, Mau — ele diz, pausando para organizar um envelope. — Aquilo foi uma intrusão. Mesmo que El Niño tivesse concordado, o procedimento ainda seria invasivo.
Mau respira fundo, visivelmente incomodado. Ele franze ainda mais o cenho, as sobrancelhas arqueadas em descrença. Seu maxilar se contrai antes de responder, sua voz carregada de irritação disfarçada.
— Não entendo — retruca, dando um passo à frente, as mãos agitadas à medida que fala. — Como poderia ser invasivo, se a mãe dele deu permissão e El Niño estava dormindo?
Walter fecha um dos envelopes com precisão e o coloca sobre a mesa com um leve suspiro. Ele finalmente ergue o olhar, seu semblante sereno, mas seus olhos exibem uma sombra de preocupação. Ele inspira lentamente, enchendo os pulmões antes de continuar com calma.
— Justamente por isso. Ele estava vulnerável, dormindo. Essa não é uma decisão que cabe apenas à mãe. Invadir os sonhos de alguém é tocar em algo extremamente íntimo.
Ele pausa, a respiração controlada, antes de continuar, sua voz agora ligeiramente mais grave, como se relembrasse algo perturbador.
— Eu vi El Niño se debatendo, sua ansiedade crescendo. As associações automáticas e as obsessões aumentaram drasticamente, alimentadas pelo medo. Ele sabia, de algum jeito, que estávamos entrando num espaço onde ele nunca se sentiu inseguro. Foi como um assédio psíquico. O que poderia nos aproximar da causa da dor, apenas o afastou ainda mais.
Mau balança a cabeça com impaciência, bufando enquanto se recosta contra a parede, cruzando os braços. Seus olhos flamejam com uma teimosia crescente. Ele respira rapidamente, visivelmente tentando controlar a frustração.
— Não vejo dessa forma. Terminamos a noite com sucesso — ele diz, sua voz mais cortante. — El Niño saiu mais enérgico, voltou a se comunicar normalmente...
Walter o observa agora com firmeza, seus olhos penetrantes e fixos em Mau. Ele inclina levemente a cabeça, a voz mais firme e clara.
— Eu reconheço os resultados, Mau, mas isso não muda o fato de que foi invasivo.
Mau descruza os braços, claramente impaciente, suas mãos agora gesticulando com rapidez enquanto ele pergunta, sem conseguir disfarçar a frustração.
— Então o que sugere?
Walter respira fundo, sua expressão voltando a uma calma pensativa. Ele gesticula suavemente com as mãos enquanto responde, cada palavra carregada de reflexão.
— Ao invés de invadir a mente dele, devíamos adotar um processo de escuta, um método que não interfira diretamente, que respeite o espaço psíquico de El Niño.
Mau aperta os lábios, desviando o olhar por um momento, antes de soltar um suspiro pesado. Ele parece estar lutando contra sua própria resistência interna. Finalmente, com um tom mais suave, ele retruca.
— Mas a mãe consentiu! Como pode ser invasivo se houve permissão?
Walter inclina levemente a cabeça, seus olhos agora demonstrando uma paciência quase paternal.
— Esse é o ponto, Mau. A questão aqui é uma disputa entre ética e moral. O consentimento da mãe não justifica atravessar limites tão profundos. Não concordo com isso.
Mau respira profundamente, sua testa franzida, refletindo. Ele hesita por alguns segundos, sua respiração se acalmando, antes de soltar um último suspiro de resignação.
— Certo... Na próxima vez, serei mais cauteloso — diz ele, quase para si mesmo. — Não posso causar mais dor com práticas baseadas apenas em teorias antropológicas.
Walter acena levemente com a cabeça, recolhendo suas fichas com um movimento tranquilo. Seus olhos fixam-se uma última vez em Mau, seu tom agora mais suave, mas definitivo.
— Boa sorte, Mau. Que o próximo passo seja mais consciente.
Mau permanece em silêncio, sua respiração finalmente estabilizada, enquanto observa Walter sair da sala.
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