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"Bellum omnium contra omnes – etiamsi omnes, ego non.". Este blogueiro é dirigido aos escritos iliterários. Aqui este autor expõe seus registros cognitivos e distorções cognitivas.
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UM PENSAMENTO A PARTIR DE LUTERO
"Temo que as universidades se tornem grandes portões do inferno, a menos que se esforcem para explicar as Sagradas Escrituras e inculcá-las profundamente no coração dos jovens. Não aconselho ninguém a colocar seu filho onde as Escrituras não reinam supremas. [...] Qualquer instituição que não se dedica assiduamente à Palavra de Deus inevitavelmente se corrompe."
Essa citação expressa a preocupação de Lutero com a influência das instituições educacionais sobre a fé dos jovens e a importância vital da Palavra de Deus na formação moral e espiritual. No entanto, essa conduta é mais antiga e presente do que nunca. Hoje, as "Sagradas Escrituras" das respectivas áreas do conhecimento podem ser entendidas como o cânone de cada disciplina.
Por exemplo, quando um professor de filosofia passa um capítulo de Aristóteles sem fornecer um material introdutório que ajude os alunos a entender o contexto e significado dos textos, a filologia se perde. A interpretação de textos antigos, e até mesmo as apostilas que familiarizam o sujeito com a obra, são cada vez mais raras. Os livros didáticos, em sua maioria, são insuficientes, e há uma falta de cursos que incentivem o estudo profundo e a reflexão sobre cada parágrafo de uma obra, permitindo a formulação de hipóteses em grupo.
Quando a palavra dos antigos não é abordada de forma contínua e constante, o significado se perde, e a familiarização com a linguagem e estilo do autor é enfraquecida. Para que essas obras sejam realmente inculcadas no coração, é necessário que existam textos que levem o leitor a uma introdução autônoma. Por exemplo, você não navega sem um mapa; você utiliza uma bússola, pois lhe ensinaram como usá-la. Da mesma forma, ao ler as estrelas, você só pode fazê-lo corretamente porque aprendeu como interpretá-las.
O mesmo princípio se aplica às obras literárias. O leitor deve ser ensinado a interpretá-las, a se introduzir nelas, a entrar no fluxo de suas ideias. Pois, muitas vezes, o processo de autoaprendizagem (heutagogia) pode levar a territórios distantes e diferentes das intenções originais do autor, o que pode ser benéfico para o crescimento pessoal, mas também pode resultar em interpretações equivocadas que desviam o entendimento correto da obra e, em casos extremos, podem levar ao erro ou à incompreensão total.
Não sei, nem quero saber o que está para acontecer. [...] Nenhuma folha cai sem a vontade de nosso Pai. Quanto mais Ele cuida de nós! Pequena coisa é morrer pela Palavra, uma vez que o próprio Verbo que Se fez carne morreu.
Quando o verbo se faz carne, a palavra torna-se vulnerável à finitude, exposta às fragilidades da existência material. O que antes era eterno e imaterial, ao encarnar-se, submete-se às contingências do tempo e à inevitabilidade da morte. Assim, o verbo, ao vestir-se de carne, assume o destino inexorável de toda vida que um dia cessa, revelando a transitoriedade intrínseca ao ato de tornar-se tangível.
"Quanta dor me causou, muito embora tivesse as Escrituras a meu lado, justificar para mim mesmo a ousadia de me posicionar sozinho contra o papa e identificá-lo como anticristo! Quantas vezes não fiz a mim mesmo perguntas tão frequentes nos lábios dos defensores do papa: 'Só você tem sabedoria? Todos os outros estariam errados? Como será, então, se for você quem estiver errado?' Foi assim que lutei comigo mesmo e contra Satanás, até que Cristo, com Sua voz infalível, fortaleceu meu coração contra essas dúvidas".
A reflexão de Lutero nos instiga a pensar sobre a condição contemporânea de uma minoria que, ao explorar os cânones da filosofia, hesita em desafiar as interpretações estabelecidas. Hoje, assim como no passado, muitos enfrentam o paradoxo de uma interpretação que, ao mesmo tempo que se apoia nos cânones, encontra resistência daqueles que monopolizam a verdade e o acesso às interpretações. O fácil acesso às tradições religiosas é muitas vezes promovido como uma forma de conformidade, apresentando-se como a única via para explicar a vida. Em um mundo onde a maioria apenas arranha a superfície dos textos sagrados e canônicos, restrita a um estudo superficial da Bíblia e de outros livros religiosos, poucos possuem os recursos necessários para questionar as estruturas eclesiásticas e os próprios cânones, que mal compreendem. A luta interna de Lutero reflete a de qualquer indivíduo que busca a verdade em meio a um mar de conformismo.
Nas comunidades dos excepcionais, há uma verdade latente, uma sabedoria que transcende as convenções e se aproxima do que é realmente divino. No entanto, assim como os oponentes de Lutero no passado, a maioria das pessoas hoje é incentivada a não buscar essa verdade. Os excepcionais não desejam distribuí-la, talvez por medo, talvez por apego ao status quo. Aqueles que têm a coragem de apresentar a verdade para o mundo contemporâneo não devem esperar ser recebidos de maneira mais favorável que os primeiros reformadores. O grande conflito entre a verdade e o erro, entre Cristo e o Satã, continua a se intensificar, como um drama cósmico que permeia o tecido da história. Essa luta não é apenas espiritual, mas também filosófica, pois desafia as noções de poder, autoridade e conhecimento em uma era de incertezas e contradições. O fim da história deste mundo pode muito bem ser o início de uma nova compreensão do divino, onde o conflito entre luz e trevas finalmente revelará a essência da verdade, oculta nas sombras do dogmatismo.
A condenação de Lutero foi motivada não apenas pelo desejo de que as pessoas soubessem o que estava sendo falado no culto, mas também pela intenção de levar a uma maior compreensão das Escrituras.
Hoje, o acesso à filosofia é garantido, mas o processo de interpretação nem sempre é tão claro. Poucos sugerem que, inicialmente, se leia um texto mais simples sobre Política antes de buscar artigos científicos — que, embora muitos considerem complicados, são, na verdade, mais acessíveis do que as obras de Saussure. No prefácio de Curso Geral de Linguística, Saussure insinua que suas palavras são complexas para evitar distorções ou simplificações.
Isso se reflete em muitas edições dos cânones; quando os livros não são apresentados de forma acessível, com linguagem mais simples e passagens obscuras comentadas, acabam sendo baratos e não confiáveis, como alguns textos de editoras menores como Martin Claret. Apesar das boas traduções da L&PM, elas são muitas vezes desconsideradas por serem associadas ao proletariado. As editoras mais respeitáveis, como Autêntica e Companhia das Letras, bem como as universitárias como a UNESP, oferecem obras que são, muitas vezes, inacessíveis devido aos altos preços, forçando muitos a abrir mão de necessidades básicas para poder estudar, geralmente apenas com um dicionário ao lado, sem acesso a tutores, grupos de estudo ou ao agora obsoleto Yahoo Respostas.
Além disso, muitas obras são distribuídas ilegalmente, como Teorias Estéticas de Adorno, que recentemente consegui obter. Este livro foi utilizado pela reitora do curso de Letras para argumentar que eu não escrevia literatura, e acabei sendo expulso após chamar um professor de linguística de "burgão".
Posso interpretar mil obras e publicar minhas considerações aqui no Inutile-dilettante, mas para isso preciso de tecnologia. Infelizmente, não é possível viver apenas de pesquisa, embora eu gostaria muito de poder fazê-lo.
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