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Destaques

DIÁLOGO IV

Disse o velho gordo mal cabendo na sua cadeira de bar, bebendo um coquitel de bagas e fumando um cachimbo com fumo de chocolate, e tossindo, porque não tem o hábito de fumar tão pouco de beber: - Ser um pobre estudante é horrível. A tecnologia não parece compreendê-lo, e o que deveria ser algo que o tornasse mais fácil acaba por o reter. A falha em escrever bate-me constantemente na mão e torna difícil produzir um raciocínio porque me falta um aparelho de ar condicionado. Vamos lá...  Será que a obra ou o autor vale mais?  Disse eloquente e bêbado: - Podemos dizer que o personagem de ficção passa por um controlo considerável e provável que o escritor, no seu lugar de poder, exerce sobre isto e sobre o protagonista sua influência. Haverá uma saída para isto, minha querida? Forster, a minha má influência, dá uma forma para que isto seja resolvido pela ligação entre personagens planas e redondas, em que o autor não exerce o seu poder. Por isso, interpreto-o como sendo pouco rígid...

EU, SARAH

 I: GAROTINHA:


No âmago de uma revolta silenciosa contra o mundo, Ela, a autora, forjou os destinos da pequena garotinha negra, moradora dos becos portuários, em uma casa dos anos 1940 que, em 2008, já se desfazia em ruínas. Ali, entre paredes desbotadas e chão de madeira apodrecida, ela e sua família de proletários viam-se presos ao destino escrito pelas mãos invisíveis dos seres extraordinários, observados de longe pelos seres excepcionais. Estes, de tempos em tempos, desciam ao plano terreno disfarçados de mortais, como se suas consciências etéreas se encarnassem em corpos mundanos de sua escolha.


Por eras, os seres excepcionais, vindos de paragens imemoriais, traziam aos comuns fragmentos de suas consciências superiores. Redigiam textos que apenas os iluminados poderiam compreender, criptografando significados ocultos em palavras intricadas. Enquanto isso, os comuns, desprovidos de tal elevação, viviam à margem do entendimento. Lições superficiais, músicas vazias, um ócio sem essência – assim transcorriam seus dias, confinados à monotonia da programação imposta.


A garotinha, tão comum quanto qualquer outro, distinguia-se apenas pelo zelo meticuloso de sua autora. Esta, com mãos pacientes, esculpia na vida da menina tudo aquilo que, outrora, desejara para si mesma. E, embora o destino se desviasse de seus planos em momentos inesperados, Ela sempre estava presente, reescrevendo a história, corrigindo o curso.


Mas em todo ato de criação reside uma tensão entre amor e ódio. A menina, por vezes, via-se enredada no afeto e na aversão por aquelas consciências que, sem aviso, desciam do firmamento para habitarem corpos mortais ao seu redor. Um ciclo interminável de paixão e conflito, de adoração e repulsa. E, nas páginas dos livros que lia, notava um padrão recorrente: palavras difíceis, textos enigmáticos que apenas os excepcionais poderiam decifrar. Ali estava a marca da distinção – aqueles elevados pela consciência ampla e profunda, enquanto os comuns permaneciam na superfície, abençoados pela ignorância.


Agora adulta, a menina ajoelha-se perante sua deusa, Ela, que desce do além e ilumina seus caminhos, mas não afasta as pedras. Oferece-lhe tecnologia, conhecimento, oportunidades. Em um mundo cruel, onde meninas negras são excluídas, Ela garante que sua criação floresça, que nunca lhe faltem os recursos básicos. Moldou-a com esmero, desde a mente até o corpo, como uma escultura de platina que reflete o brilho da perfeição almejada.


Em sua oração, a menina sussurra: "Eu te amo, obrigada por escrever minha vida, por me dar sentimentos, por me fazer feliz." Mas a dúvida persiste: por que, em meio a tanta perfeição, Ela a deixou ignorante em tantos aspectos? Por que não lhe concedeu o domínio das palavras, o conhecimento vasto? A resposta, talvez, resida na própria natureza da palavra verdadeira – inefável, silenciosa, além da compreensão dos comuns.


Mesmo amando sua deusa, a menina esperava anos a fio para que Ela descesse dos céus, para que animasse um corpo mortal com sua presença divina. E enquanto isso, as falhas da educação permaneciam como cicatrizes profundas na história. Ainda que abrissem as portas para os excluídos, o abismo jamais seria fechado. No entanto, com sua sabedoria insondável, Ela concedeu à garotinha comum uma chance de estudar. Não importava a qualidade da instituição; o que importava era que, mesmo sendo apenas mais uma alma comum, sem brilho, sem excepcionalidade, a menina poderia, ao menos, caminhar entre os livros e, talvez, encontrar ali a centelha que um dia a elevaria.

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