Pular para o conteúdo principal

Destaques

DIÁLOGO IV

Disse o velho gordo mal cabendo na sua cadeira de bar, bebendo um coquitel de bagas e fumando um cachimbo com fumo de chocolate, e tossindo, porque não tem o hábito de fumar tão pouco de beber: - Ser um pobre estudante é horrível. A tecnologia não parece compreendê-lo, e o que deveria ser algo que o tornasse mais fácil acaba por o reter. A falha em escrever bate-me constantemente na mão e torna difícil produzir um raciocínio porque me falta um aparelho de ar condicionado. Vamos lá...  Será que a obra ou o autor vale mais?  Disse eloquente e bêbado: - Podemos dizer que o personagem de ficção passa por um controlo considerável e provável que o escritor, no seu lugar de poder, exerce sobre isto e sobre o protagonista sua influência. Haverá uma saída para isto, minha querida? Forster, a minha má influência, dá uma forma para que isto seja resolvido pela ligação entre personagens planas e redondas, em que o autor não exerce o seu poder. Por isso, interpreto-o como sendo pouco rígid...

E SE?

Lendo o texto de Marisa Bittar e Amarílio Ferreira Jr., fica evidente que o enorme buraco deixado na história brasileira a partir da colonização europeia criou um rombo incalculável na educação. Esse déficit não é algo que surgiu recentemente, mas remonta ao século XIX, ou até mesmo antes, sendo apenas acelerado e exacerbado ao longo dos anos. A realidade é que, mesmo se fossem reservadas 50% das vagas para pessoas negras e deficientes nas universidades, isso ainda não compensaria o dano histórico. Reservar poucas vagas para negros e deficientes perpetua o abismo educacional. Nem a construção de mais escolas, a distribuição de livros didáticos, o acesso gratuito à internet ou a distribuição de computadores serão suficientes para reparar o rombo na educação.


Permitir que escolas particulares participem do Enem ou manter processos seletivos com poucas vagas para negros e deficientes apenas preserva essa desigualdade. A sociedade brasileira, em sua essência, não mudou desde o século XV; ela apenas se modernizou superficialmente. As cidades podem ter se sofisticado, mas no sentido sofista, sem verdadeira transformação. Os intelectuais ainda falam de forma exclusiva para outros intelectuais, os livros são caros, a tecnologia é inacessível para muitos, e a educação continua profundamente defasada.


Nada parece mudar, e a perspectiva para o futuro é sombria. Daqui a 100 anos, é provável que a situação continue a mesma, ou até pior. A responsabilidade por isso recai sobre aqueles que detêm privilégios: os brancos que podem comprar tecnologia, livros, e que fazem lives falando de forma inacessível. Se não houvesse essa desigualdade estrutural, nada de ruim contra negros e deficientes existiria. Se o homem branco com nome europeu não tivesse nascido nada disso existiria. Nada. 

Comentários