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Destaques

DIÁLOGO IV

Disse o velho gordo mal cabendo na sua cadeira de bar, bebendo um coquitel de bagas e fumando um cachimbo com fumo de chocolate, e tossindo, porque não tem o hábito de fumar tão pouco de beber: - Ser um pobre estudante é horrível. A tecnologia não parece compreendê-lo, e o que deveria ser algo que o tornasse mais fácil acaba por o reter. A falha em escrever bate-me constantemente na mão e torna difícil produzir um raciocínio porque me falta um aparelho de ar condicionado. Vamos lá...  Será que a obra ou o autor vale mais?  Disse eloquente e bêbado: - Podemos dizer que o personagem de ficção passa por um controlo considerável e provável que o escritor, no seu lugar de poder, exerce sobre isto e sobre o protagonista sua influência. Haverá uma saída para isto, minha querida? Forster, a minha má influência, dá uma forma para que isto seja resolvido pela ligação entre personagens planas e redondas, em que o autor não exerce o seu poder. Por isso, interpreto-o como sendo pouco rígid...

DIÁRIO DO OBSERVADOR VI

 É interessante observar o sentimento de que feministas e pessoas letradas em questões de machismo poderiam causar-lhe dano. Seja através de mulheres negras, que despertam um sentimento de conflito com sua bagagem cultural e comportamento psicologicamente e linguisticamente agressivo, seja por meio de mulheres brancas, cuja bagagem cultural é mais amena, mas cujo comportamento é igualmente violento. É interessante também o papel do homem como apoiador dessa prática de aparente ódio, intolerância e satirização. Enquanto o homem que é alvo desse conflito age em segundo plano, a mulher, gerando desconforto interno e tristeza, age em primeiro plano. 


Para o homem, são gerados sentimentos de atenção, observados de perto, encarando e sendo observados com mais flexibilidade, sem despertar sentimentos ruins ou de desconforto, como se a atitude do homem fosse admissível e a da mulher, frustrante. A voz do homem surge como a de um jovem, enquanto a mulher, embora também jovem, é mais madura e intolerante, utilizando ferramentas psicológicas como indiretas por meio da violência linguística. Caso o sujeito não tivesse culpa, não sentiria incômodo algum com o que ouvia. Portanto, o próprio sujeito, que não superou algumas questões internas conflitantes e falta de orgulho, dá poder a essas pessoas. Se ele dissesse: "Fiz isso mesmo, não gostei, não faço mais", será que essas pessoas teriam efeito?


Ele pensou em testar a técnica da Terapia Narrativa, onde a pessoa reconta sua história e enfatiza os pontos de aprendizado. Interessante é que ele vê a mesma conduta que praticou em outros internautas. Havia uma foto de atletas mulheres, e alguns homens comentavam "vou com mais detalhes no banheiro". Embora seu comentário fosse mais direto e sem duplo sentido, foi anônimo, enquanto os comentários de outros homens em ocasiões futuras eram feitos pelos próprios perfis. Ele particularmente não se sente bem dizendo essas coisas, mas observa uma maior normalidade nas pessoas ao fazer associações semelhantes.


O mesmo paciente escuta vozes das pessoas alvo de seus comentários no passado. Pelo que tenho observado, quanto mais ele acompanha essas pessoas nas redes sociais, mais se desassocia delas. É como se o poder de suas identidades e referências estivesse se transformando em outra coisa. Ele percebe que o sujeito um não parece mais falar dele em suas publicações, o sujeito dois se casou e teve um filho, o sujeito três foi bloqueado, e o sujeito quatro parece estar se apaixonando e tendo relações afetivas com outras pessoas. Isso o leva a pensar que talvez nunca se tratou apenas dele, mas que, de alguma forma, aquelas queixas pessoais sobre a situação política e econômica do país falavam com ele porque algo internamente pedia por mudança.


Saímos da psicologia e entramos na sociologia, que diz que essa mudança é uma reintrodução de um novo modelo de conduta e pensamento para uma sociedade onde o homem é desalojado do centro e dá lugar à mulher. As referências vão perdendo sentido e, com isso, a crença não compartilhada também perde sentido e existência. Quando a crença não compartilhada está associada à instabilidade emocional, não se trata de psicose. Isso me leva a pensar que existem diversas razões que não se limitam à psicose que levam alguém a desenvolver uma crença não compartilhada. Bloquear alguns perfis lhe fez bem, pois a referência dessas identidades se perdeu, e ele foi se esquecendo delas, o que me faz presumir que essas referências irão voltar mais tarde de outra forma e mais presentes. O problema de esquecer é que agora elas podem ser qualquer um.


Isso pode levar à integração das questões não resolvidas de identidade ou ao reconhecimento marginal das questões centrais da consciência, para então serem projetadas. Por outro lado, aqueles que não foram bloqueados passaram por uma mudança juntamente com ele. Pelas próprias palavras dele, "eles transcenderam", desenvolveram relações afetivas e dedicaram seus registros cognitivos a seus amores. Assim, deixa de haver sentido em sustentar essa crença não compartilhada, porque ela não fala mais com ele ou sobre ele. Agora, o vilão é a ansiedade ocasionada pela fluoxetina, mostrando que seu maior desafio não está mais fora, mas sim dentro e com ele próprio.

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