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"Bellum omnium contra omnes – etiamsi omnes, ego non.". Este blogueiro é dirigido aos escritos iliterários. Aqui este autor expõe seus registros cognitivos e distorções cognitivas.
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DIÁRIO DO OBSERVADOR V
Por muitos anos, ele tomou lítio. Em todas as ocasiões, teve dificuldade em engolir, sentindo um gosto amargo na boca, como se seu próprio corpo recusasse o medicamento. Só conseguia engolir com muita água. Os dias em que tomava esse remédio eram incontáveis. Apenas em uma ocasião não foi difícil engolir: quando recebeu o medicamento do laboratório Biolab, que parecia vir em uma capa e não se desmanchava amargamente na boca, ao contrário dos medicamentos cedidos pelo governo. No início do tratamento, não havia esse remédio na farmácia do sistema público; só havia carbamazepina, que era como um placebo para seu organismo. Ele acabou se viciando, tomando quatro a cinco comprimidos por dia quando se sentia muito mal e melancólico. Uma vez, na faculdade, após a reprovação de um professor de administração, tomou uma superdosagem e ficou imóvel na cama, sem conseguir virar o pescoço ou falar, embora sua cognição estivesse intacta. Conseguia falar apenas verbos como "professor... reprovar... projeto", e mesmo assim, com dificuldade, pois sua língua parecia dobrar e seu corpo não respondia aos comandos, embora a atividade cognitiva estivesse em perfeita condição, embora também transtornada.
Sua mãe o socorreu naquela noite. Talvez a superdosagem tenha deixado distúrbios, como se mente e corpo estivessem desencaixados. Esperou a ambulância, foi levado ao hospital, onde recebeu a simpatia dos enfermeiros e tomou mais de um saco enorme de soro. Mas as sequelas permaneceram, como um desencaixe, como se corpo e alma estivessem fracionados. Neste momento, deveria ter suspendido o remédio, mas isso não foi feito. Tempos mais tarde, tentou novamente uma superdosagem e experimentou os mesmos sintomas: corpo pesado que não respondia aos comandos, nem mesmo na fala, e o aumento das sequelas. O melhor seria suspender a medicação e procurar por técnicas terapêuticas alternativas, mas vivemos em um mundo desigual, e os serviços alternativos são pagos. O sistema público, sem a capacidade de ofertar outras opções terapêuticas, mudou o remédio para o lítio.
O que o lítio fez? Aumentou a intensidade das sequelas, desenvolvendo uma ligação de transtornos múltiplos, transformando-se em um espectro, várias coisas em uma. As sequelas deixadas pela carbamazepina tornaram-se uma doença inconcebível, tanto cognitiva quanto comportamental, porque alma e corpo não estavam mais sintonizados, como se houvesse uma robotização; algo no sistema não funcionava bem, como se o software fosse um e o hardware fosse outro. A mínima dosagem de lítio no início poderia ter ajudado, mas depois a dosagem foi ficando saturada no sangue, desenvolvendo uma hipersensibilidade sonora. A negligência do psiquiatra, ao aumentar a dosagem para três, levou à intoxicação, aumentando o quadro de instabilidade emocional e, por consequência, ansioso-depressivo. Ele se tornou incapaz de lidar com suas próprias emoções, aumentando os conflitos internos e possivelmente causando uma cisão do ego.
O que se deve fazer agora? Suspender o lítio. O próprio corpo acusa. Tratar a ansiedade generalizada por meio de terapias alternativas e observar. Ou, como foi feito, diluir o efeito do lítio através da terapia hídrica, compulsão gerenciada, acompanhada de beber muita água, além de fazer atividade física. Essas terapias alternativas melhoram o funcionamento do medicamento e impedem a saturação no corpo.
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