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Destaques

DIÁLOGO IV

Disse o velho gordo mal cabendo na sua cadeira de bar, bebendo um coquitel de bagas e fumando um cachimbo com fumo de chocolate, e tossindo, porque não tem o hábito de fumar tão pouco de beber: - Ser um pobre estudante é horrível. A tecnologia não parece compreendê-lo, e o que deveria ser algo que o tornasse mais fácil acaba por o reter. A falha em escrever bate-me constantemente na mão e torna difícil produzir um raciocínio porque me falta um aparelho de ar condicionado. Vamos lá...  Será que a obra ou o autor vale mais?  Disse eloquente e bêbado: - Podemos dizer que o personagem de ficção passa por um controlo considerável e provável que o escritor, no seu lugar de poder, exerce sobre isto e sobre o protagonista sua influência. Haverá uma saída para isto, minha querida? Forster, a minha má influência, dá uma forma para que isto seja resolvido pela ligação entre personagens planas e redondas, em que o autor não exerce o seu poder. Por isso, interpreto-o como sendo pouco rígid...

COMO POESIA: o hilário diário de um neurótico? VI

Quando laborava no ermo púbico de um nosocômio como íncola estagiário, deparei-me com um varão de cinqüenta estios, de nome Rui, cuja sombra viria a refletir-se em meu ser. Certo dia, ele, Rui, impregnou-se em meu âmago. No recôndito de meu aposento, contemplava uma série sobre ufologia e deitava os dedos nas redes sociais, quando me deparei com uma missiva de uma entidade que assiduamente povoa meus pensamentos. Antes que pudesse degustar as letras, senti um ímpeto insopitável de expelir flatulências. E assim o fiz enquanto meus olhos devoravam as palavras, notando que minha ceroula fora conspurcada. Interrompi a leitura, dirigi-me ao lavatório para trocar e lavar a peça, e finalizar o inescapável. Retornei ao labor enquanto perscrutava a mensagem. Ao verificar as apreciações, algo atraiu minha atenção. Remontei a publicações pretéritas e percebi o mesmo fenômeno. Concluí que a declaração na página de certo escriba não me era dirigida. Sentia-me singular, mas fui acometido de desilusão ao descobrir a verdadeira destinatária das declarações. Talvez eu tenha intervindo nesse evento, o que julguei digno, pois não passei despercebido.


No entanto, no instante em que tudo se desenrolava, fui acometido pela consciência de que havia, de fato, aberto a porteira do capeta para aquilo, não por deliberação, mas literalmente abrir as estribeiras, à semelhança de Rui no nosocômio, que se mostrava indiferente aos eventos, mas eu, em sentido literal, soltei o barro.


Orgulho-me de ter soltado o fuzil para isso. Sinto-me sublime por tal feito. É como se eu tivesse apropriado aqueles sentimentos, consumido-os e, em ato fágico excretado. E essa sensação de completude, como se o ato de abrir o covil do inferno me houvesse dito que tudo estava findo, que já havia esgotado-se o que havia de ser, literalmente um foda-se. Foi uma experiência magnífica. A melhor coisa que fiz, tirar a carga. 

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