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Destaques

DIÁLOGO IV

Disse o velho gordo mal cabendo na sua cadeira de bar, bebendo um coquitel de bagas e fumando um cachimbo com fumo de chocolate, e tossindo, porque não tem o hábito de fumar tão pouco de beber: - Ser um pobre estudante é horrível. A tecnologia não parece compreendê-lo, e o que deveria ser algo que o tornasse mais fácil acaba por o reter. A falha em escrever bate-me constantemente na mão e torna difícil produzir um raciocínio porque me falta um aparelho de ar condicionado. Vamos lá...  Será que a obra ou o autor vale mais?  Disse eloquente e bêbado: - Podemos dizer que o personagem de ficção passa por um controlo considerável e provável que o escritor, no seu lugar de poder, exerce sobre isto e sobre o protagonista sua influência. Haverá uma saída para isto, minha querida? Forster, a minha má influência, dá uma forma para que isto seja resolvido pela ligação entre personagens planas e redondas, em que o autor não exerce o seu poder. Por isso, interpreto-o como sendo pouco rígid...

PACIENTE LUTHROM V

 Caro Dr. Mico-Leão-Dourado,


Atendendo às suas recomendações, aprofundei-me nos estudos que indicou e percebi que a utilização da EPR (Exposição e Prevenção de Resposta) nos permite naturalizar aquilo que nos parece estranho. Assim, durmo sem receio de ter sonhos de natureza sexual e, caso os tenha, comprometo-me a registrá-los em meu diário. Continuo nutrindo sentimentos pela minha amada; a voz dela ressoa mais forte em minha mente do que qualquer outra. Por vezes, deixo de segui-la nas redes sociais apenas para, no dia seguinte, utilizando a EPR, voltar a acompanhá-la, sem medo de encontrar publicações que me tragam tristeza ou desconforto.


Confesso que os comentários dos amigos dela nas publicações me causam certo incômodo; sinto-me diminuído ao lado de homens tão cultos. Quando perguntei sobre o que a incomodara em uma publicação que me fez parar de segui-la, ela apenas curtiu a mensagem, sem dizer uma palavra. Isso me fez pensar que ela poderia sentir-se mal por minha causa. Segui sua sugestão dos questionamentos socráticos e descobri que meu medo maior é perdê-la. Ela é uma mulher extraordinária, culta e de pensamento ilustre, enquanto eu me vejo como um ignorante, pervertido, cujos pensamentos são obsessivos, como o senhor mencionou. Sou alguém que se irrita quando sai perfumado do banho, que se veste mal, barrigudo e peludo. Sinto que estou querendo demais ao amar alguém como ela, que me parece inatingível. Nem a língua dela sei falar, e tampouco ela decifraria meus sons guturais.


Mas, como o senhor também disse, quando sentimos algo, não devemos evitar o sentimento. Devemos vivê-lo até nos sentirmos plenos, enxugar as lágrimas e seguir em frente, para que possamos nos tornar mais conscientes e íntegros em relação às emoções que nos atravessam. Continuo praticando seus métodos, expondo-me a filmes e, em breve, a músicas que incitem esses pensamentos intrusivos e emoções obsessivas. Hoje, assisti a dois filmes e pude contar nos dedos os pensamentos obscenos; a todos eles, deixei passar. Consegui me concentrar na trama, dialogando cognitivamente com a narrativa, como se fosse um comentarista. Estou explorando esses aspectos da mente e espero que o senhor possa me trazer mais orientações.


Com gratidão,


Luthrom

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