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Destaques

DIÁLOGO IV

Disse o velho gordo mal cabendo na sua cadeira de bar, bebendo um coquitel de bagas e fumando um cachimbo com fumo de chocolate, e tossindo, porque não tem o hábito de fumar tão pouco de beber: - Ser um pobre estudante é horrível. A tecnologia não parece compreendê-lo, e o que deveria ser algo que o tornasse mais fácil acaba por o reter. A falha em escrever bate-me constantemente na mão e torna difícil produzir um raciocínio porque me falta um aparelho de ar condicionado. Vamos lá...  Será que a obra ou o autor vale mais?  Disse eloquente e bêbado: - Podemos dizer que o personagem de ficção passa por um controlo considerável e provável que o escritor, no seu lugar de poder, exerce sobre isto e sobre o protagonista sua influência. Haverá uma saída para isto, minha querida? Forster, a minha má influência, dá uma forma para que isto seja resolvido pela ligação entre personagens planas e redondas, em que o autor não exerce o seu poder. Por isso, interpreto-o como sendo pouco rígid...

PARDO, SEM LUGAR, SEM PARTIDO, SEM CLASSE, SEM GRUPO: SEGREGADO, EXCLUÍDO, JULGADO

Nunca tivera quem o olhasse com ternura, quem lhe segurasse a mão e dissesse que errar era parte da jornada, que o erro podia ser discutido sem julgamento. Nunca ouvira alguém perguntar-lhe "como posso te ajudar?". Todos os psicólogos que cruzaram seu caminho foram rudes, escarnecendo de suas palavras, sem jamais o levar a sério. Sempre fora invisível. Mesmo esforçando-se na faculdade, nenhum professor jamais lhe dissera "parabéns pelo esforço". Nunca recebera congratulações. Jamais ouviram um "obrigado" pelos trabalhos em grupo que realizava sozinho. Nunca fora tratado com gentileza. Sempre fora invisível. Imperceptível. Insignificante. Desprezado, negligenciado, caluniado, alvo de maledicências, motivo de escárnio, objeto de julgamento e exclusão até a sua morte. Morreu indigente, nas cinzas das queimadas de corpos largados sem lápide. E disseram ainda, quem se lembrava, "Bem feito, achei ótimo, ainda foi pouco".

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