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Destaques

DIÁLOGO IV

Disse o velho gordo mal cabendo na sua cadeira de bar, bebendo um coquitel de bagas e fumando um cachimbo com fumo de chocolate, e tossindo, porque não tem o hábito de fumar tão pouco de beber: - Ser um pobre estudante é horrível. A tecnologia não parece compreendê-lo, e o que deveria ser algo que o tornasse mais fácil acaba por o reter. A falha em escrever bate-me constantemente na mão e torna difícil produzir um raciocínio porque me falta um aparelho de ar condicionado. Vamos lá...  Será que a obra ou o autor vale mais?  Disse eloquente e bêbado: - Podemos dizer que o personagem de ficção passa por um controlo considerável e provável que o escritor, no seu lugar de poder, exerce sobre isto e sobre o protagonista sua influência. Haverá uma saída para isto, minha querida? Forster, a minha má influência, dá uma forma para que isto seja resolvido pela ligação entre personagens planas e redondas, em que o autor não exerce o seu poder. Por isso, interpreto-o como sendo pouco rígid...

DESCRIÇÃO DO CASCO: ninguém liga

 Nossos sentimentos precisam de um theatricum, um palco, principalmente a angústia de viver em uma sociedade judaico-cristã tão desigual. Quando ele não consegue sair do lugar, não consegue até agora um emprego, não consegue estudar adequadamente, parece um pesadelo, e esses psicólogos vêm até seu perfil para pensarem em fazer publicações que contam sempre a mesma história: que ele é uma pessoa quadrada e sem possibilidade de mudança, um selvagem primitivo pior que o medieval, fora do procedimento civilizatório, portanto, não civilizado, inadequado para o convívio social e invisível para a sociedade. 


Não importa quantos diplomas ele tenha, será sempre um analfabeto que não consegue emprego em nenhum lugar porque sua identidade foi manchada. Seus estudos não são aceitos nas revistas de maior impacto, apenas nas de zero impacto. As faculdades não fazem questão de auxiliar em suas dificuldades, elas praticamente lhe dão corda para ele acabar sendo expulso por qualquer razão. Ninguém quer ser seu amigo, porque ele é visto como perverso. Sua reputação está manchada, sua identidade foi cortada aos pedaços, estigmatizado e descrito como um monstro, jogado para as margens do imperceptível, com uma linguagem que ninguém consegue entender, com comportamentos que causam vergonha às pessoas ao redor, com uma mente tachada de circuncidada. 


Tudo o que lhe resta é a angústia, a expressão da raiva e o desejo de matar e torturar pessoas desprezíveis, torcer por uma guerra nuclear e mundial. Sem partidos que façam políticas públicas para introduzi-lo na sociedade, sem políticos que o enxerguem. Sem raça, sem etnia, pois é desumanizado, excluído do movimento negro. Sem gênero, porque não se identifica com nenhum e não pode ser nenhum. Sem sexo, castrado quimicamente. Sem amor, não pode ser amado, somente desprezado e odiado. Sem religião, não admitido em nenhum círculo religioso ou filosófico. Sem apoio, ninguém pode falar com ele. Sem acesso a tratamentos biopsicossociais. Excluído da sociedade por uma mulher branca, loira, de olhos claros, com nome cristão.

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