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Destaques

DIÁLOGO IV

Disse o velho gordo mal cabendo na sua cadeira de bar, bebendo um coquitel de bagas e fumando um cachimbo com fumo de chocolate, e tossindo, porque não tem o hábito de fumar tão pouco de beber: - Ser um pobre estudante é horrível. A tecnologia não parece compreendê-lo, e o que deveria ser algo que o tornasse mais fácil acaba por o reter. A falha em escrever bate-me constantemente na mão e torna difícil produzir um raciocínio porque me falta um aparelho de ar condicionado. Vamos lá...  Será que a obra ou o autor vale mais?  Disse eloquente e bêbado: - Podemos dizer que o personagem de ficção passa por um controlo considerável e provável que o escritor, no seu lugar de poder, exerce sobre isto e sobre o protagonista sua influência. Haverá uma saída para isto, minha querida? Forster, a minha má influência, dá uma forma para que isto seja resolvido pela ligação entre personagens planas e redondas, em que o autor não exerce o seu poder. Por isso, interpreto-o como sendo pouco rígid...

THEATRICUM PSYCHICUS CONDICIONA O CORPUS MORALIS E LABORANS

 O que leva Nero a sucumbir ao plastticismo-apático e o que faz Hamlet resistir? No estudo sobre a comunidade gímnica, o corpus theatricum emerge como uma forma de resistência, mas sua aplicação é mais abrangente. Durante a Revolução Industrial, o theatricum, pensado inicialmente para o trabalho, tornou-se vital para a resistência, pois a essência do período era justamente essa: a resistência. Nesse contexto histórico, o corpo do trabalho, constituído por uma massa crescente de trabalhadores, tornou-se um símbolo de resistência.


No entanto, o corpo do trabalho sempre existiu; em épocas passadas, era mais sutil. Da mesma forma, o theatricum sempre esteve presente, ganhando força e visibilidade apenas no século XIX. Quanto ao espelho de Nero, não ouso especular quem o tenha conduzido ao plastticismo-apático. Em Hamlet, a literatura nos permite identificar quem compõe seu espelho interno, ou seja, quem está refletido nesse espelho e para onde ele direciona sua luz.


Não estou sugerindo que a resistência do trabalhador do século XIX seja uma encenação teatral. O termo theatricum não se refere a uma peça dramática, mas ao espaço onde o drama ocorre. Não se trata de uma conotação pejorativa ou de menosprezo; estamos sugerindo um espaço mental onde se constrói um posicionamento comportamental, cognitivo e laboral. Inicialmente, pensava-se apenas no contexto laboral. Isso não significa que a postura do operário seja dramática ou cênica, mas que ele concebeu e ilustrou mentalmente esse posicionamento.


O theatricum é o lugar onde se ensaia o posicionamento moral, psíquico e laboral. Com a leitura de outros textos, especialmente espiritualistas e budistas, o conceito se ampliou para incluir a moralidade e o psiquismo. Embora tenha surgido com força na Revolução Industrial como um espaço de resistência e posicionamento laboral, sua essência vai além, abrangendo a totalidade do ser.


Nos textos budistas, fala-se de pensamentos voltados para a materialidade, a espiritualidade e a ilusão. Isso também se aplica à moralidade e conduta. A realidade é eterna e indestrutível; a ilusão, por outro lado, logo se dissipa. Em uma convenção de jovens, uma estudante budista imaginou um cenário em que os coordenadores do templo a convidavam para ir ao Japão. Nesse cenário, a estudante respondia: "Como vou ao Japão se não sei falar japonês?" Todo esse pensamento configura o theatricum. A visão dos coordenadores é sua imagem mental, e sua resposta é uma expressão da cognição por palavras mentais.


Por enquanto, não vamos distinguir entre o que é falso e o que não é dentro do theatricum. Ao dizer que não iria ao Japão porque não sabe falar japonês, a estudante expressa um posicionamento moral, que é mais psíquico do que físico; portanto, é uma manifestação de seu corpo psychicus. O enredo desse cenário constitui seu posicionamento laborans, pois é a forma como ela trabalha os objetos que compõem o corpo psíquico.


Na Revolução Industrial, a maneira como os proletários trabalharam a informação voltada para a revolução transformou o corpo psíquico em corpo laboral. O theatricum, nesse contexto, não se refere a uma dramatização cênica, mas a um espaço mental onde se ensaia e se constrói o comportamento moral, psíquico e laboral. O pensamento é o principal objeto desse conceito, seja ele em imagens ou palavras mentais, ajudando a entender como os indivíduos moldam suas ações e identidades.

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