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Destaques

DIÁLOGO IV

Disse o velho gordo mal cabendo na sua cadeira de bar, bebendo um coquitel de bagas e fumando um cachimbo com fumo de chocolate, e tossindo, porque não tem o hábito de fumar tão pouco de beber: - Ser um pobre estudante é horrível. A tecnologia não parece compreendê-lo, e o que deveria ser algo que o tornasse mais fácil acaba por o reter. A falha em escrever bate-me constantemente na mão e torna difícil produzir um raciocínio porque me falta um aparelho de ar condicionado. Vamos lá...  Será que a obra ou o autor vale mais?  Disse eloquente e bêbado: - Podemos dizer que o personagem de ficção passa por um controlo considerável e provável que o escritor, no seu lugar de poder, exerce sobre isto e sobre o protagonista sua influência. Haverá uma saída para isto, minha querida? Forster, a minha má influência, dá uma forma para que isto seja resolvido pela ligação entre personagens planas e redondas, em que o autor não exerce o seu poder. Por isso, interpreto-o como sendo pouco rígid...

PROJEÇÕES NO LITERATO

[...]

Mas a parte mais engraçada de toda aquela manhã de diversões foi sem dúvida a dança do Anãozinho. Quando ele entrou aos tropicões na arena, bamboleando com suas pernas curvadas e oscilando o cabeção disforme de um lado para o outro, as crianças explodiam um grito de prazer, e a própria infante riu tanto que a Camarera foi obrigada a lembrar-la de que, apesar de haver muitos precedentes na Espanha de uma filha do rei chorando diante de seus iguais, não havia nenhum de uma princesa de sangue real fazendo tanta algazarra diante daquele que lhe eram inferiores por nascimento. O anão, porém, era de fato irresistível, e mesmo na corte espanhola, famosa por cultivar uma paixão pelo horrível, nunca haviam visto um monstrinho tão fantástico. Foi também a primeira aparição dele. Fora descoberto no dia anterior, correndo livre pela floresta, pois dois nobres que estavam caçando numa parte remota do grande bosque que sobreiros que rodeavam a cidade, e os dois trouxeram ao palácio como uma surpresa para infante; o pai dele, um pobre carvoeiro, ficou feliz em se livrar de um filho tão feio e INÚTIL. Talvez o mais divertido no Anãozinho fosse sua total falta de consciência da própria aparência grotesca.


Na realidade, parecia muito feliz e animado. Quando as crianças riam, ele ria tão à vontade e de forma tão contente quanto qualquer uma delas, e no final de cada dança fazia lhes as mais cômicas reverência, sorrindo e assentindo com a cabeça, como se fosse de fato um deles, e não uma coisinha disforme que a natureza, por alguma disposição humorística, moldara para que os outros dela zombassem. Quanto à infante, deixara o Anãozinho absolutamente fascinado. Ele não conseguia tirar os olhos dela, parecia dançar só para ela, e, no final da apresentação, lembrando que havia visto as grandes damas da corte atirar buquês a Caffarelli, o famoso tenor italiano, enviado pelo Papa de sua própria capela a Madri para, quem sabe, curar a melancolia Rei com a doçura de sua voz, tirou do cabelo a linda rosa branca e, em parte como gracejo e em parte para provocar a Camarera, atirou-a para o Anãozinho na arena, com seu mais doce sorriso; ele levou a coisa toda muito a sério e, pressionando a flor contra seus lábios grossos e rústicos, pôs a mão no coração e curvou-se apoiado num joelho diante dela, com um sorriso de orelha a orelha, e com seus pequenos olhos jubilosos cintilando de prazer.


[...]

Bem, quando o Anãozinho soube que iria dançar uma segunda vez diante da infante, e por ordem expressar dela, ficou tão orgulhoso que correu para o jardim, beijando a rosa branca num absurdo êxtase de prazer e fazendo os mais rudes e desajeitado gestos de deleite.

As Flores ficaram muito indignadas com seu atrevimento de se intrometer em sua bela casa, e quando o viram saltitando para cima e para baixo pelas alamedas, agitando os braços acima da cabeça daquela forma ridícula, não conseguiram reprimir mais seus sentimentos.


– Ele de fato é horroroso demais para ter permissão de brincar em qualquer lugar onde estejamos – gritaram as Tulipas.

– deveria tomar suco de papoula e dormir uns mil anos – disseram os grades Lírios vermelhos, e foram ficando esquentados e com raiva. 

– É um perfeito horror – gritou o Cacto. – Vejam, é tudo torto e atarracado, e sua cabeça está totalmente fora de proporção em relação às pernas.

Sinceramente, ele me dá comichões pelo corpo todo, e se chegar perto o espetáculo com meus espinhos.

– E ele na verdade ficou com uma das minhas melhores flores – exclamou a Roseira Branca. – É a flor que eu mesma dei a infante hoje de manhã, de presente de aniversário, e ele a roubou. – Então gritou: – Ladrão, ladrão, ladrão! – o mais alto que podia.


Até o gerânios vermelhos, que não costumavam ser esnobe e eram conhecidos por ter um bom número de amigos pobres, encolgeram-se de aversão ao vê-lo, e quando as violetas timidamente comentaram que ele, embora com certeza fosse muito sem graça, não podia fazer nada a respeito, o gerânios responderam com boa dose de razão que aquela era justamente sua principal falha e que não havia motivo para se admirar uma pessoa por ser incorrigível; e, de fato, alguma das violetas achavam que o anãozinho quase fazia ostentação de sua feiura e queria ser melhor se procurasse se mostrar triste, ou pelo menos pensativo, em vez de ficar saltando por ali feliz da vida e se permitindo atitudes tão grotescas e tolas. 


Quanto ao velho Relógio de Sol, um indivíduo extraordinário que uma vez informar as horas a ninguém menos que o imperador Carlos quinto em pessoa, ficaram tão chocado com a aparência do anãozinho que quase esquecer a de marcar 2 minutos inteiros com um longo dedo sobrebreado de sua hasta, e não podia deixar de dizer à grande pavoa branco-leite, que tomava sol empoeirada na seca, que todos sabiam que os filhos de Reis eram Reis, e que os filhos de carvoeiros eram carvoeiros, e que era absurdo fingir que fosse de outra forma, uma declaração com a qual a pavoa concordava inteiramente, o que a levou a gritar: "com certeza, com certeza", com uma voz tão forte desagradável que os peixinhos dourados que viviam num tanque da fonte puseram a cabeça para fora da água e perguntaram aos imensos tritões de pedra que o diabo estava acontecendo. 


Tchau os pássaros de algum modo gostavam dele. Já o haviam visto várias vezes pela floresta, dançando por ali como um elfo, atrás das folhas que voavam ou agachado no oco de algum velho Carvalho, compartilhando nozes com os esquilos. Estes não se importavam com sua feiura, nem um pouco. Porque até mesmo rouxinol fêmea, que a noite cantava nos alaranjais tão lindamente que até a lua se aproximava às vezes para ouvir, não era afinal de contas tão atraente assim; e, além de tudo, o anãozinho havia sido bonzinho com eles, e naquele terrível inverno, quando não havia mais frutinhas nas árvores e o chão estava duro como ferro e os lobos chegavam até os portões da cidade à procura de comida, ele jamais se esquecer a deles e sempre lhes deram as migalhas de seu pequeno pedaço de pão preto eu dividia seu café da manhã, por mais escasso que fosse. 

Então ficaram voando em volta dele, quase roçando sua face com as asas ao passar, e tagarelando entre eles, e o anãozinho ficou tão feliz que não se conteve e mostrou-lhe a bela rosa branca, dizendo que a própria infância havia dado a ele, porque o amava.


Eles não entendiam uma só palavra do que ele dizia, mas isso não fazia diferença, porque inclinavam a cabeça com a cara de sábios, o que é quase tão bom quanto entendeu uma coisa e é muito mais fácil. 


Os lagartos também gostavam muito dele, e quando ele se cansava de correr e deitava na grama para descansar, brincavam e saçaricavam em cima dele, tentando diverti-lo da melhor maneira que podiam.


- Nem todo mundo pode ser tão lindo quanto nós lagartos – gritavam.

- Seria querer demais. E, embora pareça absurdo dizer isso, na realidade ele nem é tão feio assim, desde que a pessoa feche os olhos e nunca olhe para ele, é claro.

Os lagartos eram extremamente filosóficos por natureza e com frequência ficavam juntos horas e horas pensando, isso quando não tinham mais o que fazer ou quando o tempo era chuvoso demais para saírem. 

- Isso só mostra - diziam eles - o quanto essas correrias e voos incessantes tem como é feito a banalização. Pessoas bem nascidas sempre ficam exatamente no mesmo lugar, como nós. Ninguém nunca nos viu pulando para cima e para baixo e pelas alamedas, ou galopeando como doidas pela relva atrás de libélulas. Quando realmente queremos mudar de a, chamamos o jardineiro e ele nos leva até outro canteiro. Isso é digno, e como deve ser ponto mas pássaros e lagartos não tem noção do que é sossego, e na verdade os pássaros nem endereço fixo tem. São relés vagabundos, como os ciganos e deveriam ser tratados exatamente do mesmo modo.


Então empinaram o nariz, como uma expressão bem arrogante, e acharam ótimo quando, após algum tempo, viram o anãozinho sair aos tropicões da relva e cruzar o terraço até o palácio.

- Sem dúvida seria melhor que ele ficasse dentro de casa pelo resto da vida – disseram elas. – Vejam só a corcunda dele e as pernas arqueadas – e ficaram dando risadinhas.


[...]

De todos, este era o cômodo mais claro e mais bonito. As paredes eram cobertas por um tecido adamascado de Luca, com flores cor de rosa, estampas de pássaros e pontuado por graciosos botões de prata; a mobília era de prata maciça, enfeitada com festões floridos de grinaldas e cupidos esvoaçantes; diante das duas grandes lareiras ficavam grandes biombos bordados com papagaios e pavões, e o piso, que era de inox Verde má, parecia se estender a perder de vista. E tão pouco estava sozinho ponto parada em pé, a sombra da porta, na outra extremidade do cômodo, viu uma pequena figura que observava. Seu coração estremeceu, um grito de alegria e rompeu de seus lábios, e ele avançou em direção à luz do sol. Quando fez isso a figura também se moveu e ele pode ver ela bem.


A infante? Não ponto era um monstro, o mais grotesco que já vira. Não era bem formado como as demais pessoas, mas corcunda com as pernas tortas, com a cabeça imensa e balanceante e uma cabeleira preta. O anãozinho franziu a sobrancelhas, e o monstro também. Ele riu, e o monstro Rio com ele, e também pois a mão na cintura do jeito que ele acabara de fazer. Ele dirigiu-lhe uma referência jocosa, e o outro a retribuiu. Foi na direção dele, e ele veio encontrá-lo, copiando cada passo que ele dava e parando quando ele também parava. O anão achou engraçado e soltou um grito, e correu para frente, estendeu a mão, e a mão do monstro tocou a sua e era fria como gelo ele começou a ficar com medo e moveu a mão de lado, e a mão do monstro imediatamente fez o mesmo tentou pressionar, mas algo liso e duro impedia. O resto do monstro estava agora perto do seu e parecia terrorizado. Ele afastou o cabelo dos olhos. O monstro imitou. Bateu nele, e o monstro revidou o golpe pullpe ponto sentiu ódio por ele, que retrucou com caretas ou rendas. Ele recuou o outro também.


O que era aquilo? Ele pensou por um momento e olhou em volta, para o resto do cômodo. Era estranho, mas tudo parecia ter seu duplo naquela parede invisível de Água Clara sim, quadro por quadro era duplicado, sofá por sofá. O fauno adormecido que jazia na alcova junto à porta tinha um irmão gêmeo tirando uma soneca, e a Vênus prateada que estava sob a luz do sol estendia seus braços para outra Vênus tão linda quanto ela.


Seria eco, A ninfa? Uma vez ele ia chamar a no vale, e ela lhe responder a palavra por palavra. Seria ela capaz de imitar o olho, do mesmo jeito que imitava a voz? Seria capaz de construir uma paródia do mundo exatamente igual ao mundo real? Será que a sombras das coisas tem cor e vida em movimento? Seria possível que...?


Ele teve um sobressalto, e tirando do peito a linda rosa branca, virou-se e beijou a ponto o monstro também tinha uma rosa, a mesma, pétala por pétala! Beijou-a com beijos iguais e apertou a contra o coração com expressões horríveis. 


Quando a verdade começou a ficar evidente, o anãozinho deu um grito de desespero e desabou no chão, aos prantos. Era ele o deformado e corcunda, o feio de se ver, o grotesco. Ele mesmo era um monstro, e era dele que todas as crianças riam e a princesa, que ele pensava que o amava – ela também havia meramente zombado de sua feiura e se divertido a custa de suas pernas tortas. Por que não o deixaram na floresta, ontem não havia espelho para lhe revelar o quanto era o dioso? Porque o pai não matou, em vez de vendê-lo para a própria vergonha? Lágrimas quentes rolaram pela sua face, e ele picou a rosa branca em pedaços. O monstro do outro lado fez o mesmo e atirou as frágeis pétalas no ar. Ele então rastejou pelo chão e, quando olhou para o outro, este mirou com a face tensa de do. Afastou-se, então, engatinhando, para evitar vê-lo, e cobriu os olhos com as mãos. Arrastou-se para as sombras, como se fosse alguém ferido, e lá ficou gemendo. 


Nessa hora, a infante em pessoa entrou com os seus companheiros pela janela aberta, e quando viram o feio anãozinho deitado e batendo os punhos no chão, da maneira mais fantástica e exagerada, soltaram grandes risadas de alegria e se juntaram em volta dele para observá-lo.

A dança dele foi engraçada – disse a infante –, mas essa sua representação é mais engraçada ainda. Realmente, ele é quase tão bom quanto as marionetes, só que, é claro, não tão natural. – E abanou seu grande leque e aplaudiu.

Mas o anãozinho não erguia os olhos, e seu soluços foram ficando cada vez mais fracos, e de repente ele arfou de modo estranho e levou a mão à cintura, apertando-a ponto então desabou o chip novo, e lá ficou, deitado, imóvel.


- Que incrível - disse a Infante, depois de uma pausa -, mas agora você tem que dançar para mim.

- Isso mesmo - gritaram as crianças -, você tem que levantar e dançar, porque você é tão esperto quanto os macacos beberes e muito mais ridículo.

Mas o anãozinho não respondia. 

E a Infante bateu o pé, e chamou o tio, que estava andando no terraço com o camaleiro, lendo alguns despachos que havia acabado de chegar do México, onde o Santo Ofício há pouco havia sido instalado.

- O meu Anãozinho engraçado está amuado - gritou ela -, você tem que acordá-lo e ordenar que ele dance para mim.

Os dois trocaram um sorriso e entraram, e Dom Pedro se agachou e deu um tapinha no rosto do anão com sua luva bordada. 

- Você tem que dançar - disse ele -, petit monstre. Tem que dançar. A Infante da Espanha e das Índias quer se divertir.

Mais um anãozinho não se mexia. Acho que deveríamos mandar dar-lhes uma chicotada - disse Dom Pedro enfadado, e voltou para o terraço. Mas o Camareiro, com o olho a sério, ajoelhou o seu lado do anãozinho, colocando a mão sobre o coração dele. E, depois de uns instantes, sacudiu os ombros e pôs-se em pé e, depois de fazer uma grande reverência infantil e disse: 

– Mi bella princesa, seu anãozinho engraçado nunca mais vai dançar de novo ponto É uma pena, porque ele é tão feio que poderia ter feito o rei sorrir.

- Mas por que ele não vai mais dançar? - perguntou a Infante, rindo.

- Porque o coração dele está partido - respondeu o Camareiro.

E a Infante franziu o cenho, e seus delicados lábios de pétala de rosa curvaram-se com desdém.

– daqui em diante, não permita que aqueles que venham aqui brincar comigo tenha um coração - disse ela, e saiu correndo para o jardim.

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