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Destaques

DIÁLOGO IV

Disse o velho gordo mal cabendo na sua cadeira de bar, bebendo um coquitel de bagas e fumando um cachimbo com fumo de chocolate, e tossindo, porque não tem o hábito de fumar tão pouco de beber: - Ser um pobre estudante é horrível. A tecnologia não parece compreendê-lo, e o que deveria ser algo que o tornasse mais fácil acaba por o reter. A falha em escrever bate-me constantemente na mão e torna difícil produzir um raciocínio porque me falta um aparelho de ar condicionado. Vamos lá...  Será que a obra ou o autor vale mais?  Disse eloquente e bêbado: - Podemos dizer que o personagem de ficção passa por um controlo considerável e provável que o escritor, no seu lugar de poder, exerce sobre isto e sobre o protagonista sua influência. Haverá uma saída para isto, minha querida? Forster, a minha má influência, dá uma forma para que isto seja resolvido pela ligação entre personagens planas e redondas, em que o autor não exerce o seu poder. Por isso, interpreto-o como sendo pouco rígid...

A CULTURA PATERNA DO SOM ALTO: um breve pensar sobre o theatricum

 Tudo o que você transmitir ao seu filho sobre o comportamento do pai ausente ou falecido será internalizado no theatricum psychicus, moralis, laborans do sujeito – embora até esse momento desconheço se o modo refletirá em todos –, nutrindo as complexas dinâmicas do inconsciente e esculpindo as interações psíquicas do indivíduo com o mundo circundante. Portanto, o motivo subjacente ao meu apreço pelo som alto reside na herança cultural e na abordagem theatricum para lidar com os conflitos internos, obstruindo, assim, a plena conscientização dos elementos intoleráveis do mundo externo, que ecoa meus internos dilemas – a chegada a tal ideia começa pela observação do meu psicólogo de dois mil e dezessete, Guilherme.


Para romper o ciclo incessante do theatricum, urge o reconhecimento das identidades-referenciais e, quiçá, a compreensão de sua origem primordial. Embora eu me encontre desprovido de perspicácia para discernir as medidas capazes de interromper tal ciclo, careço de observações precisas – sigo observando a movimentação do theatricum "incestos", já que a patrulha da iminência reduziu-se após parar de interagir com as devidas identidades-referenciais e com isso notei que mudando tal altera-se o lugar de poder, descritos em meus registros cognitivos acompanhando pelas narrativas oníricas. Recordando das aulas inaugurais de filosofia na minha alma mater, intuo que o reconhecimento seja o rumo apropriado. E quando o theatricum se liberta gradativamente do ciclo viciante, adentra em um outro movimento, o dialético.


Mas afinal, o que é o theatricum? Theatricum é uma palavra em latim que, dependendo do contexto, pode ser traduzida como teatro, palco, cena ou drama. É o lugar onde as cenas artísticas teatrais acontecem. No contexto da autoanálise, pode indicar as imagens mentais junto com os processos cognitivos que representam o drama pessoal que motiva, inspira, dirige e condiciona o movimento psychicus, moralis, laborans ao looping ou à dialética. Um indivíduo em plastticismo-apático não tem consciência do seu theatricum, até porque não o reconhece. No assédio psíquico, o theatricum é censurado, reprimido. Existem hardwares capazes de materializar digitalmente o theatricum e em breve haverá somente softwares. O theatricum pode ser independente e é gerido e alimentado pelas esferas culturais, também influenciado pela cultura hereditária. Poucas pessoas têm consciência de seus processos cognitivos e de suas imagens mentais, portanto, para muitos, não há um theatricum, pois para haver autoanálise é necessário que o sujeito esteja em posição de plateia e não no palco. Quem está dentro do theatricum vive a neurose, psicose, perversão, psicopatia. Quem está fora do theatricum assiste a tais. Ainda sou inconsciente do processo que leva a assistir ao theatricum, comecei a assistir no momento em que os delírios auditivos, típicos da esquizofrenia paranóide, me tiraram do lugar de personagem e me colocaram no lugar de telespectador e comentarista. Nesta ocasião, é possível compreender a posição de cada um em seu theatricum particular: alguns são protagonistas, alguns são diretores, alguns são críticos. Há muito o que refletir sobre o theatricum.


Um indivíduo, desprovido de apetites sexuais devido à sua moralidade religiosa, seguida com fervor em todos os domingos e palestras na igreja, habita com sua mãe solteira, cujas relações sexuais cessaram desde os cinquenta anos. Inexplicavelmente, ele se vê assombrado por paranoias que sugerem a possibilidade de sua mãe envolver-se sexualmente com seu primo, num suposto ato de incesto. Nesse momento, o theatricum se torna a imagem mental dessa possibilidade, e seu corpus psychicus reage com desdém e desconforto, negando assim o conflito interno que essas imagens representam. Em seguida, seu corpus moralis busca entender o que considera como pecado, passando a vigiar e punir, assim, em seu objetivo, desmoralizando a mãe e constrangendo o primo. O theatricum, por sua vez, motiva, influencia e condiciona os outros estágios do corpus, dependendo das esferas culturais que alimentam seus componentes e da diluição dos atributos da hereditariedade cultural. A escolha do sujeito é o reconhecimento, visando diminuir o looping desses conflitos. No entanto, o que exatamente deve ser reconhecido ainda é incerto. Dizem que é a busca pela perfeição, não da onda perfeita, mas sim pela dialética do conflito. Certamente, a transição do estágio de looping para a dialética não ocorrerá da noite para o dia; é um exercício que demanda um posicionamento geralmente antitético sempre que o theatricum, como tese, se manifestar. O devir deve ser alimentado com mais combustível, requerendo um esforço intenso, uma mudança no posicionamento mental, não negando o theatricum, mas utilizando o corpus laborans em prol do reconhecimento.


Cada vez que o theatricum se manifesta, não traz apenas uma imagem mental de conflito interno, mas também o conjunto de uma linguagem cognitiva. Porém, na ausência das palavras articuladas pela mente, são as imagens que falam por si. Não se trata apenas de imagens ou palavras, mas também de sentimentos, indicando uma necessidade de reconhecimento de algo que não foi plenamente assimilado pelo corpus psychicus. É claro que o reconhecimento, ao meio-dia do terceiro dia, não fará desaparecer tudo até a uma da tarde. Ao reconhecer, ao sentir a emoção, ao testemunhar as imagens mentais e ouvir as palavras cognitivas, uma transformação gradativa ocorre, embora possa levar horas, dias ou até meses. A representação do theatricum sempre retorna, exigindo um novo posicionamento dos corpus. É um exercício constante das identitas-referentialis, pois ao mudar o foco, também se altera o locus de poder, mas isso muitas vezes equivale apenas a trocar um problema por outro. Pode haver momentos em que o theatricum parece desaparecer, mas isso não significa que o problema esteja completamente resolvido; é apenas uma nova forma, mais reconhecida. Por ora, faltam-me palavras e observações mais aprofundadas sobre o theatricum "incesto", uma questão iniciada pela Patrulha da Iminência e transformada em reflexo nas relações familiares. A compreensão do porquê essa dinâmica familiar se estabeleceu é intrigante, mas acredito que a religião e a educação religiosa proporcionada pela minha família tenham desempenhado um papel fundamental nesse drama.

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