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Destaques

DIÁLOGO IV

Disse o velho gordo mal cabendo na sua cadeira de bar, bebendo um coquitel de bagas e fumando um cachimbo com fumo de chocolate, e tossindo, porque não tem o hábito de fumar tão pouco de beber: - Ser um pobre estudante é horrível. A tecnologia não parece compreendê-lo, e o que deveria ser algo que o tornasse mais fácil acaba por o reter. A falha em escrever bate-me constantemente na mão e torna difícil produzir um raciocínio porque me falta um aparelho de ar condicionado. Vamos lá...  Será que a obra ou o autor vale mais?  Disse eloquente e bêbado: - Podemos dizer que o personagem de ficção passa por um controlo considerável e provável que o escritor, no seu lugar de poder, exerce sobre isto e sobre o protagonista sua influência. Haverá uma saída para isto, minha querida? Forster, a minha má influência, dá uma forma para que isto seja resolvido pela ligação entre personagens planas e redondas, em que o autor não exerce o seu poder. Por isso, interpreto-o como sendo pouco rígid...

PAUTA: algumas coisas

Correntes Fundas


Escrito original, parte de uma folha de um diário, redigido em 7 de janeiro de 2022.


É estranho como a música dá acesso fácil a sentimentos tão remotos. Acabei por me lembrar da razão pela qual me escondi na biblioteca nas escolas primárias, não podia tolerar o intervalo e todas aquelas caras falsas de cordialidade infantil. Fechei-me na biblioteca do Luiza Macuco quando a sala de informática já não me servia como solitária e refúgio. Queria agredir cada uma dessas pessoas, mas uma religião enorme trancava-me cada vez mais dentro de mim. Quando cheguei ao liceu já queria ter agredido Mateus, a minha raiva começou a intensificar-se dali. Quando peguei no ferro e bati consecutivamente na minha família, penso que talvez estivesse batendo em todos eles da escola integral. Quando pego no meu skate e parto o meu quarto, ou pego na minha navalha e arranho a minha mão, parto-me e corto-me porque não posso fazer isso com outras pessoas.


Escrito original, parte de uma folha de um diário, redigido em 11 de janeiro de 2022.


Se todo o corpo de borboleta pudesse contornar-se, a partir desse contorno, preencher-se-ia por formas de astas, certamente serviria bem como um casulo também, assim como uma casa serve para quem a habita. Pois através dele, o corpo da alma da borboleta correria, quero dizer, caminharia rastejante e guloso, dentro de seu corpo e sua casa. Essa é a lagarta, que se move através do contorno de todo o seu corpo formado por astas. Astas que, aos meus olhos, parecem rígidas e metálicas, tão boas para deslizar quanto difíceis de abandonar. Mas elas servem bem como combustível de galho de madeira, caso esforçado e esfomeado, de onde a lagarta interna se alimenta, sustentando-se de sua própria forma externa, quero dizer, ela devora as astas de madeira, que são verdadeiras em metal, por onde ela caminha faminta e inquieta, sendo o contorno do corpo da borboleta. Ela sobe e desce, vai para a direita e esquerda, vai e volta, como quem vive trancada em rigidez e não tem outra opção, consumindo-se de dentro para fora, à espera de uma oportunidade de escapar. Nutrindo-se da vida dos galhos, do que sustenta as folhas e possibilita algum florescer, ao mesmo tempo em que nutre-se de sua possível futura imagem, que em rigidez lhe foi imposta. A lagarta se entrega faminta por algo que impossibilita o florescimento do que pode ser além daquilo que lhe é imposto. Penso nisso quando a vejo rastejando perto dos meus livros, projetada com sombras sobre as folhas de caderno, em um suporte de metal do meu antigo computador (quebrado por mim), e neste momento descubro que a imagem do meu sofrimento é uma lagarta, estou sendo essa lagarta. Se isso é bom ou ruim, ainda não tenho certeza. Ela é pequena demais, flácida e pouco arrepiada, sua cor em plumagem é um amarelo desbotado, mas talvez represente o tempo, que é longo para uma pequena dor que consome de dentro para fora, faminta por escapar e lenta na espera de uma fenda de minhoca. Começo o texto julgando a lagarta, antes de tudo eu apenas a observava, fiquei ao meio considerando ser essa lagarta, e termino entendendo a rigidez que seu núcleo a colocou, por meio de posses tecnológicas e livros que sustentariam meses de uma geladeira cheia. É isso também que ela consome e tenta escapar: a perda. Principalmente a perda de ser qualquer tipo de borboleta que não seja rígida... Ou talvez... Mariposa.


Ou será que era apenas um fio sob o efeito do vento, um suporte e algumas sombras?


Ou será que era apenas um fio sob o efeito do vento, um suporte e algumas sombras?


Escrito original, parte de um esboço de uma história, que pode sim ser mais escrita, redigido em 13 de janeiro de 2022.


Hoje, no curso da faculdade, fui impressionado. Passaram uma atividade em que teríamos que escrever sobre nós mesmos, quem somos e quem estamos nos tornando até agora. Para que não haja surpresas, este é o meu texto - li em voz alta, contido, com os olhos fixos na página à minha frente, tanto em firmeza quanto em olhar -, e eu decidi escrever sobre o homem que sou. Aquele que costuma ficar na lanch


onete com os outros camaradas, próximo à quadra, fumando um cigarro e torcendo para que uma bola de basquete apareça, justificando meu desperdício de tempo. Nesse intervalo, sinto-me apenas mais um, algo que não costumo admitir. Às vezes, é difícil aceitar que não me sinto incluído com aquelas pessoas, ou com qualquer outro grupo. Apesar de muitos afirmarem como são excitantes os corpos das mulheres, também sinto-me pressionado a concordar, mas também me vejo muitas vezes sendo arrastado para dentro de mim mesmo, incapaz de expressar além disso. Conversei com Natália sobre isso na escada - olhei para ela, seus olhos cintilantes e simpáticos, como se já soubesse o que encontraria nas minhas palavras seguintes. Estávamos fugindo da aula, sob a desculpa de buscar água, quando a vi ali, não consegui resistir e disse: "Natália, eu não quero parecer idiota, mas estou gostando de alguém". Ela imediatamente mencionou o nome da pessoa, uma coisa tão difícil para mim dizer ou escrever. Continuei: "Toda vez que penso nela, imagino-nos em um parque, de mãos dadas, compartilhando momentos sem me sentir tão deslocado, ou dividindo um táxi sem me sentir tão desamparado, ou simplesmente dividindo qualquer espaço além dessa atmosfera". Foi incrível como Natália simplesmente continuou ouvindo, sem dizer nada, balançando a cabeça e emitindo murmúrios de concordância. Nesse momento, parei para respirar, minhas mãos apoiadas na cabeça, como alguém que perdeu o rumo ou a consciência do que está fazendo. Andei de um lado para o outro naquele pequeno espaço, perdido em meus pensamentos, e disse: "O que devo fazer, Natália? O que posso fazer? O que estou permitindo que aconteça comigo?" Ela apenas deu de ombros, e compreendi. Eu não tinha escolha, precisava continuar. Joguei-me de costas, exausto, deslizando lentamente para o chão, em um canto da saída de emergência, olhando para o céu, para a quadra à minha frente, para as janelas distantes de um prédio à direita. "Eu sinto que sou consumido por esses sentimentos, puxado a cada noite por minhas emoções, por minhas fantasias afetivas... Sinto-me arrancado de dentro do meu peito quando a lembrança do seu sorriso surge, da maneira como ela olha quando está feliz, ou como se comporta cordialmente, mas com um leve rastro de má intenção..." Olhei para Natália. "Eu sei que não posso compartilhar isso com ninguém... Se eu tentasse, diriam o mesmo... 'vocês são todos iguais', e outras variantes paralelas, como se não tivesse o direito de expressar o que sinto e o que tenho devaneado, seja quando ouço uma música que me afeta, uma memória ou um simples acontecimento ao admirar uma rosa". Disse isso com resignação, apesar da decepção, com a sociedade, com o mundo. Porque eu sabia que só poderia falar de emoções se houvesse segundas intenções, um subtexto sexual, extremamente sexual, sem espaço para expressões mais genuínas, aquelas que considero vindas de dentro para fora. "Eu a amo, Natália. E sei que ela é sua amiga, da sua turma. Sei que ela gosta de festivais, ri muito dos memes da Gretchen, aprecia bebidas em garrafas long neck e tenta ao máximo ser gentil e não preconceituosa, mas ainda a observa com desconfiança quando se depara com um desconhecido ou estranho". Olhei para ela. "Eu sei disso, mesmo tendo conversado muito pouco com ela, mas cada minuto e segundo foram suficientes para eu guardar carinhosamente cada informação, gesto e pequenas manias. Pode parecer uma obsessão, mas não consigo encontrar outra forma de definir essa paixão". Nesse momento, Natália me olhou com uma expressão interrogativa. "Sim... Sim... Você está certo, uma paixão não deveria durar tanto tempo assim... E se não for apenas uma paixão, mas algo que se transformou em amor? Você acha que isso é possível?" Ela levantou as sobrancelhas, como se estivesse dando sua aprovação e um sinal de possibilidade. Não posso afirmar com certeza absoluta, mas foi essa a mensagem que recebi, embora talvez também tenha sido um sinal de negação. Mas certamente havia uma pitada de "Entãaaaao..." em sua expressão, como costumava dizer em outros momentos de aconselhamento, erguendo as sobrancelhas. O que isso significa, afinal? - pediu desculpas a Natália pela maneira como leu seu relato para a sala. Enquanto ia para o estágio, pensava nela. Na volta do estágio, pensava nela. Durante o estágio, pensava nela. E em inúmeras outras circunstâncias, me pegava pensando nela enquanto ouvia uma música, assistia a um filme ou lia um livro. Eu sei... Eu sei... Não posso contar a ela. Mas hoje, eu queria compartilhar com todos da sala que... Não sou mais apenas um, apesar de muitos dizerem o contrário. A diferença é que, se tiver uma oportunidade, posso mostrar. Gosto de ouvir essa música, que gravo aqui - pegou o smartphone e colocou para tocar "Time Moves Slow" do Badbadnotgood -, pensando em como contar tudo isso e muito mais por trás das linhas a ela - todos na sala brincaram dizendo quem era ela, enquanto outros comentavam que já sabiam e alguns até disseram que ele havia mostrado uma foto dela. Mas, entre todos na sala, ela era a última pessoa em quem eu imaginava que pensariam.



Nota de edição para o site INUTILE-DILETTANTE:

Informamos aos leitores que os capítulos do livro "PAUTA: algumas coisas" foram alterados por este blogueiro. A versão original desse livro só pode ser encontrada no Wattpad e no INTERPRETAÇÃO HIPOTÉTICA. Infelizmente, a conta do autor no Wattpad foi bloqueada em 19 de maio de 2023 às 10:13, devido a supostas violações das políticas da plataforma. As mensagens divulgadas pelo espaço de expressão foram consideradas contrárias às diretrizes da rede. Por esse motivo, o autor transferiu seus livros para esse blogueiro e para o site INTERPRETAÇÃO HIPOTÉTICA.

A edição realizada por esse blogueiro é intitulada "Luz Reparadora" ou "Replight".

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