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"Bellum omnium contra omnes – etiamsi omnes, ego non.". Este blogueiro é dirigido aos escritos iliterários. Aqui este autor expõe seus registros cognitivos e distorções cognitivas.
Destaques
PAUTA: algumas coisas
A Terrorista com Lágrimas de Crocodilo
Escrito original, parte de uma folha de um diário, redigido em 29 de agosto de 2022.
O sujeito não tem defesa para ser facilmente acusado.
Indicar se as mensagens abaixo têm expressões agressivas, incivilizadas, indisciplinadas, rudes (má educação), desordeiras (provocam desordem), indelicadas. Conforme você identificar tais características, discuta se elas são emocionalmente motivadas ou apáticas.
Email do dia 2 de julho:
"A senhora informou na aula que deveria ser ou Dissertativo ou Discritivo e que não havia a necessidade de enviar os dois, só um ou outro. Mas pelo visto a exigência é outra. Entretanto, eu fiz somente o dissertativo, admitido. A senhora pode zera a entrega do descritivo, já que não tenho como entregar, pois trabalho o suficiente para uma hora de trabalho valer nada, e também não compreendi sua demanda de atividade. Obviamente um zero ou uma suposta nota vinda dos moldes de uma avaliação normativa minuciosa não fará diferença alguma, e digo por mim, com todo respeito. Ainda assim, para futuros nós, sugiro descrever em tópicos as exigências burocráticas para uma entrega regrada aos seus estreitos requisitos.".
Email do dia 7 de julho:
"Olá professora tenho algumas observações deste semestre por isso vou contar uma história junto com minhas considerações, é importante que ela fique entre nós, pois tive a impressão dos professores estarem tentando colocar um ritmo de estudo do tempo pandêmico em um tempo que retornam as atividades presenciais.
Exemplo, se estou em casa assistindo vídeo aula, fazendo absolutamente nada ou menos do que fazia, já que tudo está parado, pra mim não é nada ler em um ritmo mais cuidadoso e analítico e consequentemente mais crítico. Mas voltando ao ritmo de uma vida para o trabalho, não há mais a mesma disposição e quantidade de tempo para estudar minuciosamente textos saussureanos. Agora o tempo escapa, tempos-fugi.
Sei que é uma exigência do MEC, mas há realmente a necessidade do estudo de diversos artigos em linguagens ultra eruditas e extremamente letradas, digo, não poderia ser UM ou DOIS artigos desse? E isso é só um exemplo. Além dos livros com linguagens complexas que mal estão na biblioteca! Por favor, precisamos dos livros de Saussure. Observação, não estou falando da Editora Intersaberes, embora virtual, é ótima. Mas, sobre essas poesias caprichadas em forma de prosa, já é difícil ler em uma pequena tela, imagina então ler em uma pequena tela um livro de uma pessoa que fez parte de um processo de formação extremamente erudito e letrado, aos traços nobres da Inglaterra do século XIX.
Quando esse livro encantando é acessível, de modo impresso, ainda há a chance de uma interação com o texto de modo mais analítico e minucioso para o decifrar melhor. Temos conteúdos de classe alta de erudição e letramento toda semana, mas somos da classe que trabalha, o que não é um problema quando se tem tempo para olhar para essa outra linguagem de categoria, e obviamente não podemos tirar a presença do erudito classe-a e enormemente letrado (típico padrão de controle extremo e domínio estreito de uma escritura sagrada, upgrade dos autores canônicos e fixação da primeira fase do desenvolvimento psicosexual), já que isso iria propiciar uma fama de "curso sem conteúdo", como dizem os falados em mandarim (talvez as referências ao mercado global, Inglaterra e China, não tenham soado engraçado, mas, esclareço que foi uma piada).
"Não tenho tempo para ler poesias", título desta carta virtual (e que título), foi o que um professor me disse em uma aula de difusão que partícipei da USP sobre a história de um jovem periférico, inclusive é uma aula gravada no YouTube. Estávamos conversando sobre o perfil que demandam para determinada classe de estudos. Pois havia um grupo de estudos com uma história e neste grupo de estudos os participantes, além de ler artigos científicos para todos os encontros semanais, tinham que ler poesias. Mas um dos participantes da turma morava na periferia e trabalhava a maior parte do tempo, muito longe do centro que era o local em que se reuniam para as reuniões semanais. Para chegar no centro, o aluno trabalhador da periferia, teria que atravessar literalmente a cidade por meio de transporte público sempre cheio. O rapaz chegava sempre atrasado e participava como podia da reunião. Mas a supervisão implicou com ele, o convidou a abandonar o curso porque não era do seu ritmo e nem de sua linguagem e ele respondeu: "Não tenho tempo para ler poesias".
Expressão justa, ele só queria estudar e o fez como pôde. Em sua casa o silêncio, nem na rua nem no bairro, era conhecido. No ônibus a exaustão dos passageiros lhe permitia uma previsível experiência de contato literário, mesmo com sua leitura deformada, sufocada, ou sua escrita, de anotações no canto da página, também disforme. De qualquer forma, ele continuou, com sua limitada aparelhagem tecnológica a um telefone celular já quase obsoleto. Ele estava no centro todos os dias. Seu looping existencial foi feito dessa maneira, porque mesmo sem tempo ele queria tentar ler poesia.".
Email dia 8 de julho:
"Olá professor,
Sua matéria é muito difícil e suas aulas me são muito confusas, muitos da sala dizem o mesmo, tal como já conversamos pessoalmente. Mas percebo que posso trabalhar mais essa matéria com o que estiver no livro. Portanto, para a prova final, quais páginas do livro do Saussure, Curso de Linguística Geral, posso estudar?
Penso que, por gentileza e percepção muito mais superior do que a de um burgão miserável, o senhor não vê nada de errado em informar de que página para que página nossos grupos de estudos poderiam se organizar. Por ocasião de não haver a gentileza de nos informar sobre as páginas, acredito que posso considerar que o senhor conspira firmemente contra o nosso pior.
Admito ainda que, como parte da classe-proletariado e conhecendo meus desafios particulares para uma categoria devidamente alfabetizada, pois não tive papai, mamãe, avós para me dar um curso de idiomas (claro, não estou me referindo ao senhor), não veria nenhuma oposição em considerar algumas das suas formas didáticas aspectos típicos de burgonete. Mas, claro, se o senhor considerar nos informar o que vai cair na prova final, podemos desconsiderar todas essas percepções.
Fico no aguardo das páginas e de mais instruções.
Abraço.".
Email dia 14 de Julho:
"Olá professor,
Envio este e-mail para esclarecer as razões por quais não fiz a prova final. Revelo que me sinto prejudicado com seu método de ensino e avaliativo, já que não tenho recursos tecnológicos e acadêmicos suficientes para acompanhar a linguagem sofisticada dos livros e muitas vezes das aulas, questões essas que podemos conversar pessoalmente.
Digo também que às vezes me parece que o senhor corrige as provas com um tridente da maldade ao lado e não me surpreenderia se alguma vez um aluno tenha se matado ou pensado em se matar após ler a correção da prova. Creio que essa concepção não ofenda o senhor, pois é de esperar que ela diga nada a seu respeito. Assim como o termo burgão, no último e-mail, acredito que não seja nada ofensivo, já que essa também não revela nada sobre sua pessoa, como é de se esperar.
Sobretudo, estou aberto para que possamos conversar sobre as aulas e as avaliações pessoalmente. Mas revelo que por questões pessoais considerei melhor para o meu aprendizado reprovar em sua matéria. Também estive crente de que não haveria chances para me recuperar descentramente nesta última avaliação, na data de hoje. E qualquer coisa que possa ter chegado também aos seus ouvidos, eu estou aberto sempre para a escuta e diálogo.
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