Pesquisar este blog
"Bellum omnium contra omnes – etiamsi omnes, ego non.". Este blogueiro é dirigido aos escritos iliterários. Aqui este autor expõe seus registros cognitivos e distorções cognitivas.
Destaques
PAUTA: bloco de notas
Inútilmente sentido
Escrito original, parte de uma ilusão ao ouvir música, escrita em 29 de julho de 2021.
É o cúmulo da arrogância e da indiferença contra os mais desinformados, quando a classe média alta se volta para os pobres e pergunta "por acaso vocês sabem o que é violência? Não, e é por isso que você não deveria escrever nada sobre um homem negro espancado na rua". Em qualquer caso, provavelmente até escrevi errado o nome disso, o que pouco importa. É como assumir que qualquer posição fosse errada porque você não tem letramento ou erudição suficiente. A ausência de uma boa educação básica, que sempre foi um problema no Brasil, reforça a invalidez de qualquer posicionamento que alguém pense em demonstrar?
"Venha aqui, por acaso você sabe o que é jeans? Bem, então você não deveria usar jeans.". Tudo se torna privado. Estamos caminhando para o autoritarismo ao estilo de 1984. Fechou-se a permissão e a validade de um posicionamento ou ideia apenas para o grupo que está dentro dos domínios estreitos de tal posição e ideia. Volta um racionalismo tímido, e não só aí, é uma racionalidade que não pode ser refutada, é uma racionalidade só para os sofistas, alunos de classe alta que podem pagar por seus estudos fechados. E por essa razão, de poderem pagar por seus estudos, eles nunca irão divulgar seu conhecimento para as massas.
Ultimamente, tenho pensado em escrever uma história de amor. Mas o desaparecimento da expressão desse termo me faz pensar como é difícil escrever sobre ele. Por exemplo, quando dizemos que fazemos algo por amor, o que realmente queremos dizer? O que é amar e o que é amor? Algumas coisas estão sumindo em névoa para mim. Em meio à privatização do conhecimento, do letramento, da alfabetização, temos também a privatização do significado de amar ou do amor. Quando o amor não pode ser entendido como amor pode ser quando uma pessoa é recompensada pelo amor de outra e não consegue entender o que aconteceu alí, que ali esteve se fazendo algo por amor. Por exemplo, uma pessoa compartilha um prato de comida com outra, mas a pessoa que ocasionou o prato repartido parece ter um bloqueio em entender o motivo desse gesto. Então, pode-se pensar que isso foi feito para que algo fosse recompensado mais tarde, e isso está longe de ser a idade por trás do simples gesto de sentir.
Outro ponto também, a própria palavra sentimental agora parece ter um som pejorativo, tão vergonhoso quanto as palavras que estão dentro dela, sentimento, torna-se o que gera inutilidade. A emoção, por mais forte que seja o termo, pode primeiro lembrar alguém em lágrimas, em vez de sorrindo. Obviamente, há mais aqui para ser escrito para mim do que para nossos queridos leitores. Esses leitores podem experimentar algo completamente diferente em todas as palavras que foram deixadas em cada capítulo deste livro.
Parece-me que a maior perda de sentido entre esses termos, como amor, sentimental, emoção, é a perda da ideia de delírio. Estamos todos delirando? Do que são feitos os delírios? Se delírios são como quadros pintados, qual foi sua principal tinta? Não sei. Nesta ocasião, eu posso estar agindo mais em função de minhas emoções, sentimentos e amor. Que me fazem perder completamente a ideia de um senso limpo e crítico. Quer dizer, para ter senso e crítica sobre delírio é preciso abdicar completamente as emoções? Mas se eu não consigo nem dizer quais são minhas emoções, o que senti e amo, haveria uma maneira de fazer seu cachorro parar de latir?
Desafiei-me a escrever uma história de amor e me senti incapaz de escrever qualquer coisa sobre ele. Eu nem sabia como começar a escrever sobre isso. Pensei em começar com um romance ambientado em um navio, estava disposto a estudar os trabalhos de navio, os papéis existentes, como se eu fosse um funcionário de sua organização flutuante. Mas, na ausência de critérios corretos para o que é amar, sentir, emocionar, notei que não posso narrar racionalmente uma história de amor, embora esses termos tenham sido privatizados por livros, filmes e outras produções midiáticas. Claro, no sentido abstrato seria muito mais fácil narrar tudo, talvez em um sonho pesado houvesse um único lugar possível para essa história existir.
Na demanda por uma boa escrita, coerência, articulação, um alicerce sólido, isso faz se tornar uma história impossível de existir. Parece que mesmo erros graves de digitação, para fazer algum sentido, podem facilmente cair no absurdo para fazer de fato isso tornar-se escrito. Teria que ser uma piada bastante entorpecente ou uma piada silenciosa que distorce descaradamente todas as idéias seculares fixas, e por isso faria muito sentido além de se fazer concreta na marcação da tinta no papel. Só assim.
Como um ar que sai das algas, ela precisaria desistir de toda e qualquer lógica para fazer qualquer sentido real e alguma razão para existir no seu delírio. Ela precisa dizer algo extremamente louco ou maluco, exagerado por doce de filtro, muita água de lágrimas no copo com um cubo de açúcar boiando. E qual era, afinal, seu motivo? Foi açúcar? Ela estava adormecendo? No mínimo quero poder definir que seria mais uma necessidade de delírio, com certeza. Sim, como um filme ou uma piada de mau gosto. E Flávio Carneiro escreveu algo em A Confissão quando seu protagonista vai ao cinema, isso parece se encaixar muito bem.
A resposta a estas perguntas poderia ser uma boa se fosse falada que quando somos todos amadores artistas vivos, por precisar se virar nos trinta a maior parte do tempo, para assim possamos ser um sujeito que, que não consegue lidar com a demanda de abrir mão às satisfações relacionada ao fervor da alma, inicialmente necessárias à realidade, nos afastamos da realidade para no mundo da fantasia dar a rédea solta aos desejos famintos. E em tempos de fome, miséria, violência, o que mais passa fome é saber nem apenas um adequado letramento, mas acima de tudo o que é amar, sentir, se emocionar de verdade, tudo fora das lentes dissimuladas e luminosas.
E sim, este trecho parafraseado de um livro traduzindo por Luiz Hanns, qual fichei e não fiz nenhuma questão de pegar o nome do livro.
Comentários