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"Bellum omnium contra omnes – etiamsi omnes, ego non.". Este blogueiro é dirigido aos escritos iliterários. Aqui este autor expõe seus registros cognitivos e distorções cognitivas.
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PAUTA: bloco de notas
Caçado Coração Rouxinol
Escrito original, parte de uma folha de um diário, redigido em 14 de setembro de 2021.
Um texto em memória a Capela do Porto. O título está em razão dos infindáveis tempos de caça, que fazem preciso está aberto a deixar o coração de Rouxinol transforma-se em pedra, indiferente e insensível. Mate esse pássaro e me torne apático.
Primeiro cartão postal:
– Os peixes foram soltos em rios, um sobranadar na correnteza, e mergulhar no seu fundo traz uma preciosa joia de rocha à mão. Nunca vista por mim antes. O choque térmico dá uma sensação de comodidade, depois do mergulho fico numa zona sólida espaçosa, rica em espaço. O que os nativos chamam de "pedra do rio". Que se banha confortavelmente no sol, embora algumas de suas superfícies, as gotas d'água do meu corpo também a tenha molhado. Uma bela companhia, que se molha ao meu lado com partículas desse rio, mesmo que só eu tenha entrado nas águas até o seu fundo. Uma profundidade que o frio se faz sentir com o forte movimento da corrente, em mim o calor é preservado, um artefato ou outro o rio traz no fundo semiescuro para colidir comigo submerso. A temperatura é uma orquestra de sentidos opostos, a corrente fria apenas intensifica o calor do meu eu submerso. Uma força incomensurável para mim, que às vezes parece se apropriar da minha hospitalidade e às vezes parece decidir expulsar-me. É incerto se o rio me permite estar aqui, só estou aqui porque gosto de sentir a dinâmica do fundo deste rio.
A superfície está sempre ao alcance, e até pelo próprio rio, sair também não parece difícil, embora um passo em falso possa lançar meu corpo em um redemoinho, fazendo-me parte disso e de sua dinâmica interrupta nesta ocasião. E partindo desse pressuposto, alguém poderá encontrar meu esqueleto, camarada? Ou também serão corroídos por essa bela dinâmica na qual mergulho e sinto adorar?
Ainda assim, se eu pudesse, eu moraria aqui. Eu viveria no calor dessa rocha que me acolhe, até que o rio ficasse calmo novamente para mergulhar, e no meio da natureza eu também viveria, e aqui horizontes que se alternam em sol, céu azul, terra vermelha e árvores verdes de cheia vida e liberdade, sim, aqui, iria instalar-me. Não é tão complicado falar e reconhecer a natureza. Mas lendo sua carta, seus pedidos inquietos e as marcas de rasgo nas folhas, rasuras e rasuras, essa visão de descanso me escapa, me sacode seus excessivos pedidos de ajuda, fazendo com que tudo que me conforta e me zela pareça adormecido, e eu só pude pensar em sua condição em oposto a minha.
Reposta ao cartão postal:
Ler o início destas palavras agora me dá uma visão reconfortante: "Peixes sobrenadam pelas correntezas...". Lembro-me da infância! Em que tinha muitos peixes, tendo em vista a curta vida desta bela parte da natureza. E quando tirava os peixes do aquário com minha mãe para trocar a água e limpar o recipiente, método muito antigo e ainda menos lembrado no passado, tal me permitiu uma interação inusitada com os bichanos.
Os peixes foram colocados em outro recipiente, e eu pequenino tentei dentro da tigela colocá-los entre as conchas que fiz com as minhas mãos. Mas os peixes foram rápidos e fugiram, fugiram de mim, na semana seguinte tentei de novo, e fugiram de novo. Eles sempre teriam que fugir de mim? O que havia de tão errado? Seria tão horrível deitar nas palmas das minhas mãos, que ficariam fascinadas com o sentido de suas escamas?
Certa vez, um dos peixinhos, quando parecia por fim preso entre minhas mãos, o aproximei do rosto, ele inusitadamente pulou para a mesa onde estava o recipiente. E minha mãe estava naquele momento do outro lado da parte da casa limpando o aquário. O peixinho estava pulando para fora da mesa, e eu simplesmente não queria deixá-lo cair, ou que, pela minha persistência, acabasse o machucando. Bailamos.
Enquanto o peixe se debatia, me desesperava junto com ele. Tentei prever de que maneira ele acabaria pulando na mesa, mas sempre me peguei esquivando dos meus próprios passos. Em um momento ele parou, pensei que poderia resgatá-lo, parado os seus lábios do peixe faziam movimentos carinhosos nele próprio, um movimento que chamo de vida. E beijado por si mesmo e suas aflições e angústias, sentir-me comovido. Como se daquele momento em diante, o que quer que estivesse em nós, agora pudesse conversar. Mas eu teria preferido mil vezes ser um peixe para viver com ele e ouvir diretamente de suas palavras.
Quando aquele momento me comoveu, entendi que ele pediu minha cautela, que quando me desesperei com ele, o desesperei ainda mais. Com muito cuidado e movimentos leves, aproximei-me do peixe na mesa. Seu olhar sufocante parecia estar dirigido e fixo em mim, o que me fez sentir muito ressentimento. Perguntas me ocorreram e me senti totalmente e enormemente responsável, toda vez me pegava pensando e "e se eu não tivesse tentado e pensado em tirar os peixes do aquário?"; e "se eu não tivesse feito isso?".
Quando eu finalmente conseguir pegar o peixe no centro da mesa, depois de uma dança angustiante que tivemos a nos balançar, ele parou nas minhas mãos e pareceu me encarar asfixiado. Dirigi-o para a tigela, repetindo em mim, em meus pensamentos – em tudo que ressoasse com as oscilações do peixe que também pareciam me oscilar – apelos de misericórdia. Quando ele voltou para a água, ele continuou olhando para mim. Então percebi o por que dele não conseguir ficar em minhas mãos e por que ele sempre parecia se machucar quando eu apenas pretendia dar uma olhada mais de perto. Tudo por um simples fato: porque aos olhos dele sou grande demais, inalcançável, incompreensível e muito ameaçador.
Se não fosse isso ele não estaria me vigiando tão estreitamento assim, com o olhar sempre prestes a vir até aqui. Onde quer que eu esteja ele olha. Coisas completamente insignificantes não ganham tanta atenção, e mesmo quando dizemos que algo é enormemente significante estamos simultaneamente dizendo que não somos, porque vivemos sobre ele. Particularmente, não me sentia assim, me sentia um idiota e pensar que o peixe me viesse dessa forma me fazia pensar o quão mais idiota eu fui. Coisas insignificantes não estão sempre nas conversas, não estão sendo expostas, não estão sendo seguidas. Mas o mais triste de alguém te significar tanto é a insignificância que ele se coloca, quando nem um nem outro são tão significantes assim.
Imagem de cartão postal: Rouxinol gordinho pousado no galho de uma árvore, cedida pelo Google Imagens, disponível em: https://encrypted-tbn0.gstatic.com/images?q=tbn:ANd9GcRN5pFIclAgVbj2ovho8NUrTDw3kGxsAnyqOA&usqp=CAU acesso 19 out. 2021.
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