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Destaques

DIÁLOGO IV

Disse o velho gordo mal cabendo na sua cadeira de bar, bebendo um coquitel de bagas e fumando um cachimbo com fumo de chocolate, e tossindo, porque não tem o hábito de fumar tão pouco de beber: - Ser um pobre estudante é horrível. A tecnologia não parece compreendê-lo, e o que deveria ser algo que o tornasse mais fácil acaba por o reter. A falha em escrever bate-me constantemente na mão e torna difícil produzir um raciocínio porque me falta um aparelho de ar condicionado. Vamos lá...  Será que a obra ou o autor vale mais?  Disse eloquente e bêbado: - Podemos dizer que o personagem de ficção passa por um controlo considerável e provável que o escritor, no seu lugar de poder, exerce sobre isto e sobre o protagonista sua influência. Haverá uma saída para isto, minha querida? Forster, a minha má influência, dá uma forma para que isto seja resolvido pela ligação entre personagens planas e redondas, em que o autor não exerce o seu poder. Por isso, interpreto-o como sendo pouco rígid...

PAUTA: bloco de notas

 

Lá fora

Escrito original, parte de uma folha de um diário, redigido em 11 de setembro de 2021.

Não pensei que ficar do lado de fora por um tempo fosse tão bom. Tive essa ideia depois de ver Oscar Wilde, em seu exílio em Paris, optar por passear e observar as cenas que apareciam e dançavam nas ruas em vez de ficar quieto no seu quarto no Hôtel d'Alsace com um papel de parede péssimo à vista. Então, peguei uma cadeira e a coloquei na minha calçada. Hoje ali fiquei, quando fiquei ali notei, e isto foi o que vi.

Assistir uma quente briga de casal da minha porta; homens cansados ​​voltando do trabalho e saindo de casa para correr bem mal vestidos; idosos aposentados que continuam em um ofício ativo praiano; também os jovens que passaram na minha calçada e sem menos me conhecerem me saudaram com um boa noite; carros lentos e velozes, raros e populares; ônibus com gente animada e cansada; alguém na esquina, totalmente ciente de razão, gritava contra o presidente e o governo. Idosos passeando com seus cães de diferentes raças e treinamento. E pessoas em extrema pobreza me pedindo informações sobre ruas e caminhos que levam a becos portuários antigos próximos da ponta do porto que é meu bairro.

Claro, os loucos também apareceram, e agora me vem a impressão que eles só são capazes de se atacar, gritando para si mesmos no meio da rua e nas vazias esquinas escuras onde invocam a imensurável dimensão de sua vergonha e culpa, tais fervem através de suas condutas – isso quando conseguem a colocar para fora, já que nenhuma culpa ou vergonha parece ser meritodiosa de ser esquecida. Eles me fazem pensar que não sou tão pertubado quanto pareço para mim no espelho, mas creio que não posso chegar ao estado Werther ou Winehouse.

Eu vi pessoas gritando o nome de outras pessoas nas calçadas em frente a um prédio e a moradora do prédio implorando por quem gritava que parassem de bravejar seu nome e suas características únicas, tão alto e tão claro, de lá da calçada. E "porra, quer me fuder me beija" foi o que disse ela para os dois rapazes na calçada. Sem falar nada, quando passou por mim ela acabou me contando que gritar seu nome em frente ao prédio, qual ela mora, faria com que o proprietário e o síndico lhe aplicassem uma multa injusta e insensível. – Bom, dei uma pausa e fui buscar um copo de soda e um pacote de jujubas de framboesa, gelatinosas e sem açúcar para continuar escrevendo.

Então, como dito na parte anterior, peguei uma cadeira e a coloquei na minha calçada. E ali fiquei, quando fiquei ali notei, e isto foi o que vi:

– Vi grupos de amigos reunidos nas esquinas, às vezes apareciam jovens diferentes em esquinas diferentes. Vi cenas típicas de Shakespeare em Romeu e Julieta na porta de um prédio do outro lado da rua, um beijo caloroso que pode nos convencer de que realmente existe amor em meio a uma disposição individualista interesseira natural que reina na nossa espécie.

Vi muita gente e além disso fiquei mais de três horas olhando as árvores. As árvores dançavam ao vento, curvavam-se para a rua e para todos que não a notavam mas por elas andavam. Essas árvores tocavam-se, umas as outras, quando o vento do cais açoitava seus galhos leves vibrantes de primavera.

E por um instante lembrei que aos 15 anos ficava na praça da paróquia do bairro, sobre a influência da literatura de Flávio Carneiro, olhando as pessoas e me esforçava a escrever como na obra A Confissão. Mas nunca consegui porque meus sentidos condicionam a escrever essa estação. Para mim o ficar hoje olhando a rua fez do dia mágico.

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