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Destaques

DIÁLOGO IV

Disse o velho gordo mal cabendo na sua cadeira de bar, bebendo um coquitel de bagas e fumando um cachimbo com fumo de chocolate, e tossindo, porque não tem o hábito de fumar tão pouco de beber: - Ser um pobre estudante é horrível. A tecnologia não parece compreendê-lo, e o que deveria ser algo que o tornasse mais fácil acaba por o reter. A falha em escrever bate-me constantemente na mão e torna difícil produzir um raciocínio porque me falta um aparelho de ar condicionado. Vamos lá...  Será que a obra ou o autor vale mais?  Disse eloquente e bêbado: - Podemos dizer que o personagem de ficção passa por um controlo considerável e provável que o escritor, no seu lugar de poder, exerce sobre isto e sobre o protagonista sua influência. Haverá uma saída para isto, minha querida? Forster, a minha má influência, dá uma forma para que isto seja resolvido pela ligação entre personagens planas e redondas, em que o autor não exerce o seu poder. Por isso, interpreto-o como sendo pouco rígid...

PAUTA: bloco de notas

 

Cada vez mais estacionado

Escrito original, parte de uma folha de um diário, redigido em 4 de setembro de 2021.

Assistia o jornal e lá estava ele, todo alegre, o professor bicho-papão da faculdade de pesadelos, cumprindo seu papel de santo intocável. Como se nada tivesse acontecido, ele vende palavras encantadoras e frases espirituosas de conforto. Por trás de tudo está sua amargura, alguém que usa até seus últimos recursos, que como frutas brotam de um berço de privilégios, para estacionar e anestesiar um pobre iniciante do diletantismo. Ele não perde nenhuma chance, em seu jornal escreve as críticas cruéis com ferocidade todos os dias, seu trabalho é integral e funciona como uma séria devoção. É seu trabalho, como ele bem diz, acorrentar completamente o plebeu repugnante a um poço, algemado e com a língua cortada.

Jamais esquecerei como ele me fez enormemente mal, porque embora ele soubesse sempre que eu tenha sido um jovem negro pobre, sem recursos adequados para uma atuação mais ou menos boa, ele indiferente e maníaco me enterrou vivo. Nunca tive acesso a formatação de uma obra de acordo com as normas de cidades brancas privilegiadas com uma cultura ancestral de letramento, erudição e alfabetização apurada. Estou subnutrido de erudição e letramento. Com condições reduzidas, não consigo nem fazer o meu melhor.

Ah, mas como eu ansiava pela estréia de um herói que viesse fazer justiça pela minha liberdade, não que me tirasse desse poço que é o local onde nasci e vou morrer pela minha condição, mas que matasse todo esse bando de esbranquiçados arrogantes. Eu os odeio tanto.

Porém, até agora, o que posso esperar é que esse crítico professor indiferente viva até os 90 anos ou mais e eu morra antes dos 30 ter se completado, por pegar algo que nem sei o que de um mercado, para então aqueles brancos colocar esse pobre coitado nu, só para se sentirem seguros. Estreitando a vigia e controle integral, pois é o que eles fazem como abutres que lucram com a nossa destruição e morte. No mercado prendido por pegar qualquer coisa de menos de 24 reais, antes que eu possa implorar dizer a verdade sobre minha realidade, terei sido lançado ao inferno para ser açoitado com meus ancestrais. Porque eles se tornaram os autores do que é a minha realidade e a história dos meus ancestrais, e de seu modo seguem a definindo.

Antes disso posso sentir está vivendo uma adaptação de A Nau dos Loucos de Hieronymus Bosch, c.1490-1500. Porque além de burro, pobre e negro, eles me classificam de doentil e louco. Em respeito - e a ideia de respeito como delimitações de fronteiras de classe - a cidadania, mudou alguma coisa de 1500 prá cá? Será que a História da Loucura esclarece isso o suficiente?

Me parece que nada mudou. Varrer os diferentes e doentios para as laterais dos espaços silenciosos e imperceptíveis, ou melhor, vazios. A nau vira hospício, o hospício vira manicômio, o manicômio vira espaços vazios. A vassoura que arrasta para pá o inadmissível, intolerável, infectado, sujo, o fora do padrão dominante, da identidade referência que definiram como sendo - somente estas - gente, pessoas e humanas. O que vive na lateral, margem, no seu próprio canto não é aos olhos das tendências dominantes com ideários neoliberais, propriamente, pessoas, mas sim humanóides, no sentido de se parecem com pessoas mas carregando algo ou uma coisa que os fazem ser um extrangeiro, um extraterrestre ao meio do centro "humanizado". O que faz do louco algo como um deshumano aos olhos desses seres celestiais e tiranos. Porque lá em cima eles podem procurar se tratar, e nós aqui em baixo vivemos um jogo bestil semestral da batata-quente com medíocres estagiários arrogantes – e não, não há como salva um se quer.

Até que eles nos levam a força para um lugar afastado, mutirão dos normais e pessoas boas (que obviamente iram para o céu enquanto assinados ficaremos no inferno), e nos espancam até a morte com justificativas de sermos os loucos, os psicóticos, os perversos, os repugnantes, os incuráveis. Ou nos joguem ovos enquanto tocamos música na calçada do seu bairro.

O professor bicho-papão agora deve está pensando que seria ótimo se literalmente e diretamente fosse tudo de fato assim. Digo, ele não precisaria gastar argumentos para estacionar um aluno no fundo do poço, ele poderia simplesmente jogar tomates ou ovos na minha performance sobre o arcaico.

Sim... Sim... A vida nesta precaridade, com suas privações e limitações contínuas, nos torna rebeldes e revoltantes, principalmente no que escrevemos. Embora o mais terrível não é que ela consiga partir os nossos corações - os corações foram feitos para serem partidos - mas que os transforme em pedra. Às vezes sentimos que só com muito descaramento e insolência conseguiremos suportar mais um dia.

Máscaras:
WILDE, Oscar. De profundis. L&PM, Kindle, 2019, s/p.

FOUCAULT, M. Microfísica do poder. Rio de Janeiro: Graal, 1979, p. 218.

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