Pesquisar este blog
"Bellum omnium contra omnes – etiamsi omnes, ego non.". Este blogueiro é dirigido aos escritos iliterários. Aqui este autor expõe seus registros cognitivos e distorções cognitivas.
Destaques
ALMAS DE CARSINI
Para compreender o conceito de 'Elixi' ou 'Al-Ikseer', é necessário mergulhar nas vastas trilhas da alquimia, onde a substância em questão se revela como uma preparação farmacêutica, um elixir ancestral, que incorpora um ingrediente ativo de virtudes comparáveis às da morfina, e essa mistura mágica repousa numa solução que contém um toque de álcool etílico, unindo-se como um segredo ancestral que desafia o tempo.
A jornada de descoberta transporta-nos para um momento épico, quando o Islã, enquanto religião e império político, se estendia por vastos territórios, abrangendo a Síria, Palestina, Pérsia e Egito, estendendo-se para o Ocidente até Marrocos, Península Ibérica e parte de França, e para o Oriente, tocando a Índia. Neste cenário, o Islã não se limitava apenas às questões teológicas, mas revelava um profundo apreço pelas ciências naturais. Os crentes eram instigados a observar atentamente o mundo que os cercava, em busca de evidências que fortalecessem a sua fé. Assim, as tradições do Profeta Muhammad incitavam a busca pelo conhecimento, uma jornada que se prolongaria por toda uma vida, independentemente da sua localização geográfica.
Neste contexto, a ciência emergia como um farol luminoso, ofuscando até mesmo as crenças religiosas, estabelecendo uma simbiose íntima entre o saber divino e o terreno. A religião e o Estado partilhavam uma relação simbiótica, como expresso na máxima "acredite ou morra" nas guerras muçulmanas, e este ambiente propício fomentou um incrível progresso, atraindo estudiosos de diversas origens e crenças, todos contribuindo para o enriquecimento do conhecimento, compondo uma sinfonia de aprendizado em árabe.
A ciência tornou-se uma instituição no Estado muçulmano, com os califas a desempenharem um papel ativo na sua promoção e desenvolvimento. Neste terreno fértil, surgiram figuras lendárias, como Khalid, o príncipe filósofo, e Al-Farabi, que, nas suas explorações na física, investigaram a transmutação de substâncias. Na segunda metade do século VIII, o Oriente se sobrepunha à Europa, deixando uma pegada histórica indelével.
No campo da química prática, o foco residia na manipulação de metais e na preparação de medicamentos. Os elementos classificavam-se em três categorias distintas: espíritos, corpos metálicos e substâncias minerais. Os cinco espíritos, como almas errantes, eram formados por enxofre, arsénio, mercúrio, bálsamo e cânfora, enquanto os metais incluíam chumbo, estanho, ouro, prata, cobre, ferro e o misterioso Carsini. Embora o Carsini não se encontrasse na natureza, inscrições da época indicavam o seu uso na Europa para a produção de utensílios e relógios, sugerindo uma conexão com o bronze.
A busca incessante pela transmutação de metais menos nobres em ouro e a procura pelo elixir da vida eram temas centrais da alquimia árabe. Acredita-se que enxofre, fogo e mercúrio líquido, quando combinados com habilidade, possuíam o segredo poder de criar ouro. O ouro era visto como um metal perfeito, enquanto os demais metais ansiavam por serem curados e transformados na nobreza do ouro. Esta transmutação não era simplesmente um processo físico, mas uma sinfonia, um concerto cósmico regido por um princípio superior que operava nos segredos da natureza e se entrelaçava com a enigmática concepção do elixir da vida.
Assim, neste auge da alquimia, delineia-se a psύχαι como uma entidade volúvel, que se desvanece sob o calor da paixão, mas que, na sua essência, é um corpo
, um corpo metálico, maleável e moldável. Esta jornada tem início com a revelação dos primeiros instintos e, gradualmente, molda-se à medida que absorve os indícios que conduzem à compreensão do simbolismo, índice e arbitrariedade. Ao findar dessa intrincada viagem e nas profundezas do ser psíquico, a plenitude da consciência é alcançada, dividida entre um espaço que guarda o passado, obscuro e remoto.
Neste período da mente humana, imperavam elementos desconhecidos e instintivos, enquanto, no limiar do subconsciente, repousavam os mistérios que espreitam a próxima esquina do momento subsequente, tal como postulado por Freud na sua primeira tópica. A questão que se impõe é: por que o elixir da mente, outrora tão puro, sucumbe e rebaixa-se ao estado de Carsini? A resposta reside na proporção mágica da conjunção de enxofre e mercúrio, como proclamado nos estudos de Chassot. E a proporção mais sublime, como destilada por Jabir, ou Abu-Musa-Jabir-ibn-Hayan, ilustre alquimista árabe, é a do ouro. Numa certa alvorada, Jabir destilou o carbonato de chumbo, separando o arsénio e o antimónio dos seus sulfuretos, desvendando os segredos da purificação dos metais. E ele extraiu o ácido acético, concentrando o vinagre, numa revelação que ressoa pela eternidade. Assim, a busca pela ressurreição da alma perfeita, da 'Callipolis' platónica, é uma jornada que nos impulsiona a compreender as visões alquímicas do mercúrio e do enxofre, e de que maneira esses elementos podem servir como guias nessa intricada senda, dividida em múltiplas fases: purificação, fusão, desintegração, dissolução e coagulação. E se essa busca ousar tocar o âmago da alma, transcender o conhecimento alquímico e adentrar o território literário, então, permitamos que a mente divague, quem sabe, por entre as trilhas das teorias.
Comentários