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Destaques

DIÁLOGO IV

Disse o velho gordo mal cabendo na sua cadeira de bar, bebendo um coquitel de bagas e fumando um cachimbo com fumo de chocolate, e tossindo, porque não tem o hábito de fumar tão pouco de beber: - Ser um pobre estudante é horrível. A tecnologia não parece compreendê-lo, e o que deveria ser algo que o tornasse mais fácil acaba por o reter. A falha em escrever bate-me constantemente na mão e torna difícil produzir um raciocínio porque me falta um aparelho de ar condicionado. Vamos lá...  Será que a obra ou o autor vale mais?  Disse eloquente e bêbado: - Podemos dizer que o personagem de ficção passa por um controlo considerável e provável que o escritor, no seu lugar de poder, exerce sobre isto e sobre o protagonista sua influência. Haverá uma saída para isto, minha querida? Forster, a minha má influência, dá uma forma para que isto seja resolvido pela ligação entre personagens planas e redondas, em que o autor não exerce o seu poder. Por isso, interpreto-o como sendo pouco rígid...

INUTILE-DILETTANTE: diálogos



Diálogo 2:

Os cidadãos comuns, que vivem com as suas almas carsini, fora do rigor da conversa científica e do diálogo controlado, tal como estão longe de estar em contato com as vias de tratamento biopsicossocial, apropriaram-se das teorias dos senhores das almas douradas, reproduzindo as suas palavras de uma forma que o colosso chama de vulgar, referências e expressões que são, de forma velada, divulgadas pelos meios de comunicação social e aparecem nos discursos da publicidade e da vida quotidiana em geral, tornando-se quase como um domínio público, como se todos pudessem saber exatamente o que estes termos, conceitos, ideias e premissas significam, os excluídos produzem e reproduzem o que dizem ser o domínio exclusivo dos colossais. O diletantismo inútil diz a estes meios de comunicação que estes domínios não significam nada e que, portanto, é autêntico reproduzi-los pelos seus próprios meios criativos e diletantes. Pois já experimentámos o produto, no que diz respeito aos colossais e seus cânones, e eles não têm sabor nenhum, por isso, façam-no.

Assim, um Delitantista Inútil está em diálogo com um amigo num jardim, a moda árabe, de praia e é este diálogo que fala o exuberante:

"Sua monografia e escrita, Gabriel, é tão profundamente compreensível quanto o Retrato de Dorian Grey de João do Rio. Porque você me lembra que uma forma de se formar em erudição é apenas lendo as traduções de João do Rio, principalmente pela Martin Claret. Ou a obra aportuguesada que eu mais achei difícil ler. Ler o livro do Dom Quixote da Editora Montecristo Editora, está mais fácil do que ler a tradução do João do Rio pela Martin Claret. O livro da Montecristo é disponibilizado na plataforma Skeelo,.gratuitamente, rapaz.".

- Respirou por um momento olhando a praia de longe e logo voltou para o amigo com faces interrogativas:

"Às correntes letradas, eruditas e poéticas cabem somente e exclusivamente e fechadamente a atividades tediantes, monotonias, de extrema preocupação sobre a capacidade de conseguir ou não manter a merda instalada, como também a lealdade, franqueza, sinceridade, escarmenta das normas de estilo gímnico de corpo. Essas oitos qualidades são exclusivas aos extremamente letrados, acadêmicos, poéticos, eruditos. Observo isso porque sou uma espécie sentinela.".

- Riu ao terminar de falar.

"No meu trabalho como vigia, observo ginastas/gímnico que procuram um controlo extremo do corpo e julgam os seus colegas que estão à desconformidade em meu caminho, gordos e psicóticos com corpos trémulos. Os ginastas exercitam para que o seu corpo iguale ou exceda a capacidade da máquina de treino, um delinquente como eu, ao contrário desta mecanização do organismo, utiliza a máquina de treino para ir de acordo com o organismo, quer dizer, não para forçar, independentemente do treinador dizer que pode ou não ir além da máquina.".

- Ele falava enquanto contemplava os campos de Gramado à sua volta, continuamente:

"Para mim, a construção do corpo é feita de uma forma natural, sem igualar o organismo à máquina, mas fazendo a máquina funcionar no tempo do organismo, pulmões funcionam com a capacidade pulmonar e não funcionam para a máxima de uma ferramenta. Ou seja, respeitando os seus limites. Forçar um ator em palco a controlar as suas emoções como um botão faz dele uma espécie de robô oscilante, forçar um estudante a controlar as informações faz dele uma espécie de algoritmo cognitivo, fazer de um atleta igual à máquina faz dele o próprio dispositivo de treino? O meu grupo não está interessado nos mecanismos que compõem o mundo de hoje. O que é mais valioso para nós é a nova revelação das relações humanas e a aceitação da capacidade orgânica".

- Levantou-se o gordo para comprar um sorvete, sentou-se, disse:

"Mas muito do que é feito com o Delitantismo Inútil parte da escola na qual um anglicanismo é apropriado para dizer um método de validação e política para promoção da cultura não legitimada no processo histórico-social do/no desenvolvimento de um ou mais grupos étnicos. Por outro lado, estamos testemunhando uma massificação corricular de uma formação cultural comum, uma cultura que se prepara para ser letrada, acadêmica, erudita, mecânica, tecnicista, ou querer ser, negando sua própria cultura através do giro no Baobá. Todos esquecem que em cada cultura há, por parte de cada sujeito que participa dela, um anunciador diferente, uma forma que se adapta à forma de estar em um mundo de eventos cada vez mais complexo e distante das relações humanas, isso é ser delitantista.".

- Disse o homem gordo que agora estava saboreando um sorvete natural de frutas, morango. Continuo:

"Deize não se separa de Davi, diz o primeiro sobre o sujeito dentro de três processos cíclicos para a instância transcendente, falo mais, pois é onde o sujeito fazendo-se também faz a forma de se anunciar em sua cultura. O segundo, por outro lado, diz algo sobre a eterna mudança das coisas, o que justifica meu foco nos processos cíclicos, já que não há fixação em um papel para o palco, mas uma dialética para chegar sempre lá. Não vou te explicar, Gabriel... Recrie o que te digo, coloque em tuas palavras, e entenderá.".

- Terminou o sorvete olhando os campos verdes. Disse o Diletantista:

"Hoje vemos um cenário em que a força de trabalho central varre as minorias étnicas para o lado, juntamente com a força de trabalho LGBT+. Incluir a diversidade é uma palavra além do capricho aparente de uma óptica e fantasia simbólica, o que exige o, através de rotas práticas, está além de incluir, mas o desmantelamento da hierarquia de poder normatizada. As pessoas que fazem parte desta hierarquia sentem que seu trabalho é inquestionável e que seus espaços são legítimos, isto significa que dentro da força de trabalho central as pessoas dentro dos padrões normativos, homem branco, hetero, gímnico, judaico-cristão se sentem mais confiantes sobre o que faz e com os espaços que ocupam, além de dominantes sobre o último, ou seja, que sentem legítimos em excluir ou varrer para a lateral ignorada. Ou como me aconteceu dentro do ginásio gímnico do spinner, pessoas que nem se enxergam, mas me ignoravam, se negavam a dar instruções e assessoria para que eu desistisse do ritual gímnico.".

- Riu contemplando a praia ao longo. Assim colocou Gabriel reflexivo e do nada:

"Não é só por aí que eles vão estar a torcer pelo teu pior, que te percas, que te afundas nas drogas, que te matas, que te acidentes. É, obviamente, também de dentro daquilo a que somos ensinados a chamar família. Não é uma boa acção que excluirá vários discursos perversos como os cá listados neste instante. E você, sendo tão auto-suficiente que eu não compreende este pequeno pedaço cheio de gerúndios, que nem sequer sabe tu o que é tal. Então, quem está na merda agora? Quem não consegue compreender um texto simples escrito por mim, o louco? Saibas, terás nunca como os entender. Estes textos são para uma classe de Delitantistas Inúteis, e vá ler as tramas do Lorde Arthur Savile para entender.".

- Ficaram ambos reflexivos olhando a praia ao longe. Quando o gordo começou a falar:

"Entendo, Costa. Sabe... Minha mãe é uma querida quando não é uma fera, eu a amo de qualquer forma. E por isso lhe revelei que a situação indigna pela qual ela está passando hoje é culpa de suas irmãs e sobrinhos/as que votaram em Bolsonaro. Como ela é muito maravilhosa, não tal reconheceu, ela repetiu sem parar: "Mas como elas são culpadas?". Entende como o amor familiar em excesso realmente pode cegar? A família não precisa está muito alto, nem tão maior que nós mesmos, creio.".

- O amigo não entendeu a correlação, mas se tratando de um Diletantista Inútil sabe-se que articulação entre parágrafos e sentidos não se fazem prioridade, portanto, o Diletantista continuou:

"Têm muitas coisas que não compreendo, Gabriel. Tal como você... Ou a Júlia! Que pode não ter respondido meus sentimentos na faculdade...".

- Ambos riram. Continuou:

"Francamente... Sabe, estava lendo sobre a utopia do comunismo e percebi que, na transição do socialismo para o comunismo, há o desaparecimento do estado que desencadeia o prodigioso desenvolvimento das forças produtivas, creio que é no sentido de gigantesco, era da abundância, que pela maneira como escrevo, alguns saberam de que livro e página se trata, pois bem, tal prodigioso desenvolvimento levaria à essa era da abundância, ao fim da divisão do trabalho em tarefas subordinadas e superiores, à ausência de contrastes entre cidade e campo, indústria e agricultura. Reconheço certamente que a existência do Estado traz todos estes contrastes e determinações repulsivas a favor dos donos do capital, que com o seu fim pode levar ao contexto transfalado, digo, [/crito], mas, paralelamente a isso, não posso imaginar um ponto que seja o de um desenvolvimento prodigioso com a inexistência de classes, tal característico desta etapa, seu ingênuo sobre o entendimento da era da abundância. Me esforço sempre para imaginar um desenvolvimento prodigiosos sem classes que leva a abundância de alguma, algumas era, eras...".

- Riu o Diletantista de si próprio. Voltou ao tom sério e disse como que estivesse surpreso com algo que havia pensado:

"Mas entendi uma coisa de Marx, caro Costa... Que a sociedade está estruturada em dois níveis, o da infra-estrutura e o político-ideológico. O que me interessa mais é a infra-estrutura, pois nela existem dois tipos de relação, a da natureza e a dos indivíduos entre si. E embora ambas estejam em grande declínio hoje, um Diletista Inútil está sempre ocupado falando sobre a relação entre os indivíduos cada vez mais distantes devido à tecnologia e aos encontros de defesa com nomes remotos. É interessante como esta relação começa na indústria e se estende ao ambiente social, ou seja, as relações com proprietários e não-proprietários são tão devastadas quanto a relação entre não-proprietários e meios e objetos de trabalho ou tão drásticas como no meio social. Basta olhar para o novo RH e ficar desapontado ao encontrá-lo robotizado, como se essa fosse uma simples tentativa de não deixar o RH ao alcance do trabalhador que tiver algum problema. É como tirar os óculos de alguém que está tendo problemas de visão, Gabriel.".

- Ficou com os olhos arregalados, perplexo, e balançando a cabeça em afirmativo, repetindo "é" em um intervalo bem longo, como que abismado. Disse:

"A sociedade gímnica, ou sociedade de atletas, determina e reforça quem é aquele que não está nos moldes gímnicos. Dessa forma contribui para a determinação/condicionamento de quem é emudecidoinvisibilizado, inerte a partir do tipo de corpo que o sujeito discriminado tem, dentro disto a etnia, a conduta, a expressão que está ou não em contraste com a referência de identidade gímnica, que é a base moral do ginasta desde dos reforçados movimentos gímnicos do notário método ginástico francês do século XIX.".

- Voltou a falar:

"São os intelectuais que elaboram as ideias hegemônicas que aparecem no julgamento de um e de outro. E isso começa tudo pelo sistema classista, que é a estruturação da escola que prepara seus pensadores para serem atraídos a aliar-se aos valores vigentes dos dominadores. Enquanto isso nas classes dominadas a desconsciência cada vez mais se eleva e ocasiona a desorganização, passividade e dependência, e mesmo que tivesse uma grande rebelião essa dependência não seria alterada.".

- Arrotou, continuou:

"Por essa razão a necessidade de intelectuais orgânicos, que surgem organicamente a partir de suas próprias séries e contrapõe os intelectuais tradicionais que generalizam os valores das classes dominantes. Sua finalidade, do intelectual orgânico, é formar, de modo próprio, lógico, conexo a concepção de mundo dos dominados, coisa que o intelectual tradicional é incapaz de pensar e fazer.".

- Ficou reflexivo por um momento e disse:

"Não sou apenas um escritor dadaista diletante, porque não estudei para ser um professor de língua portuguesa, mas um professor de comunicação e expressão. Pois vejo que educar, por ocasião de ser letrista, é um posicionamento político e meu posicionamento é contrário ao preconceito lingüístico que imobiliza, inviabiliza, silencia pelo exercício tanto dos alpes treinados em gramática prescritiva quanto aos maiores sábios em gramática normativa. Dane-se a gramática prescritiva, expresse-se!".

- Voltou rapidamente a falar:

"Observa que uso o termo letrista como alguém que tem um diploma em letras ou que estuda letras? Revelo que sei que na NORMA significa quem faz letras de música ou quem faz desenhos de letras, mas para mim o primeiro é o lírico e o segundo um fonteiro. Vê como a norma é uma coisa quadrada? Tem que se espiralar! Tem que ser mais dadá. Como, aquele bigode não é da/a Monalisa, mas aquele bigode foi colocado na Monalisa para dar-lhe seu próprio significado. Assim, recortei a palavra letrista de sua página de revista com seu significado fechado e expandi seu significado para algo a mais e propriamente meu, minha página de colagens."

- Continuou:

"Para mim o fato social muda o significado da palavra à medida que cada grupo social constrói o significado de suas palavras no tempo em que as fala e paralelamente ao tempo em que já foram ditas. A linguagem surge dentro de um fator social e através dele e de tudo o que a linguagem contém por ele, ainda assim é independente do indivíduo, ou seja, tem um caráter de exterioridade que define o fator social na linguagem que é notável pelas variações lingüísticas que dependem das condições externas. Para compreender a linguagem é necessário referir-se à diacronia e à história. No processo da linguagem, diacronia e sincronia são postadas ocasiões juntas, já que a estrutura é construída no tempo presente pela história passada e com a história descreve-se.".

E disse mais:

"Havia um pesquisador chamado Bernstein, pouco notado, ele fez uma pesquisa sobre as produções lingüísticas reais paralelas as situações sociais dos falantes e isto foi baseado na constatação onde a taxa de alfabetização das crianças das classes trabalhadoras foi diferente da das crianças das classes abastadas e portanto haveriam produções lingüísticas diferentes e foi assim que ele verificou. Assim se postulou o código restrito e o código elaborado no qual concluiu que a aprendizagem e a socialização são marcadas pela família na qual a criança é criada e que é a estrutura social que determina juntamente com os comportamentos lingüísticos seu tipo de código. Dessa forma se discreveu a diferença linguística partindo da diferença social. Mais tarde apareceu William Labov que mostrou que ao invés de código as características lingüísticas dessas "classes polares" tratavam-se de estilos. Para mim um estilo cabe a uma decisão, quem segue um estilo o segue por opção, como a autonomia de escolher que calça irá vestir neste dia, mas quando se é da classe trabalhadora você não tem muitas opções de roupa, portanto quem faz seu estilo é o seu poder aquisitivo, que serve bem como uma âncora, e nessas circunstâncias, de heteronomia, não é devidamente um estilo, mas sim uma condição social. É por esses motivos que concordo com o termo código de Brasil Bernstein. Apenas faria algumas alterações, como o ampliar para código de classe aa, a, ab, b, bc, c, cd, d, de, e. Mas, obviamente, cabe um alfabeto inteiro. Sobretudo, posso dizer que a diversidade linguística é condicionada pelos fatores socioidentitários do falante, destinatário e no contexto.".

Rindo, pareceu perder a realidade, e começou a falar algo completamente nada a ver com o que havia contado até então:

"Minha família e minha mãe sempre dizem que eu sou inteligente, que sou especial, que sou alguém bom, que sou um anjo, que posso conseguir o que eu quiser se eu estiver bem concentrado. Bem, eu não me acho nada parecido com isso. Para dizer a verdade, nada muito grandioso é como me sinto. Aprecio o que não é regrado, prescritivo, normatizado, mecanizado, cerimôniado, santificado, intelectualizado. Tenho apreço pela loucura, por isso que sou um diletantista ao estilo de Arthur Savile.".

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