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Destaques

DIÁLOGO IV

Disse o velho gordo mal cabendo na sua cadeira de bar, bebendo um coquitel de bagas e fumando um cachimbo com fumo de chocolate, e tossindo, porque não tem o hábito de fumar tão pouco de beber: - Ser um pobre estudante é horrível. A tecnologia não parece compreendê-lo, e o que deveria ser algo que o tornasse mais fácil acaba por o reter. A falha em escrever bate-me constantemente na mão e torna difícil produzir um raciocínio porque me falta um aparelho de ar condicionado. Vamos lá...  Será que a obra ou o autor vale mais?  Disse eloquente e bêbado: - Podemos dizer que o personagem de ficção passa por um controlo considerável e provável que o escritor, no seu lugar de poder, exerce sobre isto e sobre o protagonista sua influência. Haverá uma saída para isto, minha querida? Forster, a minha má influência, dá uma forma para que isto seja resolvido pela ligação entre personagens planas e redondas, em que o autor não exerce o seu poder. Por isso, interpreto-o como sendo pouco rígid...

INUTILE-DILETTANTE: diálogos

Diálogo 3:

Aqui apresenta-se parte de uma produção integralmente fictícia integrada à obra “O Dicionário do Professor” escrita pelo pseudônimo Dinis Calixto – quaisquer semelhanças com a realidade é mera coincidência. Onde a história começa de uma entrevista, sendo tal descrita abaixo:

Um jornal entrevistou um professor, qual a identidade será preservada – Henry Cromwell –, e decidimos divulgar as suas palavras para que os alunos fiquem espertos e construam mais razões para se unir, pois uma ameaça neoliberal, típica de uma personalidade autoritária oculta, ocupa as mentes docentes. Para participar do nosso jornal envie a sua história para o editor Mariposa.

Assim fez-se esta entrevista:

Um jornalista perguntou a um burgão: - Qual é o aluno ideal para a sua instituição?

E o homem gordo e pálido respondeu: - Não é óbvio? Pois é aquele que não precisa do livro da biblioteca, porque tem dinheiro suficiente para comprar os seus próprios livros. Assim também a instituição não precisa comprar muitos volumes ou se preocupar em aumentar a biblioteca; O único que pode ser um estudante decente é aquele que conhece mais do que uma língua e vive sozinho num bairro tranquilo com vizinhos tão civilizados como o próprio silêncio. É o sujeito que sabe ler e interpretar um texto com termos tão antigos como invulgares. E que não tenha filhos ou uma grande família para ocupar o seu precioso tempo com desculpas esfarrapadas. Que tenha computador, notebook, tablet, impressora, telemóvel do mais moderno e nada obsoleto. Que não se queixe da didáctica e da metodologia de ensino dos seus professores, porque tal como aluno deve aceitar a situação em que se colocou e não admitir a transferência de culpa para qualquer professor com emails chatos e persistentes típicos de reclamações desesforçados, burros e carentes de atenção. Mas que ele também saiba escrever como uma pessoa decentemente alfabetizada e útil. E que não se queixe, nas suas costas, falando sobre as deficiências de um sistema que nem sequer conhece o nome correto e como é a sua associação adequada. E também que venha com o seu próprio veículo para a instituição, assim poderá sair tarde, e que trabalha pouco e que se alimente rápido e não fique o tempo todo a ir ao toalete; Se seus estudos vão mal, então que seja sugerido que largue sua família de enfermos e seu trabalho. E a partir do zero, procure investidores para lhe dar tempo, uma casa própria devidamente equipada com recursos, tecnologia e livros que custam mais do que o cocó de uma galinha no mercado; É da responsabilidade do aluno preencher a lacuna da educação desde o seu primário e ele conseguirá isso procurando investidores, como um estudante decente, civilizado e ideal. É por isso que existem apoiantes da educação, para que os estudantes corram atrás deles, mesmo que seja a pé e sem sapatos.

Jornalista: Muitos alunos de classe média baixa dizem não compreender o vocabulário dos livros da Editora Contexto e que preferem da Editora Intersaberes. Como o senhor explica esse evento?

Burgão: Pura preguiça, porque há inúmeros dicionários e todos eles estão disponíveis na biblioteca física e virtual. E a Intersaberes não detém todo o conteúdo ou termos necessários para uma formação universitária. O estudante está habituado a ser alimentado na boquinha, justifica-o pela sua situação social esfarrapada, mas isso não é senão frescura. Tivemos uma excelente turma que estudou e compreendeu palavra por palavra do livro de Martelotta, um livro que está no currículo como leitura obrigatória e que é desta editora que mencionou. Um dos alunos desta turma tinha apenas um lápis, que deveria durar por um mês, e estudava de baixo de uma escada que era onde vivia, partilhou este único lápis para os outros irmãos estudarem também, leu o livro num ônibus apinhado que ia e voltava sufocante, disse-me, e mesmo vindo de uma escola municipal fechou com dez. Se ele pode fazê-lo nos seus próprios termos, alguém em melhores ou piores condições também o pode fazer, todos o podem fazer, tudo o que têm de fazer é fazer um esforço e querer fazê-lo.

Jornalista: Ficamos sabendo que um aluno na instituição, autodeclarado de Mariposa, imprimiu textos para apontar seus sentimentos de queixa pessoal quanto ao que ele chama de "sistema injusto da formação superior". Ele pregou textos em murais que podem se ler agora em formato de diálogo. O que o senhor diz sobre isso?

Burgão: O seu trabalho é o resultado de uma deformação mental. Este "sistema injusto da formação superior" é um delírio paranóico, pois não é nada difícil ter uma formação superior, é que essa gentinha chora por tudo para não se esforçar. Está implícito quem é este sujeitão. Ele queixa-se sempre das mesmas coisas. Só porque não tem a capacidade de compreender um assunto, queixa-se ele nos corredores da instituição. Ele afirma ser um escritor, mas mal consegue escrever. Obviamente, um escritor só pode ser considerado tal se souber escrever. A sua deformação é tamanha que dificilmente se consegue compreender os seus textos. Então porque devemos parar para ler esta criatura rara? Em vez de falar mal do seu curso, deveria estudar mais, ou abandonar a instituição, porque está longe de ser o perfil de aluno ideal.

Jornalista: Inclusive, ele escreveu este texto.

Burgão: Quando souber usar "esse" e "este" lhe darei uma resposta direta.

Jornalista: O que você acha da expressão que diz que um professor nunca vai entender a posição do aluno?

Burgão: Digo que desde que ensinei na escola primária tenho visto pais que não fizeram um esforço para compreender a posição do professor, isto é certamente transmitido aos seus filhos e quando chegam à faculdade são eles que têm uma resistência em não compreender a posição do professor, nunca é o contrário, porque um professor sabe o que é melhor para o aluno e o melhor para muitos deles é que amadureçam e se tornem mais eficientes.

Jornalista: Eficientes pra quem?

Burgão: Para eles próprios, se não a própria vida os ensinará.

Jornalista: Para eles próprios, tem certeza?

Burgão: E para quê seria?

Jornalista: Para um mercado.

Burgão: Risos.

Jornalista: Avisar que ficará de prova final em cima da hora, para favorecer o prazo de entrega de notas, encurtando o tempo que o estudante têm para estudar. Por exemplo, a prova final será na quarta, então publicará as notas na terça, dando um prazo de horas para que o estudante estude o conteúdo da prova. O que o senhor acha disso?

Burgão: O estudante tem de estar sempre pronto para estudar tudo em poucas horas. O professor nunca se engana ao publicar as notas um dia ou no dia do exame final. Se achar que se saiu mal, deve começar a estudar de agora, esperar pela confirmação é uma coisa de preguiçoso.

Jornalista: Mas custa muito publicar as notas antes da semana da prova final?

Burgão: Custa mais trabalho e eu não vou pôr mais trabalho, porque à instituição que sou a prioridade, eu sou o professor, não se pode ter uma instituição sem um professor, mas obviamente pode-se ter várias com poucos ou nenhum estudante.

Jornalista: Quando uma sala não "rende" o necessário o que o senhor ver ser o melhor a se fazer? Aliás, o que significa "render" para o senhor?

Burgão: Para mim, rendimento significa desempenho e desempenho significa lucro e lucro, neste sector, significa que o estudante absorveu mais do que estava previsto. Quando este desempenho não ocorre, o estudante terá de falhar, porque não cedeu o necessário para seguir em frente. Como professor não posso carregar quarenta alunos, só posso carregar dez e escolherei os dez que tiveram mais facilidade para passar o assunto, aqueles que não acharem fácil o conteúdo, e por isso não podem acompanhar-me, deixá-los desistir ou falhar, não posso levar o mundo sobre os meus ombros, facilitarei a minha vida e acompanharei e caminharei com os dez que estão comigo, deixarei ficar os que estão atrasados, terão de ir ao seu próprio ritmo, não forçarei uma lesma a acompanhar os meus amados coelhos. Deixe a lesma ficar no seu próprio tempo, durar o tempo que durar, esse é o seu próprio problema. Até ter sucesso como os outros. Mas tudo depende mais dela. Já me formei, já sou doutor, não tenho de estar a segurar a mãozinha de todos.

Jornalista: Os "alunos lesmas", como o senhor diz, se sentem ofendidos e humilhados. O que o senhor pensa sobre isso?

Burgão: Humilham e ofendem a si próprios. Se quiserem facilitar, devem procurar outra instituição. Aqui não há lugar para todos, isto já está explícito no processo de selecção, aqui só há lugar para o melhor, aqui é uma instituição para coelhos, pulmas e onças-pintadas. O público é apenas a maquilhagem insuficiente, mas é verdade que o público deve pagar pela formação do melhor, mesmo que não seja o público que entre aqui, porque aqui não há lugar para estranhos, o porteiro já disse quando pedi-lhe a identificação na entrada. Há uma identidade para estar aqui e não é do tipo do soletra mal como o teu chefe.

Jornalista: Meu chefe apenas pensa que seu pensamento deve ser mais comentado, por isso escreve neste jornal. Mas enfim... O senhor não considera que seu tipo de pensamento está fechando o ensino público para pessoas de classes mais desfavorecidas, quais deveriam ter igual direito ao ensino superior?

Burgão: E desde quando que somos um sistema inclusivo? Se tu está aqui, é porque alguém mais pobre não pode estar aqui. Quer seja um professor ou um estudante. O processo de selecção exclui mais por situação social. Pergunte a quantos das margens se sentem bem fazendo o Enem e quantos dos mesmos lugares se sentem estúpidos. Professores e estudantes não são tão diferentes de mim, se fossem eles estariam a questionar mais sobre os seus lugares, as suas aulas, o seu sistema de avaliação. Mas olha para estas mulas, elas não podem escrever nada para protestar contra um professor que se gaba de mostrar um domínio, controle estreito e exclusivo de um conteúdo que os menos educados mal podem se fornecer de uma base. Se fossemos inclusivos, não teríamos cortado notas e cedido poucos lugares aos inclusivos. Mas somos mestres do nosso falo, que nunca ultrapassaram a fase anal e oral; Não é a vossa impressão, verme desaprendido, que quando vos falhar no primeiro semestre, quero que desista. Porque eu sou o professor e defendo o melhor para a instituição, e o que é melhor é que tu vá a sair. Sinta-se convidado a sair, seu estúpido caducado... Porquê ler-me com um olhar franzido quando é a sua personalidade oculta que está nestas palavras, tão bem expressas nos seus atos; Basta vir até à porta e dizer que está interessado em estudar connosco e logo será enxotado. Ah, mas Isso já é demasiado Antigo, é explícito do meu eufemismo onde Isso começou.

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