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DIÁLOGO IV

Disse o velho gordo mal cabendo na sua cadeira de bar, bebendo um coquitel de bagas e fumando um cachimbo com fumo de chocolate, e tossindo, porque não tem o hábito de fumar tão pouco de beber: - Ser um pobre estudante é horrível. A tecnologia não parece compreendê-lo, e o que deveria ser algo que o tornasse mais fácil acaba por o reter. A falha em escrever bate-me constantemente na mão e torna difícil produzir um raciocínio porque me falta um aparelho de ar condicionado. Vamos lá...  Será que a obra ou o autor vale mais?  Disse eloquente e bêbado: - Podemos dizer que o personagem de ficção passa por um controlo considerável e provável que o escritor, no seu lugar de poder, exerce sobre isto e sobre o protagonista sua influência. Haverá uma saída para isto, minha querida? Forster, a minha má influência, dá uma forma para que isto seja resolvido pela ligação entre personagens planas e redondas, em que o autor não exerce o seu poder. Por isso, interpreto-o como sendo pouco rígid...

INUTILE-DILETTANTE: diálogos

Diálogo 4:

Disse o velho gordo mal cabendo na sua cadeira de bar, bebendo um coquitel de bagas e fumando um cachimbo com fumo de chocolate, e tossindo, porque não tem o hábito de fumar:

- Ser um pobre estudante é horrível. A tecnologia não parece compreendê-lo, e o que deveria ser algo que o tornasse mais fácil acaba por o reter. A falha em escrever bate-me constantemente na mão e torna difícil produzir um raciocínio porque me falta um aparelho de ar condicionado. Vamos lá...  Será que a obra ou o autor vale mais?

Disse eloquente e bêbado:

- Podemos dizer que o personagem de ficção passa por um controlo considerável e provável que o escritor, no seu lugar de poder, exerce sobre isto e sobre o protagonista sua influência. Haverá uma saída para isto, minha querida? Forster, a minha má influência, dá uma forma para que isto seja resolvido pela ligação entre personagens planas e redondas, em que o autor não exerce o seu poder. Por isso, interpreto-o como sendo pouco rígido. Mas Bentley, que não me atrevo a ler, ficou bastante surpreendido ao perceber que ao não seguir a regra ele consegue, mesmo que isso vá contra a sua lógica, abandonar a classificação de uma forma descontraída.

Tragou de modo imaturo o cachimbo com fumo que acendia trêmulo, tossindo, expressou:

- E Forte para expressar apoio à liberdade do escritor diz que toda a complexidade do método é resolvida não por fórmulas, mas pelo poder do escritor de levar o leitor a aceitar o que ele diz. O Dilettantismo Inútil parece usar isto, mas não consegue sustentar o lugar de poder do escritor. O Dilettantismo Inútil deixa o lugar do poder fluido, entre leitor e escritor, por vezes num, por vezes no outro, depende do momento poético e do momento prosaico.

Tomou em um longo gole a bebida avermelhada, acabou, pediu uísque com sorvete, qualquer um, pois não sabia nada de uísques, disse:

- Porque um diletantista inútil vive em omissão, sem valor nenhum e descartável, que não se preocupa com mui-muitos significados em sua escrita, regras, normas, coerências, poder, isso devido à sua desnutrição de letramento e erudição. Um ser que se apropria na maior cara-de-pau da criação através da experiência de automatismo e da criação através dos materiais bizarros dos seus sonhos.

Puxou as roupas folgadas que pareciam marcar suas dobras e falou:

- Para além da escrita automática e do automatismo artístico, um labirinto de nada absoluto sem razão, há um ser-aqui/alí/aí. E por essas razões, perturbadoras e malucas, talvez André Breton diria que este é um Diletantista Inútil com um toque surreal, mas por causa de um favoritismo por Marcel Duchamp e sua paixão e influência por Grant Morrison - principalmente quando este autor escreve suas criações de personagens dentro de uma confusa e desmontada pirâmide de Gustav Freytag ou quando este autor embaralha ou acrescenta outras letras para um neologismos no ABDCE de Alice Adams, por isso tudo.

Balançou a cabeça. Pediu um copo d'água, bebeu em um gole, pediu mais uísque, disse:

- Esse Diletantista Inútil se apresenta também como um Dadá. Mas quem se importa com o que este proletário autor de classe baixa é? Para quê serve mesmo este espaço? Esquece...

Suas mãos estavam tremendo. O barman perguntou se ele estava bem, não respondeu, apenas disse:

- Este autor fez de temática, em uma precária prosa escrita, o insuportável autoritarismo que reina neste cú de governo de bozonero, qual cagou a sua rigidez moral com seus eleitores chamados de ultracontroladores FDPs. Merda, ainda existe isso!? Mesmo tão longe da época de ouro do Wildeanismo, posso sentir o cheiro escroto dos clones do nono marquês de queensberry.

Uma mulher passou. Olhou para ela enquanto atravessava o salão. E enquanto olhava, falava:

- A classe de Diletantismo Inútil, qual proclamo, me coloco e me chamo, é uma classe orgulhosa de pessoas que se consideram nada eruditas e pouco letradas, e não se preocupam com as enormes normas; padrões; significados estabelecidos de modo capitalista; fama; coerência; nutrição de letramento; engordamento de erudição; controle estreito. Mas sim têm apreços pela bizarrice, burrice, psicose, neurose, espontaneidade, entusiasmo, automatismo, confusão, descontrole, emocional. Constitui-se sendo o desmontar da pirâmide de Gustav Freytag e embaralhar das letras de Alice Adams. É escrever errado. Mas se na ocasião sentir precisar, corrigir da forma que lhe convém.

Arrotou. Disse:

- Obviamente é ser completamente emocional e sentimental, assumir suas doideiras, neologismos como portas para explorar significados íntimos, seus pensamentos corriqueiros, automatismo, seus impulsos emocionais, que rejeita todo tipo de racionalidade e equilíbrio, ridiculariza as normas condicionadas pelas relações da civilização capitalista, condutas mercenárias e mercantilistas, tudo somente pela literatura, ou seja, pela construção de textos literários, fantasiosos, bizarros, incompreensíveis. E se na ocasião não se considerar esses textos literatura, que sejam eles iliteratura. Digo, pensando muito nas passagens do senhor João Cabral De Melo Neto. E não deixando a desejar a intromissão do Diletantismo Inútil nas produções acadêmicas, sem ferir a ABNT, mas a driblar sutilmente. Sendo que o Diletantismo Inútil uma linha de estilo de escrita que, lendo muito das manifestações do dadaísmo, eu mesmo me coloco. Em síntese pode-se dizer que é fazer arte, mais uma arte muito profundamente espiritual e nada reveladora, o que seria o mesmo que dizer que quando vinda à luz só se pode ser merda.

Peidou alto de uma forma que as pessoas perto fecharam as caras, enquanto ele dizia, falando para o que parecia a parede a sua frente:

- Os estudos das artes ultra-aristocráticas, como falava o Wildeanismo, a partir da tradução de Martin Claret, em um livro que seus poderes telepáticos saberão qual se tratar, que atualmente, ousou colocar, perpetuam com o pequeno burguês e não fazem absolutamente nada, se não completamente, além de tornar exclusivo o raciocínio de bunda fechada ou de merda bem presa, um controle estreito do que tá dentro e do que tá lá fora, pela extrema burocratização no processo de obtenção de erudição, letramento, engordamento acadêmico, poesia, latim, outras línguas que secam o ânus.

Sempre que ele pega o copo de uísque, suas mãos tremem. Tanto a que segura o cachimbo, agora já apagado, tanto a que leva a bebida aos lábios. Falou enquanto isso:

- Por estas razões o Diletantismo Inútil desiste de submeter-se aos processos burocráticos de fechar asno para obter do título de letrado, qual no controle burguês tintou as ruas portuárias e os rios de cava subaquática de farelos cinzas industriais. Ao invés disso abraça o desletramento, para o livre exercício de cagar, principalmente a merda feita, sem palavras difíceis, mas sim palavras inventadas, palavras desconexas, palavras que não precisam de fundamento, embora se tiver, não haverá problema em reconhecer, deixar de canto o que se construiu com o letramento.

Acendeu o fumo no cachimbo trêmulo e falou:

- Os lugares da literatura e da arte são lugares privilegiados a grupos seletos que não largam o osso do letramento para exaltar seus eus lógicos e controladores, por isso um gordo de roupas largas que se chama de Diletantista Inútil se faz no seu próprio lugar de loucura, para então cercar a arte e a literatura de “estranhos sinistros” vindos de um bairro portuário. Lançando o desraciocínio junto com o desletramento como uma forma aberta de sempre está para se desmontar em automatismo, descontroladamente pelas emoções extremamente molhadas. Ao contrário do raciocínio e do letramento extremo que procuram por se fixar sem emoção na aridez.

Alguém falou ao seu lado "que cheiro podre! Por favor, bartender, um skank ou haxixe", o bartender entregou como que escondido dizendo "torce pra não ser merda de cavalo". O homem passo lento olhou tudo enquanto falava para si mesmo bêbado:

- O desraciocínio junto com o desletramento, típico do meu modo diastrático e diafásico ou desprescritivo e desnormativo,  completamente distante da gramática prescritiva, buscam no meu perfil, para a racionalidade estabelecida pela estrutura da identidade-referência neoliberal vigente, o desmontar, agredir, destruir de modo sátiro, grosseiro e na inusitada palhaçada que se junta a declarações absurdas e visam ocasionar sempre a incompreensão.

Bebeu mais um copo enorme de água, molhando todo o queixo para baixo devido a forma acelerada que bebia. E falou:

- Agora vamos falar do camarada Forster. Qual seu nome, minha cara?

Respondeu o moço do bar:

- Lucas. Vou chamar um táxi para o senhor, já está na hora de rir. Quem sabe outro dia me fala sobre esse seu amigo. Vou pedi para o segurança acompanhar o senhor até o carro.

Disse ligeiro o Diletantista Inútil:

- Antes um cigarro, Black.

O moço do bar entregou e chegou o segurança para o levar para o carro. Partiu.

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